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Crescimento populacional e queda nos preços das commodities ameaçam a igualdade de renda na África

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A questão da desigualdade de renda e riqueza tornou-se alvo de debate não há muito tempo. Em princípio, economistas e autoridades políticas acreditavam simplesmente no crescimento econômico puro, sendo comum a analogia com as marés: quando esta cresce eleva todos os barcos. E assim, dessa maneira, a adoção de políticas econômicas expansivas tornou-se o centro do debate político, dos experimentos científicos e da cobertura da mídia internacional.

Entretanto, com o passar dos anos esta crença demonstrou ser, na verdade, um mito: publicações científicas que utilizaram novos métodos de comparação de riqueza e a análise de dados empíricos apontam para uma elevada desigualdade econômica na alvorada do século XXI, seja ela intranacional ou internacional.

O gráfico abaixo apresenta a evolução do Produto Interno Bruto per capita (PIB per capita) dos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), dividida pelo PIB per capita de algumas nações subsaarianas selecionadas, ambos em dólares de 2005. Em outras palavras, compara quantas vezes a mais um europeu/americano produz ao ano do que um africano. Assim, temos:

Fonte: Banco Mundial, 2015.

Observam-se dois importantes comportamentos ao longo desta série temporal. O primeiro, mais evidente, é um crescimento vertiginoso da riqueza auferida nos países da OCDE em relação às nações subsaarianas. O segundo ponto a ser notado é uma tendência à redução desta proporção em alguns países africanos, como o Malawi, a Nigéria e Gana. Os demais – África do Sul, Camarões e Senegal – não apresentaram uma tendência à convergência.

Também podemos separar esta análise comparativa de riqueza em dois momentos: antes e depois da crise de 2007/08. Constata-se que antes deste período a diferença de riqueza crescia gradativamente ano após ano, não demonstrando sinais de arrefecimento. No entanto, a partir deste período algo trouxe uma mudança inesperada no comportamento que havia se observado nos anos anteriores. Além da redução abrupta na expansão do PIB nos países desenvolvidos devido à crise econômica, qual fator levou a alguns países da África a entrarem em uma tendência de convergência de riqueza?

Alguns países africanos apresentaram, nos últimos anos, uma taxa média de crescimento anual muito superior à média auferida nas nações desenvolvidas. Segundo dados do Banco Mundial[1], vemos que de 2007 a 2013, Gana, Malawi e Nigéria obtiveram um crescimento médio superior de 6,15% aos países ricos, ao passo que o segundo grupo – aquele que não presenciou um momento de convergência de renda – obteve um crescimento médio superior de somente 2,5%.

Gana e Nigéria – assim como outras nações subsaarianas não selecionadas como Angola, Moçambique, Líbia e Zâmbia – foram contempladas com extensas reservas de hidrocarbonetos e minerais[2]. Dessa maneira, desfrutaram de um aumento abrupto na entrada de divisas nos últimos anos devido ao crescimento vertiginoso dos preços das commodities.

No entanto, assim como analistas no século passado acreditavam que o puro crescimento econômico era suficiente para levantar todos os barcos, seria um erro admitir que o ritmo acelerado de crescimento destes países se manterá nos próximos anos se petróleo e minérios permanecerem dominando a pauta de exportações.

Isto porque a redução abrupta do preço do petróleo e de outras commodities neste ano já restringe os orçamentos públicos anuais de muitos países, como é o caso de Angola, arrefecendo o mercado de trabalho, os salários e os projetos públicos para educação e saúde[3]. A redução da taxa de crescimento chinês, importante parceiro comercial dos países africanos, é outro grande entrave à manutenção desta expansão nos anos subsequentes.

Concentrar a atividade econômica na exploração de hidrocarbonetos e de minérios cria verdadeiros centros de riqueza, porém, ao mesmo tempo, vastos campos de pobreza: a região sul da Nigéria, local de exploração do petróleo e onde se situam as principais cidades do país, exibe os louros do crescimento econômico em seus edifícios e viadutos em construção, ao passo que a região norte, marcada pela pobreza, vê a sombra do Boko Haram cada vez mais real.

 Em Gana, se em 1988 o índice de Gini era 35,3, em 2007 este índice subiu para 42,76 e a tendência, na próxima vez em que for calculado, é que esteja ainda maior[1].

Outro entrave à convergência nos índices de riqueza é o crescimento populacional ainda alto em quase todos os países africanos. Dentre os países aqui selecionados, de 2003 a 2012, a taxa de crescimento anual média da população foi de 2,35%. Este cenário traz inúmeras dificuldades ao planejamento urbano inclusivo, à oferta geral de serviços públicos e uma tendência a altas taxas de desemprego, caso as economias não mantenham expressivas taxas de crescimento. Em especial, nos momentos de queda do preço internacional das commodities, este expressivo excesso populacional pode significar enormes taxas de desemprego, principalmente naquelas nações cuja dependência em relação aos bens primários é significativa.

Dessa maneira, diversificar a pauta de exportação e a cadeia produtiva, concomitante a uma política contínua de qualificação da mão de obra e de educação, bem como a adoção geral de métodos anticoncepcionais, aparecem como pontos importantes para a convergência de riqueza. Caso não sejam adotadas, o que veremos ao longo deste século serão pequenos momentos de esperança e largos períodos de desalento.

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Imagem (FonteArt City):

http://artfcity.com/2014/09/02/disney-and-despotism-why-governments-buy-north-korean-art/

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Fontes Consultadas:

[1] Ver Banco MundialEstatísticas”:

http://data.worldbank.org/

[2] VerObservatory of Economic Complexity Ghana & Nigeria”:

file:///C:/Users/Olivia%20Frizo/Downloads/Ghana2013.pdf;

Ver Também:

file:///C:/Users/Olivia%20Frizo/Downloads/Nigeria2013.pdf

[3] VerCEIRI Newspaper”:

http://jornal.ceiri.com.br/a-economia-politica-do-sacrificio-angolanos-deverao-apertar-os-cintos-em-2015/

Pedro Frizo - Colaborador Voluntário

Economista pela ESALQ-USP, é atualmente mestrando em Sociologia pelo Programa de Pós- Graduação do IFCH-UFRGS. Foi pesquisador do Programa de Mudanças Climáticas do Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia (IDESAM). Atualmente desenvolve pesquisas na área de Sociologia Econômica, Economia Política e Sociologia do Desenvolvimento. Escreve no CEIRI Newspaper sobre economia e política africana, como foco em Angola, Etiópia e Moçambique

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