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A crise humanitária dos Rohingya e o papel dos EUA em Mianmar

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O retorno das animosidades em Mianmar teve início nas primeiras horas do último dia 25 de agosto, quando militantes de Harakah al-Yaqin, ou Arakan Rohingya Salvation Army (ARSA, na referência em inglês), um grupo insurgente rohingya, atacou coordenadamente 30 postos policiais e uma base militar ao norte do Estado birmanês de Rakhine, nos municípios de Maungdaw, Buthidaung e Rathedaung. Ressalte-se que essas animosidades agora adquiriram contornos de crise humanitária, com desdobramentos sem precedentes também em Bangladesh.

Campo de Refugiado Kutupalong em Cox’s Bazar, Bangladesh – É um dos 3 campos que recebe os mais de 300 mil Rohingya

Mediante relato governamental, os atacantes, equipados com dispositivos explosivos de mão, machetes e armas pequenas mataram dez policiais, um soldado e um funcionário do setor de imigração. Já pelo lado dos insurgentes foram 77 mortos e um capturado pelas forças de segurança do país.

De acordo com uma comissão consultiva formada por especialistas locais e internacionais e presidida pelo ex-secretário geral das Nações Unidas, Kofi Annan, já era previsto que a atual crise poderia ocorrer no curto prazo. Isto está exposto na publicação do relatório em agosto de 2017, denominado “Towards a Peaceful, Fair and Prosperous Future for the People of Rakhine”.

A violência anti-muçulmana a partir de 2012 e o surgimento do grupo insurgente ARSA, no ano de 2016, foram sinais claros de que a dinâmica volátil do Estado de Rakhine precisaria urgentemente de uma resposta política e não apenas de segurança para atender as preocupações de todas as comunidades alocadas no lugar.

Entretanto, o Governo de Mianmar optou por não se mover decisivamente para remediar as profundas e duradouras falhas políticas que estão levando alguns muçulmanos na região de Rakhine a escolher a violência.

Ainda com base no relatório, a discriminação extrema da sociedade e do Estado mianmarense, bem como a erosão progressiva dos direitos e barreiras para obtenção de documentos de identidade e cidadania geram como consequências a marginalização gradual da vida social e política, fatores que convergem para uma crise humanitária nas comunidades Rohingya.

Presidente Barack Obama e a Secretária de Estado Hillary Clinton com Suu Kyi em Yangon, 2012

Nesse sentido, em um cenário de violência e repressão militar criam-se bases para legitimar o papel da Arakan Rohingya Salvation Army (ARSA) nessas comunidades, que, intimidadas pelos militantes, são obrigadas a aderir ao movimento, do contrário podem ser mortas, já que não há proteção real do Governo.

Segundo a Agência de Refugiados das Nações Unidas (UNHCR, na sigla em inglês) mais de 370 mil rohingya já fugiram para Bangladesh nas últimas semanas, aumentado as dimensões dos campos de refugiados ao longo da fronteira.

Voluntários de organizações humanitárias nos acampamentos revelam escassez de muitos produtos de primeira necessidade e classificam os eventos em Rakhine como “exemplo didático de limpeza étnica”, ao mesmo tempo em que seguem as operações de queima maciça de aldeias da região. Outros órgãos humanitários sugerem que os militares birmaneses podem ter minado a fronteira entre Bangladesh e Mianmar.

A justificativa apresentada pelos governantes em Naypyidaw para a queima das aldeias, execuções em massa, desaparecimentos e estupros é que eles buscam deter e eliminar um pequeno grupo de insurgentes Rohingya, os quais, por sua vez, argumentam que o Governo usa dessa justificativa para a realização de graves violações dos direitos humanos.

Nos EUA, após a aproximação feita pela administração de Barack Obama em meados de 2015/2016, e diante de um quadro instável na região, é possível que o Senado continue a avançar com novos termos na cooperação militar bilateral, conhecida como National Defense Authorization Act, com a Liga Nacional pela Democracia, partido da líder de fato de Mianmar, a premiada pelo Nobel da Paz de 1991, Aung San Suu Kyi.

Para especialistas, Washington opta por um caminho de equilíbrio diplomático ao evitar uma crítica mais contundente à repressão em Mianmar contra a minoria rohingya, e acaba recusando, assim, publicamente, fazer dos direitos humanos uma peça central da política externa.

Através da secretária de imprensa da Casa Branca, Sarah Huckabee Sanders, o Departamento de Estado divulgou comunicado informando que a preocupação do Governo estadunidense é a violência de ambos os lados: “A Casa Branca está profundamente preocupada com a crise em curso na Birmânia”.

Em contraste com essa postura, as administrações norte-americanas anteriores assumiram um papel de maior envolvimento, começando com a proibição da exportação de serviços financeiros e o congelamento de ativos de certas instituições após o golpe militar em 1988, e proibindo o investimento e as importações em anos subsequentes.

Ao que tudo indica, para a administração Trump o contrário prevalece, de forma que o governo não considera como interligadas a situação da minoria rohingya e a segurança nacional dos EUA. Tal postura leva a que, devido a falta de auxílio internacional na região, se potencializem os eventos extremistas violentos, além disso aumentam também as chances de que os grupos radicais tentem se apoderar das mentes de jovens impressionados com as atrocidades humanitárias testemunhadas em Mianmar e Bangladesh.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Comunidade Rohingya deslocada do estado de Rakhine” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Rohingya_people#/media/File:Displaced_Rohingya_people_in_Rakhine_State_(8280610831)_(cropped).jpg

Imagem 2Campo de Refugiado Kutupalong em Coxs Bazar, BangladeshÉ um dos 3 campos que recebe os mais de 300 mil Rohingya” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Rohingya_people#/media/File:Cox%27s_Bazaar_Refugee_Camp_(8539828824)_(cropped).jpg

Imagem 3Presidente Barack Obama e a Secretária de Estado Hillary Clinton com Suu Kyi em Yangon, 2012” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Aung_San_Suu_Kyi#/media/File:Barack_Obama_and_Hillary_Clinton_at_home_of_Aung_San_Suu_Kyi.jpg

Victor José Portella Checchia - Colaborador Voluntário

Bacharel em Relações Internacionais (2009) pela Faculdades de Campinas (FACAMP), Especialista em Direito Internacional pela Escola Paulista de Direito (EPD) e Especialista em Política Internacional pelo CEIRI (Centro de Estratégia, Inteligência e Relações Internacionais). Atuou em duas grandes multinacionais do setor de tecnologia e na área de Cooperação Internacional na Prefeitura Municipal de Campinas com captação de recursos externos, desenvolvimento de projetos na área econômica e comercial e buscando oportunidades de negócios para o município. Atualmente é Consultor de Novos Negócios na Avanth International em Campinas/SP. Escreve semanalmente sobre América do Norte com foco nos Estados Unidos.

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1 Comments

  1. Ivan Leduc de Lara 15 de outubro de 2017

    Já há tempos que essa minoria rohingya vem assassinando aqueles que não são muçulmanos. Dá para entender o ódio que eles suscitam. Talvez, em Bangladesh, um país muçulmano, eles melhorem.

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