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O ano de 2012 pode se tornar um marco de melhoria das relações da “República Popular Democrática da Coreia” (RPDC) com o mundo. Após o falecimento de Kim Jong-Il (antigo líder deste país), o sucessor, Kim Jong-un, vem apresentando sinais de melhoria das relações com as demais nações. O recente comunicado da paralisação do “Programa Nuclear” norte-coreano já é visto como o primeiro passo.

 

A notícia ganhou projeção e inúmeras interpretações assim que o “Departamento  de Estado dos Estados Unidos” anunciou, na quarta-feira passada (29 de fevereiro), que Pyongyang havia concordado em paralisar o Programa em troca de ajuda alimentar. Essa notícia ganhou mais força quando foi confirmada pela KNCA, a Agência estatal norte-coreana de notícias.

Segundo as informações, os agentes da “Agência Internacional de Energia Atômica” (AIEA) terão acesso às instalações norte-coreanas para acompanhar a paralisação do enriquecimento de urânio e confirmar que o “Reator Nuclear” de Yongbyon está fora de operação. “Para melhorar a atmosfera para o diálogo e demonstrar seu compromisso com a desnuclearização, a Coreia do Norte concordou uma moratória sobre lançamentos de mísseis de longo alcance e de testes nucleares, e as atividades nucleares em Yongbyon, incluindo as atividades de enriquecimento de urânio. (…). A RPDC também concordou com o regresso dos inspetores da AIEA para verificar e fiscalizar a suspensão das atividades de enriquecimento de urânio de Yongbyon e confirmar a incapacidade do reator 5 MW e instalações conexas”*, comunicou o “Departamento” estadunidense, referindo-se ao controles da “Agência Internacional de Energia Atômica” (AIEA), o Organismo das “Nações Unidas” responsável pelo controle e fiscalização nuclear.

Apesar das informações ainda há receios quanto ao comprometimento do governo norte-coreano. No entanto, Victoria Nuland, porta-voz do “Departamento de Estado dos EUA” declarou que “Os Estados Unidos ainda têm profundas preocupações a respeito do comportamento norte-coreano em várias áreas, mas o anúncio desta quarta reflete um importante, ainda que limitado, progresso na discussão de algumas dessas questões”**, concluindo que a Casa Branca “reafirma que não tem nenhuma intenção hostil e está preparado para tomar atitudes que melhorem a relação bilateral no espírito do mútuo respeito à igualdade e à soberania”**.

Outras tentativas de acordos já haviam sido realizadas no passado, durante o governo de Kim Jong-Il, mas não duraram muito tempo, pois eram descumpridos pelos norte-coreanos, que inicialmente recebiam certos tipos de auxílio (alimentar e financeiro) e em seguida mantinham os testes de mísseis balísticos e o “Programa Nuclear”. Devido ao histórico de Pyongyang, a ação atual abriu um leque de interpretações de analistas econômicos, especialistas em defesa e jornalistas. Para vários emerge a pergunta: até quando esse Acordo vai durar?

Mesmo com a insegurança, os países vizinhos da Coreia do Norte receberam bem a notícia. O Japão achou positivo e considerou esta atitude como o “primeiro passo” para a paz na região. O chanceler japonês, Koichiro Gemba, afirmou em comunicado: “Esperamos que a coordenação para que os termos acordados sejam implementados faça um bom progresso”***. E o “Ministério de Relações Exteriores” de Seul declarou em nota emitida que “É de nosso conhecimento que a base foi estabelecida para que possamos progredir em nossos esforços e solucionar a questão nuclear de uma maneira compreensiva e fundamental”***.

Seul está tentando retomar as conversações com seu vizinho, as quais estão paradas desde setembro do ano passado (2011). Para isso, sul-coreanos dialogam com os chineses, que estão sediando as “Conversações a Seis” (“EUA, China, Rússia, Japão, Coreia do Sul e Coreia do Norte”) tentando obter uma compreensão chinesa sobre a importância do diálogo direto entre as duas Coreias.

Para a Coreia do Sul, essa atitude do vizinho em paralisar seu processo de nuclearização é um passo importante para retomar o diálogo bilateral e tentar chegar a um Acordo concreto em prol da paz e da estabilidade na Península. Esse é um momento em que o governo sul-coreano deve aproveitar para assegurar boas relações no futuro.

Hoje, há boas expectativas de que essa posição de Pyongyang seja positiva, mas, como dito, também existe por parte da comunidade internacional uma falta de credibilidade na palavra norte-coreana, algo alimentado principalmente  pelo noticiário norte-coreano, que, embora tenha comunicado a sua desnuclearização, ainda mantém o discurso de que Seul é um “traidor” na península e continua declarando que os Estados Unidos reclamam de “Programas Nucleares” no mundo, mas continuam sendo o país detentor do maior arsenal do globo.

O marketing político do governo norte-coreano em seu território mantém a linha de que ainda não cedeu às pressões das grandes potências, transmitido uma “imagem” na qual o  atual líder comunista, Kim Jong-un, está no comando nas “Negociações a Seis”, ditando as regras. Apesar da divulgação, a decisão de Pyongyang em fazer um acordo com Washington foi pouco noticiada e, após o comunicado da realização dos exercícios militares conjuntos de Coréia do Sul e EUA, o governo comunista se disse preparado para “o diálogo e para a guerra”, mais elementos para aumentar a desconfiança internacional.

Antes, quando se abriu a possibilidade de um diálogo para a paz, as hostilidades do governo norte-coreano em relação a Seul deixaram em dúvida seu comprometimento em manter o acordo de desnuclearização. O artigo publicado no dia 4 de março pela KNCA, intitulado “CRPP adverte Lee Myung Bak****, expressa o real “sentimento” dos nortistas para com seu vizinho capitalista ao sul. O porta-voz do “Comitê para a Reunificação Pacífica da Pátria” (CRPP) emitiu uma declaração (o “traidor Lee Myung Bak”) com extrema hostilidade e ódio, com cartas insultantes, diante dos retratos dos grandes homens do “Monte Paektu”, considerado como a vida do povo coreano.

No limite, o clima na península coreana continua incerto, sem grandes avanços, mesmo com as atuais medidas anunciadas. O que se entende na região é que há duas posições no momento de negociar Acordos com Pyongyang: (1) uma voltada para o diálogo direto entre as duas Coréias e (2) outra voltada para seu processo de nuclearização e posicionamento perante o mundo, na qual o governo comunista deixa claro que suas ações se dão em resposta aos Estados Unidos.

Neste primeiro semestre as grandes potências caminham para celebrar uma “vitória” nas negociações com a Coreia do Norte. O primeiro passo foi realizado com sucesso, mas ainda existe o receio de que os norte-coreanos estejam executando um grande “blefe”.

Agora, resta aguardar a próxima reunião entre os EUA e as autoridades norte-coreanas para acertarem os detalhes do envio das 240 mil toneladas de alimentos para o povo coreano e o processo de inspeção e desnuclearização norte-coreana. Os analistas observarão o processo e como será a atuação de Pyongyang para ver se cumprirão ou não este compromisso.

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Fontes:

* VerYonhap”:

http://spanish.yonhapnews.co.kr/northkorea/2012/02/29/0500000000ASP20120229004000883.HTML

** VerEstadão”:

http://www.estadao.com.br/noticias/internacional,coreia-do-norte-concorda-em-paralisar-programa-nuclear-dizem-eua,842098,0.htm

*** VerEstadão”:

http://www.estadao.com.br/noticias/internacional,japao-e-coreia-do-sul-veem-anuncio-norte-coreano-como-primeiro-passo,842127,0.htm

**** VerKNCA”:

http://www.kcna.kp/goHome.do?lang=spa

Ver tambémXinhua”:

http://spanish.news.cn/mundo/2012-02/27/c_131434462.htm

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Fabricio Bomjardim - Analista CEIRI - MTB: 0067912SP

Bacharel em Relações Internacionais (2009) e técnico em Negociações Internacionais (2007) pela Universidade Anhembi Morumbi (UAM). Atua na área de Política Econômica com foco nos países do sudeste e leste asiático, sendo referência em questões relacionadas a China. Atualmente é membro da Júnior Chamber International Brasil-China, promovendo as relações sócio-culturais sino-brasileiras em São Paulo e Articulista da Revista da Câmara de Comércio BRICS. Também atuou como Consultor de Câmbio no Grupo Confidence.

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