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Crise do lixo em Beirute persiste e completa quase um mês

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Sem precedentes na história recente do país, a Crise do Lixo no Líbano continua a persistir há quase um mês, desde o fechamento do principal aterro da cidade, Naameh, ocorrido em meados de julho, devido ao excesso de capacidade. Montanhas de lixo amontoam-se na capital do país e nas montanhas circundantes, enquanto a falta de alternativas adequadas para depósitos do lixo estimula protestos contra o fracasso do Governo em encontrar uma solução[1]. Os políticos continuam a debater sobre como lidar com a situação, enquanto ativistas, organizações não governamentais e municípios tomam iniciativas próprias, como reciclagem local e tratamento de resíduos[1].

O problema diário sobre o que fazer com o lixo – que soma cerca de 3.000 toneladas por dia em Beirute e arredores – continua na vanguarda, com pedreiras, pontes, rios, estacionamentos abandonados e áreas despovoadas servindo como depósitos improvisados de detritos[1]. Alguns moradores queimam pilhas de resíduos que se acumulam ao redor de Beirute nos próprios locais, ou coletam-nas e despejam-nas em lugares impróprios, agravando ainda mais a situação já desesperadora[1].

Em um protesto organizado por ativistas da sociedade civil no sábado passado, dia 8 de agosto, cerca de 1.500 pessoas compareceram para entoar slogans anti-governo e exigir a renúncia do Ministro do Meio Ambiente, Mohammad Machnouk. Eles também chamaram por uma campanha de reciclagem de amplitude nacional e para que os municípios desempenhem um papel maior na gestão de resíduos[1]. O protesto foi a terceira demonstração deste tipo, desde a Crise do Lixo que teve início em 17 de julho. Vários manifestantes expressaram pessimismo sobre quais os resultados estas manifestações poderiam alcançar[1].

De acordo com Paul Abi Rached, presidente da TERRE Liban, uma ONG ambiental baseada no Líbano, uma solução imediata muito simples reside na reciclagem, separação de resíduos e recuperação de energia – iniciativas que foram até agora ignoradas pelo Governo. “Lançamos uma solução e fornecemos propostas para uma gestão sustentável de descarte dos resíduos que incluiriam um papel mais importante para os municípios[1], afirmou, observando que a solução que ele propõe envolve triagem de resíduos na fonte[1]. “Essa solução também pode gerar US$ 100 milhões aos municípios, mas o governo e cada partido político estão à procura de uma maneira de obter um corte do bolo, em vez de se concentrarem em uma solução real para o lixo[1], criticou Rached.

Um dos manifestantes do protesto disse ao microfone “nós estamos aqui porque temos visto que, se um coletor de lixo está ausente por um dia, isto nos afeta mais do que ter um presidente ausente[1]. O mau cheiro do lixo nas ruas, juntamente com os gases tóxicos liberados quando os moradores recorrem à queima de pilhas de detritos, têm deixado os cidadãos libaneses ainda mais enfurecidos[1]. Temperaturas acima de 32 graus célsius intensificam o forte odor[2].

A população libanesa vem lançando campanhas de reciclagem e de coleta de detritos, bem como vociferando acusações sobre um Governo que é visto como paralisado e ineficaz. “Temos de resolver todos os nossos problemas nós mesmos, problemas de água, problemas de eletricidade, águas residuais e agora de resíduos sólidos[3], afirmou Gibran Safi, Prefeito de Arsoun, uma pequena cidade de 400 pessoas na província do Monte Líbano. “Somos forçados, como cidadãos, a resolvê-los porque, como governo, não há nada a ser feito, mesmo que todas as soluções estejam lá e elas possam fornecer receita ao governo[3], adicionou. Ainda assim, algumas empresas e organizações não governamentais em Beirute veem a crise como uma oportunidade e exploram seu potencial em novos serviços[3].

Sahar Atrache, analista do International Crisis Group, acredita que o Governo não estar em colapso não é suficiente. A incapacidade de lidar com as causas-raízes dos problemas, desde segurança até eletricidade e água, gradualmente alimenta divisões e raiva. Ela espera que a indignação atual sobre o lixo galvanize os políticos a governarem o país de forma mais eficaz[2]. “O lado bom sobre o lixo é que ele está afetando-os também[2], diz ela. “Então, eu espero que a classe política esteja realmente sofrendo como todos os outros libaneses estão[2].

A crise ecoa problemas mais amplos que desafiam o país. O Estado fraco tem sido há muito criticado por não ser capaz de desenvolver sua infraestrutura – Beirute ainda sofre cortes diários de energia, cerca de 25 anos após o fim da guerra civil de 1975-1990[4]. “Chegamos a este ponto – esta crise – por causa da luta política no Líbano[4], declarou Mohamad Al Machnouk, o Ministro do Meio Ambiente. Ele culpou a procrastinação entre os políticos como causa para acumulação dos lixos nas ruas[4].

De acordo com Mario Abou Zeid, analista de pesquisa do Carnegie Middle East Center, em Beirute, “esta é uma indicação muito importante de como o governo é disfuncional e como é incapaz de lidar com as demandas básicas da população[5]. “Se em tais assuntos locais eles não são capazes de funcionar e de entrar em acordo, como eles podem chegar a acordos sobre questões maiores?[5], questionou.

A guerra civil na vizinha Síria e os mais de 1,2 milhões de refugiados que se deslocaram para o Líbano tributam a economia e a capacidade já debilitada do Governo em fornecer serviços[5].  O líder do grupo militante e partido político do Hezbollah, Hassan Nasrallah, dirigiu-se à crise chamando-a de “enorme fracasso[5] do Governo, e declarou que estava “envergonhado[5] até de falar sobre isto. 

O lixo é uma metáfora para tudo o que está acontecendo no país, onde o governo realmente atingiu um novo nível de disfunção[1], disse Walid, um residente de Beirute, de 32 anos de idade.

Deve-se ressaltar que o Líbano está sem um Presidente há mais de um ano, sendo incapaz de votar por um novo nome desde maio de 2014, graças a uma falha do Parlamento em atingir um quórum necessário de dois terços para manter uma sessão eleitoral. O país também tem sido vítima de incapacitantes cortes de eletricidade, com algumas áreas enfrentando cortes de energia por até 11 horas por dia durante uma onda de calor[1].

Com a Presidência do Líbano vaga há mais de um ano, uma guerra na vizinha Síria, que esporadicamente derrama para o seu lado da fronteira, e uma crescente crise de refugiados como resultado deste conflito, os libaneses parecem não contar com o já relutante Governo para que encontre uma solução breve[3].

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Imagem O problema do lixo no Líbano, sem precedentes na história recente do país, continua a persistir completando quase um mês de crise[AP]” (Fonte):

http://www.aljazeera.com/news/2015/08/public-anger-grows-beirut-trash-crisis-persists-150810133327485.html

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Fontes Consultadas:

[1] Ver:

http://www.aljazeera.com/news/2015/08/public-anger-grows-beirut-trash-crisis-persists-150810133327485.html

[2] Ver:

http://www.npr.org/sections/parallels/2015/07/30/427535046/amid-political-dysfunction-beirut-residents-suffer-the-stench-of-garbage

[3] Ver:

http://www.wsj.com/articles/mountains-of-trash-are-new-scourge-plaguing-lebanese-capital-1438335037

[4] Ver:

http://www.huffingtonpost.com/entry/beirut-trash-garbage_55b296c4e4b0074ba5a48eab

Ver Também:

http://www.reuters.com/article/2015/07/23/us-lebanon-government-idUSKCN0PX16320150723

[5] Ver:

http://www.nytimes.com/2015/07/28/world/middleeast/lebanese-seethe-stinking-garbage-piles-grow-beirut.html?_r=0

Natalia Nahas Carneiro Maia Calfat - Colaboradora Voluntária

Doutoranda e mestre pelo programa de Ciência Política da USP e diretora de Relações Internacionais do Icarabe, Instituto da Cultura Árabe. Possui bacharelado em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo e pós-graduação em Política e Relações Internacionais pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). É integrante do Grupo de Trabalho sobre Oriente Médio e Mundo Muçulmano na Universidade de São Paulo (GT OMMM).

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