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Desafios da Ascensão Chinesa na Era Trump

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A dinâmica política internacional do ano de 2017 foi marcada pela consolidação da República Popular da China enquanto nação disposta a liderar economicamente a globalização contemporânea. Embora ainda seja cedo para avaliar o sucesso da estratégia chinesa, considera-se que a solidificação da autoridade do Presidente Xi Jinping durante 19º Congresso do Partido Comunista Chinês (PCC), a aproximação diplomática com a Rússia de Vladmir Putin, bem como a realização dos investimentos em infraestrutura previstos na Iniciativa do Cinturão e da Rota indicam que o futuro do sistema internacional será cada vez mais influenciado por decisões políticas tomadas em Beijing. Além disso, essa tendência foi reforçada pela orientação isolacionista assumida pelo Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em seu primeiro ano de mandato.

A ascensão chinesa é objeto de controvérsia entre os analistas das Relações Internacionais há pelo menos duas décadas. Após o término das especulações sobre a unipolaridade estadunidense e o “Fim da História derivados do colapso da União Soviética em 1991, as elevadas taxas de crescimento econômico da nação asiática se tornaram o principal elemento perturbador do status quo da política internacional.

Presidente da Rússia, Vladmir Putin, e o Presidente da China, Xi Jinping

Apesar disso, a perspectiva de uma “China Grande Potência” foi percebida com ceticismo por especialistas ocidentais. Economicamente, argumentava-se que o PCC seria incapaz de sustentar o desenvolvimento das forças produtivas do país em um contexto de forte controle estatal na economia. No âmbito estratégico, por sua vez, destacava-se a falta de legitimidade de um sistema político não fundamentado no modelo de democracia liberal, bem como o contexto regional conflituoso do sudeste asiático como fatores que limitariam a influência internacional chinesa.   

No entanto, passados 29 anos desde o início das reformas estruturais de Deng Xiaoping, a centralidade da China no sistema internacional deixou de ser uma probabilidade futura para ser uma realidade presente. Em outras palavras, conforme destacou Dominic Ziegler em artigo no periódico britânico The Economist: “A China está indisputavelmente de volta. Ela quer e merece um papel de destaque não só na Ásia, mas também na ordem global”.    

Considera-se que a ascensão chinesa pode ser explicitada a partir de três dimensões. Primeiro, do ponto de vista econômico, o país asiático foi capaz de orientar a transformação estrutural de seu sistema produtivo para atividades de alta tecnologia e, consequentemente, assegurar a continuidade das altas taxas de crescimento até o momento. Segundo, Beijing está utilizando seus recursos econômicos como instrumento para forjar parcerias e alianças em todos os continentes. Nesse sentido, a atração da China deriva não só da densidade de seu comércio internacional, mas também por sua disposição em exportar capital produtivo de longo prazo para países em desenvolvimento. Por fim, destaca-se o sucesso da modernização das Forças Armadas chinesas, especialmente no que tange a manutenção de sua capacidade de retaliação nuclear e ao desenvolvimento de uma Marinha preparada para impedir a penetração e movimentação de embarcações inimigas próximas ao seu território. 

Donald Trump, Presidente dos Estados Unidos, e Salman bin Abdulaziz Al Saud, Monarca da Arábia Saudita

Mediante isso, é fundamental ressaltar que o aumento da influência da China na política internacional é catalisado por dois elementos alheios ao controle de Beijing: a crescente instabilidade social nos Estados Unidos e o comportamento errático da política externa norte-americana na última década. Em relação ao âmbito doméstico, as causas e os resultados da Crise de 2008 explicitaram as contradições de um sistema econômico capturado pelos interesses de um setor financeiro cada vez mais poderoso. Ou seja, embora a economia estadunidense tenha sido capaz de superar a recessão, são crescentes os indicadores de concentração de renda, bem como de pauperização de boa parte da população. Nesse contexto de acirramento do conflito distributivo, exacerbam-se também tensões ideológicas e raciais históricas, as quais mitigam a coesão interna e a possibilidade de formação de projetos estratégicos nacionais de longo prazo.  

Do ponto de vista externo, a incapacidade estadunidenses de promover um grau mínimo de estabilidade no Oriente Médio após sucessivas intervenções militares colocaram em cheque o perfil da liderança do país no sistema internacional contemporâneo. Nesse sentido, a postura isolacionista do atual presidente Donald Trump, exemplificada recentemente pela retirada dos Estados Unidos do Acordo Transpacífico e pelo reconhecimento de Jerusalém como capital do Estado de Israel apenas reforçaram essa tendência. Por fim, nota-se que o desinteresse por parte de Washington em construir bases mínimas de coexistência com Moscou serviu para aproximar a Rússia de Vladmir Putin da China de Xi Jinping

Por conta disso, é plausível que a dinâmica de fortalecimento chinês e enfraquecimento estadunidense seja o plano de fundo no qual as tensões e conflitos regionais específicos ocorrerão no próximo ano (2018). Conjunturalmente, indica-se que tal rivalidade se manifestará de maneira acentuada na interação entre a estratégia de internacionalização da moeda chinesa (Yuan) e os esforços perseguidos pelos Estados Unidos para manter o dólar como meio de troca dominante no sistema monetário internacional. Nesse cenário, a postura da Arábia Saudita será elemento definidor. Caso a China seja capaz de convencer a monarquia islâmica a comercializar sua produção de petróleo também em Yuan, o pilar financeiro da hegemonia norte-americana estará seriamente ameaçado. 

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Fontes das Imagens:

Imagem 118o Congresso do Partido Comunista da China” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Communist_Party_of_China#/media/File:18th_National_Congress_of_the_Communist_Party_of_China.jpg

Imagem 2Forças Armadas chinesas durante parada militar” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/People%27s_Liberation_Army#/media/File

Imagem 3Presidente da Rússia, Vladmir Putin, e o Presidente da China, Xi Jinping” (Fonte):

http://en.kremlin.ru/events/president/news/50228

Imagem 4Donald Trump, Presidente dos Estados Unidos, e Salman bin Abdulaziz Al Saud, Monarca da Arábia Saudita” (Fonte):

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Donald_Trump_and_King_Salman_bin_Abdulaziz_Al_Saud_sign_a_Joint_Strategic_Vision_Statement,_May_2017.jpg

Pedro Brancher - Colaborador Voluntário

Doutorando em Ciência Política pela Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP) da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). Mestre em Estudos Estratégicos Internacionais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Bacharel em Relações Internacionais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Pesquisa nas áreas de Segurança Internacional, Economia Política Internacional e Política Externa Brasileira. Como colaborador do CEIRI Newspaper escreve sobre Ásia, especialmente sobre China, país em que residiu durante um ano e que é seu objeto de estudo desde 2013.

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