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Da União à Fragmentação Econômica Europeia

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Desde a crise financeira internacional, a União Europeia (UE) enfrenta diversos desafios que a cada ano foram minando a integração e promovendo uma maior exposição das suas assimetrias, principalmente as diferenças econômicas e sociais.

A crise nos países do Mediterrâneo promoveu um sério desequilíbrio na União. O enfraquecimento do Estado grego ameaçou a integridade do Bloco e pôs em xeque o futuro da Europa, sob a ameaça de que outros países adotassem a mesma postura, deteriorando os acordos regionais e a Zona do Euro. Sob o braço forte da Alemanha, a Europa, aos poucos, foi encontrando seu caminho. Espanha, Portugal e Itália conseguiram recuperar sua economia após anos seguindo o receituário imposto pela UE, que resultou em profundas crises políticas e insatisfação social.

A Croácia entrou na União Europeia e novos membros voltaram a ser contemplados. Os países da Europa do Leste, que durante muito tempo sofreram com o estigma da desigualdade existente no Bloco, beneficiaram-se das mudanças dentro da União, registrando um crescimento notável de suas economias. Polônia e Romênia chegaram a dominar o ranking de países que mais cresciam na Europa, até mesmo durante a crise, e continuam em plena expansão.

A instabilidade econômica que fora aos poucos sendo recuperada perdeu protagonismo no cenário europeu devido ao aumento das tensões territoriais e políticas. Por um lado, a Rússia e a delicada questão ucraniana; por outro, a crescente ameaça do terrorismo e os problemas derivados da instabilidade política na periferia europeia; por último, a ameaça de saída do Reino Unido que, sem dúvidas, resultaria em enorme abalo da economia regional e avança rapidamente no cenário europeu sob um forte apoio popular. Além disso, há os problemas internos dos países membros, os quais começam a preocupar a União, como é o caso da questão da Catalunha, na Espanha.

A movimentação do eixo econômico do Atlântico para o Pacífico também afetou a economia do Bloco Europeu, ao menos na área produtiva. A China, ainda que importante mercado consumidor dos produtos de maior valor agregado, é também um forte competidor em setores já enfraquecidos no velho continente, mas que representam uma importante fonte de empregos e, consequentemente, produz um impacto direto no consumo interno, principalmente em países onde o desemprego ainda permanece elevado com o reflexo da Crise Internacional. São frequentes as manifestações de produtores rurais, têxtil, mineradores e metalúrgicos em Bruxelas, onde fica a sede da União Europeia.

O sistema financeiro sofre com a redução da atividade econômica e da demanda nos países emergentes, além da depreciação das divisas internacionais e a queda no preço das commodities e do petróleo, algo que encarece o produto europeu e lhe subtrai competitividade.

Certo é que o pior da crise econômica parece haver passado para a União Europeia, mas, ainda assim, a conjuntura política e a dinâmica social da União podem surpreender negativamente e afetar o crescimento econômico da região. As sanções contra a Rússia afetaram aos produtores agrícolas da Europa (Espanha, Itália, Portugal e França), além disso, a redução da demanda internacional impacta na produtividade industrial dos países produtores de alta tecnologia e a instabilidade política nos países emergentes reduz a demanda de produtos típicos, como vinhos, cavas, champanhes e perfumes.

Embora exista uma tendência de recuperação dos mercados desenvolvidos, muitos fatores ainda podem abalar esse prognóstico. As eleições americanas assustam a Europa e os novos fluxos de investimento para a Ásia, África e América Latina estão aos poucos insolando algumas economias europeias e gerando uma forte dependência do mercado financeiro, sendo este conhecido pela sua alta rentabilidade, mas temido pela elevada sensibilidade frente a mínimas mudanças políticas, climáticas, sociais e internacionais.

Fatores sociais como a imigração e a crise dos refugiados também abalam a estabilidade econômica europeia e chegaram a ameaçar importantes acordos, como o Schengen – que permite a livre circulação de pessoas no Bloco. Os países implicados demandam mais recursos da União para conter as ondas migratórias. A essa situação é preciso somar o aumento de migrações dentro do espaço europeu, principalmente dos países mais vulneráveis economicamente, para os países do Norte. Em relação a política interna, as mudanças no alinhamento político dificultam a integração do Bloco e uma possível saída da líder Ângela Merkel, após as eleições na Alemanha, em 2017, pode dificultar no estabelecimento de uma nova liderança.

Mesmo havendo uma certa animação em relação ao futuro econômico da Europa e dos demais países desenvolvidos é importante considerar todos os fatores implicados e não negligenciar a instabilidade ainda existente dentro do Bloco, pois a União Europeia pode sofrer maior fragmentação que integração nos próximos anos.

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Imagem (Fonte):

http://www.achtungmag.com/wp-content/uploads/2012/05/internacional-grecia-unioneuropea-desintegracion-revista-achtung-2.jpg

Wesley S.T Guerra - Colaborador Voluntário Sênior

Atua como consultor internacional na área de Paradiplomacia para o Escritório Exterior de Comércio e Investimentos do Governo da Catalunha. Formado em Negociações e Marketing Internacional pelo Centro de Promoção Econômica de Barcelona, Bacharel em Administração pela Universidade Católica de Brasília, especialista pós-graduado em Ciências Políticas e Relações Internacionais pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo – FESPSP, MBA em Novas Parcerias Globais pelo Instituto Latinoamericano para o Desenvolvimento da Educação, Ciência e Cultura e mestrando em Polítcias Sociais em Migrações na Universidad de La Coruña (España). Fundador do thinktank NEMRI – Núcleo de Estudos Multidisciplinar das Relações Internacionais. Especialista em paradiplomacia, acordos de cooperação e transferência acadêmica e tecnológica, smartcities e desenvolvimento econômico e social. Morou na Espanha, Itália, França e Suíça.

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