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A Bolívia está passando por uma crise política das mais tensas ocorridas no governo de Evo Morales. O país entrou em greve geral em apoio às manifestações indígenas contra a construção da estrada que atravessará uma “Reserva Florestal” que deveria unir as cidades de “Villa Tunari” e “San Ignacio de Moxos”. A estrada é financiada pelo “Banco Nacional de Desenvolvimento Econômica e Social” (BNDES) e está sendo construída pela empreiteira brasileira OAS.

 

A situação é crítica, pois já foram afastados dois Ministros, o da Defesa (Cecilia Chacón  foi substituída por Ruben Saavedra) e Governo* (Sacha Llorenti foi substituído por Wilfredo Chávez); um vice-ministro (do Interior, Marcos Farfán, que se recusou a aceitar a acusação do “Ministro do Governo” de que teria ordenado a repressão e por isso renunciou); funcionários de outros escalões que estão sendo responsabilizados direta, ou indiretamente pela violência utilizada pela polícia contra os manifestantes indígenas; além do caso de funcionários que renunciaram como protesto pelos erros cometidos pelo governo em usar de violência contra os manifestantes.

Para piorar a situação, Deputados do partido de Morales (MAS – “Movimiento al Socialismo” / “Movimento para o Socialismo”, em português) anunciaram que votarão contra o governo, criando a possibilidade de o mandatário perder a maioria de dois terços que lhe dava tranquilidade para manter seu planejamento estratégico.

A “Central Operária Boliviana” (COB) está liderando as manifestações grevistas deslocadas para os prédios da Presidência e do Parlamento. O seu líder, Pedro Montes, afirmou: “Não estamos de acordo e censuramos a atitude do Governo no atropelo aos irmãos indígenas, (sendo necessário identificar) os responsáveis que cometeram esse crime para que sejam colocados atrás das grades”**

Profissionais liberais, proletários, estudantes, ambientalistas, indígenas e vários cidadãos se revoltaram com a situação e apoiam os manifestantes transformando esta contraposição à construção e uma estrada numa contenda política e ideológica.

Analistas afirmam que a situação revela a contradição de Morales, bem como o mascaramento adotado em seu marketing político para se apresentar como um índio. Confirmando está observação, Jornais começam a informar que a população do país tem dito nas ruas que “Evo Morales nunca foi indígena”***.

As lideranças indígenas há tempos já afirmavam que Evo não era um deles em sua plenitude, tratando-se de um cocaleiro que conseguiu se apresentar como o ponto de união dos grupos étnicos em suas reivindicações e buscou mostrar-se como o símbolo da emergência dos grupos indígenas, algo irreal, pelo fato de não ter vindo deles, mas que foi aceito como tal por razões estratégicas, graças aos ganhos que poderiam ser distribuídos para a sociedade, no caso de serem cumpridos os compromissos assumidos.

Vários manifestantes também apontam que o ocorrido representa um retrocesso de Evo e, principalmente, a revelação de que a anunciada criação de um Estado Multiétnico (configurado como Estado plurinacional comunitário, baseado no direito à diferença e no  reconhecimento dos territórios, mas, principalmente, na autonomia  dos indígenas) esbarra em seus compromissos com o grupo do qual faz parte, o dos plantadores de coca, destacando-se que a construção da estrada passa por região cocaleira trazendo benefícios imediatos a esses grupos (o “Parque Florestal” é próximo da região de Chapare, onde Morales preside sindicatos de produtores de coca), além do fato de o Presidente ter prometido mais terras aos plantadores. Ou seja, revela que seu compromisso particular está acima dos compromissos de construção do Estado plurinacional, a alegada principal conquista de seu governo.

As manifestações estão ocorrendo em várias regiões do país. Segundo divulgado pela mídia, ao menos em sete das nove regiões da Bolívia**** e afeta diretamente os interesses brasileiros, pois além dos investimentos que novamente estão sendo feitos pelo Brasil na Bolívia, representa uma etapa de planejamento estratégico do Estado brasileiro, destacando-se ainda que não tardará para afetar a imagem do Brasil, pois poderá ser usado pelos manifestantes o argumento de que o empreendimento diz respeito a um imperialismo brasileiro, expressão e discurso que já foi usado em muitas ocasiões, sempre que era conveniente às lideranças de esquerda na Bolívia.

———————–

* O Ministério do Governo é correspondente boliviano à “Casa Civil” no Brasil.

** Fonte:

http://noticias.terra.com.br/mundo/noticias/0,,OI5383113-EI8140,00-Protestos%20na%20Bolivia%20respaldam%20indigenas%20e%20rejeitam%20Evo%20Morales.html

*** Fonte:

http://www.jornalfloripa.com.br/mundo/index1.php?pg=verjornalfloripa&id=12883  

**** Ver:

http://www.destakjornal.com.br/readContent.aspx?id=10,110803

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Marcelo Suano - Analista CEIRI - MTB: 16479RS

É Fundador do CEIRI NEWSPAPER. Doutor e Mestre em Ciência Política pela Universidade em São Paulo e Bacharel em Filosofia pela USP, tendo se dedicado à Filosofia da Ciência. É Sócio-Fundador do CEIRI. Foi professor universitário por mais de 15 anos, tendo ministrado aulas de várias disciplinas de humanas, especialmente da área de Relações Internacionais. Exerceu cargos de professor, assessor de diretoria, coordenador de cursos e de projetos, e diretor de cursos em várias Faculdades. Foi fundador do Grupo de Estudos de Paz da PUC/RS, do qual foi pesquisador até o final de 2006. É palestrante da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG-RS), tendo exercido também os cargos de Diretor de Cursos e Diretor do CEPE/CEPEG da ADESG de Porto Alegre. Foi Articulista do Broadcast da Agência Estado e do AE Mercado (Política Internacional), tendo dado assessoria para várias redes de jornal e TV pelo Brasil, destacando-se as atuações semanais realizadas a BAND/RS, na RBS/RS e TVCOM (Globo); na Guaíba (Record), Rádioweb; Cultura RS; dentre vários jornais, revistas e Tvs pelo Brasil. Trabalhou com assessoria e consultoria no Congresso Nacional entre 2011 e 2017. É autor de livros sobre o Pensamento Militar Brasileiro, de artigos em Teoria das Relações Internacionais e em Política Internacional. Ministra cursos e palestra pelo Brasil e no exterior sobre temas das relações internacionais e sobre o sistema político brasileiro.

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