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Cooperação Sul-Sul Brasileira no setor algodoeiro: da África Ocidental para a África Oriental

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A Agência Brasileira de Cooperação (ABC) organizou em parceria com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA) uma missão no Condado de Kisumu, no Quênia, com o objetivo de implementar um projeto piloto “Cotton-Victoria” para a melhoria da cultura do algodão na região. O projeto é uma iniciativa do governo brasileiro, em parceria com o Instituto Brasileiro de Algodão e, por intermédio da ABC, objetiva revitalizar o setor cotonicultor em três países da África Oriental, sendo eles: Quênia, Burundi e Tanzânia[1].

A missão de prospecção da ABC e da EMBRAPA foi realizada no período de 23 de novembro a 22 de dezembro de 2013, com o intuito de elaborar o projeto na região. A missão realizou encontros com autoridades, representantes de cooperativas algodoeiras, pesquisadores e pequenos agricultores de algodão nos países selecionados[2]. Após a análise das potencialidades e fragilidades de cada região, o governo brasileiro escolheu o Condado de Kisumu como o centro operacional do projeto, para o desenvolvimento do projeto Cotton-Victoria[3]. A meta é usar as tecnologias mais recentes para gerar diferentes sementes de algodão, assim como ensinar diferentes técnicas de manejo para os agricultores locais[3].

O centro será situado no Kibos Kenya Agricultural and Livestock Research Organization (KALRO)[4]. De acordo com Carlos Canesin, da ABC, a expectativa é de iniciar os experimentos na metade de 2015 e analisar como o projeto irá se desenvolver. Dessa forma, os agricultores do Quênia, Burundi, Tanzânia e Uganda terão a chance de produzir sementes tolerantes e de qualidade[4].

Esse movimento em direção à África Oriental demonstra uma inovação no ramo da cooperação técnica sul-sul no campo algodoeiro. O Governo brasileiro já tem atuado no apoio técnico aos produtores de algodão nos países africanos. Entretanto, a relação ocorre com os países da África Ocidental, participantes do grupo denominado Cotton-4, sendo eles: Benin, Burkina Faso, Chade e Mali[5]. Em meio às particularidades de cada um dos países, três fatores comuns interferem na produtividade da cadeia do algodão: 1) o controle biológico de pragas; 2) o manejo integrado do solo e; 3) a gestão de variedades de sementes. A primeira fase do Programa de Apoio ao Desenvolvimento do Setor Algodoeiro dos Países do Cotton-4 encerrou no final de 2013, com a inauguração das instalações da Estação Experimental de Sotuba, no Mali, com o compromisso de ser um polo regional de pesquisa agrícola[6]. Na primeira fase do projeto, 425 técnicos dos países do C-4 foram capacitados em três técnicas agrícolas sustentáveis[7].

A segunda etapa foi iniciada em 2014 com a participação dos quatro países presentes na primeira e a inclusão do Togo, através do projeto “Reforço tecnológico e difusão de boas práticas agrícolas para o algodão nos países do C-4 e Togo[6][7][8]. Para a segunda etapa, a Embrapa tem o objetivo de instalar um Centro Regional de Recursos Genéticos no Mali, Unidades de Teste e Demonstração (UTDs) nos cinco países africanos, laboratórios de criação de insetos e demais melhorias na capacitação dos técnicos[8].

Após resistência da comunidade internacional e dos moçambicanos sobre a atuação da EMBRAPA através da cooperação triangular do BrasilJapãoMoçambique[9], inclusive com a elaboração de uma carta aberta para deter o Programa ProSavana[10], as políticas voltadas para o setor algodoeiro parecem solidificar o papel da EMBRAPA como especialista nas tecnologias voltadas para a produção de sementes e no manejo da terra na agricultura. A própria expansão de suas atividades da África Ocidental (pelo projeto Cotton-4 + Togo) para a África Oriental representa as demandas por tecnologias em contextos institucionais diferentes, mas marcados por baixas produtividades no setor primário.

Curiosamente, a presença brasileira no leste africano destoa da atual estratégia do governo brasileiro no continente por dois motivos. Em primeiro lugar, com a exceção de Moçambique que está entre o leste e o sul do continente africano, os demais países lusófonos africanos – Angola, Cabo Verde, Guiné Bissau e São Tomé e Príncipe – se situam no lado ocidental da África. Em segundo lugar, além das relações estratégicas do governo brasileiro com os países lusófonos, atualmente há questões securitárias relacionadas com o Atlântico Sul. Em ambos os casos, as ações prioritárias da diplomacia brasileira se resumem aos países da costa ocidental da África. Como exemplo, após anunciar o patrulhamento do Chifre da África no combate à pirataria da Somália[11], a Marinha do Brasil (MB) precisou emitir uma nota de esclarecimento sobre a maior representatividade no continente africano e que a maior participação no combate à pirataria requer o alinhamento às diretrizes de Política Externa Brasileira e do Ministério da Defesa[12]. Na nota, a MB destacou os exercícios ATLASUR (entre a África do Sul, Argentina, Brasil e Uruguai), o FELINO (exercício realizado pelos países da Comunidade dos Países de Língua PortuguesaCPLP) e IBSAMAR (conduzido pela Índia, Brasil e África do Sul), todo no Atlântico Sul e com foco para o litoral brasileiro e a costa ocidental africana[12].

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Imagem (FonteHivisasa):

http://www.hivisasa.com/sites/default/files/field/image/cotton.jpg

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Fontes Consultadas:

[1] VerPerfil da Agência Brasileira de Cooperação em rede social”:

https://www.facebook.com/ABCGovBr/photos/a.494864277308879.1073741828.494492490679391/607544276040878/?type=1

[2] VerAgência Brasileira de Cooperação”:

http://www.abc.gov.br/imprensa/mostrarnoticia/481

[3] VerHIVISASA”:

http://www.hivisasa.com/kisumu/agriculture/117840/brazilian-government-set-cotton-industry-kisumu

Ver tambémStar.ke”:

http://www.the-star.co.ke/news/brazil-help-revive-cotton-farming-through-research

[4]  VerDaily Nation”:

http://www.nation.co.ke/counties/Brazil-to-build-cotton-seeds-lab/-/1107872/2519112/-/ne251yz/-/index.html

[5] VerAgência Brasileira de Cooperação”:

http://www.abc.gov.br/Projetos/CooperacaoSulSul/Cotton4

[6] VerGrupo Cultivar”:

http://www.grupocultivar.com.br/site/content/noticias/?q=38395

[7] VerAgência Brasileira de Cooperação”::

http://www.abc.gov.br/imprensa/mostrarnoticia/572

[8] VerEmpresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária”:

https://www.embrapa.br/cotton-4-togo

[9] VerDW Notícias”:

http://www.dw.de/programa-brasileiro-prosavana-causa-temor-de-conflitos-de-terra-em-mo%C3%A7ambique/a-16916129

[10] VerAssociação Brasileira de Organizações Não Governamentais”:

http://www.abong.org.br/notas_publicas.php?id=6219

[11] VerDefesa.net”:

http://www.defesanet.com.br/africa/noticia/16553/MB-se-aproxima-da-Uniao-Africana-e-pode-patrulhar-%E2%80%98chifre-da-Africa%E2%80%99/

[12] VerDefesa.net”:

http://www.defesanet.com.br/africa/noticia/16655/

João Antônio dos Santos Lima - Colaborador Voluntário

Mestre em Ciência Política na Universidade Federal de Pernambuco e graduado em Relações Internacionais na Universidade Estadual da Paraíba. Tem experiência como Pesquisador no Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) no projeto da Cooperação Brasileira para o Desenvolvimento Internacional (Cobradi). Foi representante brasileiro no Capacity-Building Programme on Learning South-South Cooperation oferecido pelo think-tank Research and Information System for Developing Countries (RIS), na Índia; digital advocate no World Humanitarian Summit; e voluntário online do Programa de Voluntariado das Nações Unidas (UNV) no projeto "Desarrollar contenido de opinión en redes sociales sobre los ODS". Atualmente, mestrando em Development Evaluation and Management na Universidade da Antuérpia (Bélgica) e Embaixador Online do UNV na Plataforma socialprotection.org.

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