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Coréia do Norte ainda acredita que “Programa Nuclear” é sua fonte de “sobrevivência”

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A Coréia do Norte continua sendo o centro das atenções das grandes potências asiáticas e ocidentais devido as suas políticas e experiências no setor nuclear, que vão desde o uso para a geração de energia até a sua utilização para a fabricação de armamentos.

 

No ano de 2009, quando Pyongyang anunciou seu “Programa de Enriquecimento de Urânio”, a Coréia do Sul e seu principal aliado, os Estados Unidos, voltaram as atenções para os movimentos e avanços do governo comunista norte-coreano. Os avanços no programa trouxeram preocupação para estas duas nações e também ao Japão, outra grande potência, que se situa próxima geograficamente da “Península Coreana” e por isso tem maiores efeitos geopolíticos.

Ainda em 2009, Washington e Seul solicitaram a interrupção deste tipo de Programa, com receio de que o governo norte-coreano desenvolvesse armas atômicas. Desde então, as potências globais e regionais, EUA, Rússia, China, Japão e a Coréia do Sul, reuniram esforços para convencer Pyongyang a desistir do intento em troca de auxilio econômico, iniciando-se a denominada “Negociações a Seis”.

No decorrer dos últimos dois anos estas negociações foram interrompidas e retomadas em um mar de desentendimentos entre as potências e a Coréia do Norte, pois todas as partes fizeram suas exigências e nenhuma cedeu em prol de um consenso.

Paralelamente as negociações e as tentativas de retomá-las, muitos eventos abalaram as relações entre os seis Estados, como foi o “CasoCheonan”, em março de 2010, e o bombardeio norte-coreano sobre a ilha sul-coreana de Yeonpyeong, em novembro do ano passado (2010).

Neste período, fenômenos naturais também chamaram a atenção das autoridades de ambas as partes na “Península Coreana”. Inundações, frio e fome na região norte da fronteira resultaram em ajuda internacional para as vítimas das tragédias no setor comunista, incluindo ajuda originada da parte sul da península.

Entre desastres naturais e tentativas de negociação pelo fim do seu “Programa Nuclear”, Pyongyang se beneficiou de ajuda internacional para poder manter suas poucas fábricas em funcionamento, além das fábricas sul-coreanas que operam no território norte da península, bem como as instituições essenciais para o funcionamento do Estado. Neste aspecto, a Coréia do Norte utilizou e continua utilizando seu “Programa Nuclear” como instrumento de barganha e para “benefício” próprio, tornando-se dependente do próprio “Programa” para garantir a sobrevivência e manter-se visível ao mundo.

Apesar da questão nuclear, as necessidades da população levam a que todos os envolvidos continuem, ainda assim, com as políticas de auxílio. A título de exemplo, atualmente, a Coréia do Sul anunciou que irá oferecer ajuda de mais de US$ 5 milhões ao vizinho através da “Fundo das Nações Unidas para a Infância” (UNICEF). “Esta decisão está de acordo com nossa posição, que é a de que a ajuda humanitária para os mais vulneráveis deve ser mantida independente do contexto político”*, afirmou em comunicado o “Ministério Sul-Coreano da Unificação. Em outro exemplo, no mês passado, por meio da “Organização Mundial da Saúde” (OMS), Seul liberou mais de US$ 6 milhões para ajudar o vizinho.

Além destes casos recentes de auxílio estatal, muitas ONGs sul-coreanas oferecem ajuda a parte mais carente da península, buscando acrescentar bons componentes para as relações entre as duas Coréias, além de ajudar a população do norte.

No entanto, ao mesmo tempo que a Coréia do Norte desfruta da “solidariedade” do Sul e de outros países, seu “Programa Nuclear” se mantém firme e nesta semana o governo anunciou mais avanços. Através da agência oficial de noticias norte-coreana KCNA, o “Ministério das Relações Exteriores” norte-coreano comunicou a aceleração da construção de um reator nuclear e a produção de urânio enriquecido para combustível.

A construção de reatores de água leve experimentais e o desenvolvimento de urânio pouco enriquecido para o abastecimento de matérias-primas avançam rapidamente com base na economia nacional independente e nos avanços científicos e tecnológicos do país” *, indicou a nota divulgada pela KCNA.

Embora o anúncio diga que estes avanços são para fins pacíficos, o governo de Kim Jong-il precisa continuar com as provocações e barganhas para se manter, pois tal comportamento passou a ser uma “política pública” para garantir a manutenção de sua posição perante o Estado e a do seu país perante o mundo. Mas, isto pode mudar no próximo ano.

Em 2012, ocorreá mudança de governante na Coréia do Norte e também haverá alterações nos Estados Unidos e na China, o que traz incerteza sobre o comportamento do Estado norte-coreano perante o “Sistema Internacional”, deixando a península sob crescente risco para Paz.

A mudança de governo na RPDC levou o jornal chinês, “The Global Times” a entrevistar especialistas sul-coreanos em Coréia do Norte: Yun Duk-min, o “Diretor Geral para a Segurança Nacional e Estudos da Unificação” no “Instituto das Relações Exteriores”; Kim Sung-han, o “Diretor do Instituto de Relações Internacionais Ilmin” da “Korea University” e Jeung Young-tae, “Pesquisador Sênior” do “Centro de Estudos da Coréia do Norte”.

Durante as entrevistas, os três demonstraram-se preocupados com as trocas de Governo em seu país (Coréia do Sul), na China, na Coréia do Norte e também nos Estados Unidos, pois qualquer mudança política nestes Estados interfere de alguma maneira nas “relações norte-sul” da península.

Para Yun Duk-min, a família Kim sempre tenta se manter no controle dos militares e mantiveram ao longo do tempo o padrão comportamental de provocar o sul da península para dar continuidade a sua política interna. Acredita ele que este procedimento poderá ser mantido quando Kim Jong-un, de 28 anos de idade, assumir o lugar do pai, Kim Jong-il.  Mesmo com seus 20 anos de estudos e visitas ao norte da península, ele não se “atreve” a prever o comportamento de Pyongyang, onde a  fabricação de novas armas e as ameaças de ataques a Seul continuam ativos para aumentar o controle sobre as “Forças Armadas” do norte e para reforçar a capacidade de mobilização do país.

Kim Sung-han já se mostra preocupado com as políticas do atual presidente da Coréia do Sul, Lee Myung-bak, as quais avalia serem muito falhas. Pela perspectiva que adota, seu país está preparado para responder a algumas provocações militares e testes nucleares da parte comunista, porém o governo sul-coreano não tem medidas eficazes para retaliar e sancionar o vizinho em casos de testes nucleares e testes de mísseis. Condição que transparece fragilidade

Jeung Young-tae, o terceiro entrevistado, destaca a possibilidade de novas provocações do lado comunista, mas não como no incidente deYeonpyeoung, pois, após o ocorrido, os Estados Unidos e a China “compreenderam” e agiram de maneiras diferentes em resposta ao caso, gerando um alto risco para segurança regional. Ele acredita que estas duas potências não assistirão um novo evento desta magnitude, exatamente para evitar qualquer possibilidade de escalada da violência, ou mesmo uma guerra localizada.

Todos concordam que as mudanças de governo nestas potências poderão afetar tanto as relações na península, como a segurança regional. Além disso a incerteza que ronda a RPDC traz mais elementos para a instabilidade e a insegurança, razão pela qual crêem que permanecem inalterados os desafios de serem mantidas e desdobradas as “Negociações a Seis”.

Para os EUA e o Japão, somente no caso de o novo governo norte-coreano interromper seu “Programa de Enriquecimento de Urânio”, dar acesso aos inspetores da AIEA no principal complexo nuclear e interromper os testes, tanto de mísseis, quanto os nucleares, haverá uma mensagem de que deseja negociar o fim de seu “Programa Nuclear”. Algo complicado e difícil de ser efetivado

Mostrando a dificuldade e complexidade da situação, o entrevistado Kim Sung-han, considera que estas três exigências do Japão e dos EUA e as “negociações as seis” não são suficientes para gerar garantias de que o “Programa Nuclear” da Coréia do Norte será finalizado. Para ele, a China e a Rússia são fatores “chaves” para incentivar Pyongyang a retomar as negociações e chegar a um entendimento.

Já para Jeung Young-tae, a chave são os Estados Unidos, pois como nenhuma das partes cede as exigências, mesmo com novos governos norte-coreano e estadunidense, a política norte-americana para a Coréia será preservada, sem mudanças significativas na busca de uma ação definitiva, ou um consenso.

Além dessas posições complementares, os especialistas têm idéias e visões semelhantes sobre a forma como o governo da Coréia do Norte raciocina, a qual pode ser resumida nas palavras de Kim: “ela [RPDCacredita que as armas nucleares são como seu mecanismo de sobrevivência”**.

Kim, assim como os outros especialistas no assunto, acredita que esta idéia norte-coreana pode ser alterada, mas o caminho para fazê-lo é mostrar a Pyongyang que os modelos de desenvolvimento econômico sem o uso de armas nucleares, além de serem eficientes, também garantem a sobrevivência de um Estado. Complementam suas percepções destacando que é necessário deixar claro que não existe um desejo de mudar a forma de  governo norte-coreano e, caso a Coréia do Note abandone o seu “Programa Nuclear”, ela terá o auxílio econômico necessário para restaurar a economia, até que seja capaz de se desenvolver sem a necessidade de auxílio externo.

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Fontes:

* Ver “Folha”:

http://www1.folha.uol.com.br/mundo/1016596-coreia-do-sul-oferece-ajuda-aos-norte-coreanos-via-onu.shtml

* Ver “Folha”:

http://www1.folha.uol.com.br/mundo/1014195-coreia-do-norte-anuncia-avancos-de-seu-programa-nuclear.shtml

** Ver “The Global Times”:

http://www.globaltimes.cn/NEWS/tabid/99/ID/687246/Korean-Peninsula-faces-growing-uncertainty.aspx

Ver também “Yonhap”:

http://spanish.yonhapnews.co.kr/northkorea/2011/12/05/0500000000ASP20111205001600883.HTML

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Fabricio Bomjardim - Analista CEIRI - MTB: 0067912SP

Bacharel em Relações Internacionais (2009) e técnico em Negociações Internacionais (2007) pela Universidade Anhembi Morumbi (UAM). Atua na área de Política Econômica com foco nos países do sudeste e leste asiático, sendo referência em questões relacionadas a China. Atualmente é membro da Júnior Chamber International Brasil-China, promovendo as relações sócio-culturais sino-brasileiras em São Paulo e Articulista da Revista da Câmara de Comércio BRICS. Também atuou como Consultor de Câmbio no Grupo Confidence.

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