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De “líder visionário” a homem sem pátria: a segunda queda de Mikheil Saakashvili

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No dia 26 de julho, o mundo pós-soviético foi pego de surpresa com o anúncio de que Mikheil Saakashvili, ex-Presidente da Geórgia e ex-Governador da província de Odessa, foi destituído de sua cidadania ucraniana. A medida foi tomada sob a justificativa de que teria havido omissão em informar sobre as acusações criminais em curso contra ele em sua terra natal, a Geórgia, no ato de registro de sua nova nacionalidade. Como seu passaporte georgiano já havia sido cassado em dezembro de 2015, Saakashvili pode ser hoje o primeiro ex-Chefe-de-Estado apátrida da história.

Talvez o maior expoente da luta contra o denominado “imperialismo russo” neste século, Saakashvili liderou uma revolução, lutou e perdeu uma guerra contra Moscou e chegou a inspirar filme em Hollywood. Ele é exemplo de uma geração que, embora nascida atrás da “Cortina de Ferro”, iniciou a carreira sob o signo do “Fim da História”, termo resgatado por Francis Fukuyama para conclamar a vitória definitiva da democracia liberal sobre outros sistemas. Após completar seus estudos nos Estados Unidos e na Europa, retornou para a Geórgia em um período em que os Washington ainda demonstrava vitalidade para liderar o mundo e a Rússia tentava sobreviver ao caos político e econômico em que se encontrava. Quase duas décadas e duas nacionalidades depois, levanta-se a pergunta do  que teria dado errado para Saakashvili.

O protegido do Ocidente

Protestos em Tbilisi, em 2003

No início da década de 2000, a Geórgia era presidida por Edward Shevardnadze, antigo líder do Partido Comunista local, que governava um país estagnado e assolado por escândalos de corrupção. Após as eleições parlamentares de 2003, ocorridas sob suspeita de fraude, terem dado a vitória para o partido governista, um grupo de jovens reformistas liderado por Saakashvili tomou à frente de uma intensa e pacífica mobilização popular que demandava mais liberdades democráticas. Os vinte dias de protestos contínuos nas ruas da capital, Tbilisi, levaram à renúncia de Shevardnadze e ganharam o nome de “Revolução das Rosas”. Esta foi a primeira das “Revoluções Coloridas” que eclodiriam no espaço pós-soviético, juntamente com a “Revolução Laranja”, em 2004, na Ucrânia, e a “Revolução das Tulipas”, em 2005, no Quirguistão. Seguindo padrão similar, todas receberam a colaboração e financiamento de organizações não-governamentais (ONGs) internacionais e promoveram ao poder grupos identificados com os valores ocidentais. Estas “revoluçõesserviriam de modelo para a posterior, e mais dramática, “Primavera Árabe”, iniciada em 2010.

Em 2004, com 96% dos votos, Saakashvili chegou à Presidência com a missão de realizar reformas radicais que transformassem a Geórgia de uma ex-república soviética em uma democracia liberal. Neste sentido, foram adotadas medidas de combate à corrupção e ao poder dos grandes oligarcas do país, além de reformas econômicas que simplificaram a política fiscal e aumentaram a arrecadação do Estado. As novas receitas permitiram a modernização da infraestrutura de transportes e a construção de novas escolas e hospitais. Em 2005, durante visita oficial ao país, o então Presidente dos EUA, George W. Bush, chegou a declarar que a Geórgia era um “farol da liberdade” e que Saakashvili era um “decisivo e visionário líder”.

A guerra e o primeiro exílio

Saakashvili e George Bush em Tbilisi, 2005

O primeiro golpe à reputação de Saakashvili como líder reformador aconteceu em novembro de 2007, quando ordenou o fechamento da principal emissora de televisão opositora ao seu governo e o uso da força contra manifestantes que protestavam contra supostos atos de corrupção de membros da administração pública. A crise fez com que pela primeira vez o real comprometimento do Presidente com os ideais democráticos passasse a ser questionado. Menos de um ano depois, em agosto de 2008, Saakashvili tentaria recuperar pela força das armas o controle sobre a região separatista da Ossétia do Sul que, tal qual a Abecásia, gozava de autonomia de facto desde a desintegração soviética em 1991. Tropas russas prontamente intervieram em defesa dos ossetas e em apenas cinco dias de guerra impuseram dura derrota às forças georgianas.

Os anos que se seguiram à derrota contra a Rússia foram marcados por protestos que pediam sua renúncia e pelo abandono do governo de figuras políticas relevantes, o que acabou por fortalecer a oposição. Durante o restante de seu segundo mandato, que terminaria em novembro de 2013, acusações de corrupção e a percepção de que os benefícios das reformas econômicas haviam sido distribuídos de forma desigual entre a população passaram a afetar a popularidade da administração junto à opinião pública.

Em setembro de 2013, no seu último ato internacional relevante como líder da Geórgia, Saakashvili proferiu discurso inflamado perante à Assembleia Geral das Nações Unidas, no qual acusou a Rússia de ser um Império “tentando recuperar suas antigas fronteiras”, provocando o imediato protesto da delegação russa, que se retirou da sessão e divulgou nota afirmando que “felizmente para o povo da Geórgia, a carreira política dessa pessoa, cujo estado mental exige uma avaliação profissional, logo chegará ao fim”. Este fim chegou em agosto de 2014, data em que a Justiça georgiana determinou sua prisão por abuso de poder e mau uso do dinheiro público, o que ele considerou ser parte de um processo de “caça às bruxas” por parte de seus opositores. À época da condenação, Saakashivili morava em Nova Iorque e não mais retornou a seu país natal.

A breve segunda chance

Saakashvili retratado nas ruas de Tbilisi

Em fevereiro de 2015, uma nova oportunidade se abriu para Saakashvili quando o Presidente da Ucrânia, Petro Poroshenko, o convidou para participar de seu governo, primeiro como consultor, e depois como Governador da província de Odessa. Para assumir a nova função, foi necessário se tornar cidadão ucraniano e, de acordo com as leis georgianas, abdicar de sua cidadania original. Sua missão seria a de replicar as medidas anticorrupção adotadas com relativo sucesso durante seu período como líder da Geórgia. No entanto, em uma reunião com habitantes de Odessa, dois meses depois de empossado, ele revelaria com notável sinceridade o motivo que o levou a deixar seu autoexílio em Nova Iorque: “Eu odeio Vladimir Putin. Estou na Ucrânia porque esta é a minha guerra, o destino da minha vida está sendo decidido aqui. Precisamos detê-lo”. A Ucrânia, em meio a uma crise com a Rússia, que no ano anterior havia incorporado a península da Crimeia ao seu território e continuava a apoiar rebeldes separatistas no leste do país, parecia o lugar ideal para Saakashvili cumprir seu propósito.

Contudo, ao tentar impor seu programa de reformas, Saakashvili provocou a reação tanto das oligarquias enraizadas desde a era soviética, quanto de antigas figuras políticas, que passaram a ser alvo de suas acusações generalizadas de corrupção. Em um episódio emblemático, Arsen Avakov, Ministro do Interior e um de seus desafetos, lançou um copo em sua direção após discussão acalorada durante uma reunião do Conselho Nacional de Reforma, momento capturado em vídeo. Isolado e enfraquecido, Saakashvili renunciou ao cargo de Governador em novembro de 2016. Ele então passou a dirigir suas críticas ao antigo aliado, Poroshenko, a quem acusou de sabotar a luta anticorrupção.

Fim de uma era?

Vladimir Putin e Saakashvili, em fevereiro de 2008

É possível perceber que as ideias defendidas por Saakashvili não coadunam com seu estilo personalista e, por vezes, autoritário de governar, sempre pouco afeito a medidas conciliatórias. O acordo de parceria estratégica entre Ucrânia e Geórgia, assinado em 18 de julho, precipitou a decisão de Kiev de cassar sua cidadania. Esta decisão põe fim ao seu plano de disputar as próximas eleições parlamentares pelo Partido “Nova Força, criado por ele depois que abdicou de seu cargo em Odessa. Por seu turno, o Governo da Geórgia reforçou seu comprometimento em buscar a extradição de seu ex-Presidente para que ele possa cumprir a pena a que foi condenado no país. 

De volta aos Estados Unidos para um segundo exílio, desta vez com um visto de trabalho que se encerra ao final de 2017, Saakashvili prometeu lutar contra a decisão tomada por Kiev e voltar à Ucrânia. Mas sua popularidade entre os ucranianos não parece sugerir que este retorno será fácil. Apenas  400 pessoas compareceram a uma manifestação em sua defesa e pesquisas apontam que só 2% de seus antigos concidadãos o apoiam. A derrocada de Saakashvili permite a conclusão de que o mundo pós-soviético não esteja preparado para abraçar seus ideais de liberdade ou, talvez, de que o Ocidente tenha depositado suas esperanças na pessoa errada. O mais provável, contudo, é que ambas as afirmações estejam corretas.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Saakashvili com a bandeira ucraniana ao fundo” (Fonte):

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:MstyslavChernov_euromaidan_ukriane_055.jpg

Imagem 2Protestos em Tbilisi, em 2003” (Fonte):

https://ka.wikipedia.org/wiki/%E1%83%95%E1%83%90%E1%83%A0%E1%83%93%E1%83%94%E1%83%91%E1%83%98%E1%83%A1_%E1%83%A0%E1%83%94%E1%83%95%E1%83%9D%E1%83%9A%E1%83%A3%E1%83%AA%E1%83%98%E1%83%90#/media/File:Rose_Revolution.jpg

Imagem 3Saakashvili e George Bush em Tbilisi, 2005” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Mikheil_Saakashvili#/media/File:MikhailSaakashvili_%26_GeorgeWBush_-_FreedomSquare_Tbilisi_-_2005May10.jpg

Imagem 4 Saakashvili retratado nas ruas de Tbilisi” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Mikheil_Saakashvili#/media/File:Vote_Saakashvili.JPG

Imagem 5Vladimir Putin e Saakashvili, em fevereiro de 2008” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Mikheil_Saakashvili#/media/File:Vladimir_Putin_22_February_2008-1.jpg

Rodrigo Monteiro de Carvalho - Colaborador Voluntário

Mestrando no programa de Pós Graduação em História Comparada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e graduado em História também pela UFRJ. Atua na área de Política Internacional, formação de alianças e segurança regional. Desenvolve pesquisas com enfoque específico no estudo dos países do Cáucaso do Sul, Eurásia e espaço pós-soviético. É membro do Grupo de Pesquisas de Política Internacional (GPPI/UFRJ) e do Laboratório de Estudos dos Países do Cáucaso (LEPCáucaso).

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