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[:pt]Desenvolvimentismo etíope se mostra inabalável perante críticas de agentes externos e internos[:]

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A passo largos, a Etiópia avança em termos econômicos, visando lograr o status de economia de nível de renda médio, até 2025. Grandes obras são implementadas e a abertura comercial e a investimentos estrangeiros são cada vez mais incentivadas pelas principais autoridades nacionais. Não à toa, na semana passada, o presidente etíope Hailemariam Desalegn convidou investidores alemães a aplicarem recursos no setor industrial e elétrico do país.

No entanto, ao deparar-se com a atual conjuntura socioeconômica etíope, analistas, ativistas e acadêmicos facilmente se veem intrigados pela seguinte pergunta: para quem é destinado o atual projeto desenvolvimentista? Pergunta esta que países emergentes do mesmo continente e de outras regiões do mundo também se veem fazendo, perante a rápida transformação em suas sociedades.

Os últimos acontecimentos na Etiópia, referentes à luta pelos direitos de livre expressão, de direitos humanos e proteção às populações originárias, apontam para uma tendência: a de que os projetos de desenvolvimento tendem a não envolver as minorias sociais e o meio ambiente em sua concepção. Na quarta-feira passada (20 de julho), por exemplo, o atual Ministro das Águas, Irrigação e Eletricidade, Motuma Mekassa, afirmou que os estudos de impacto social e ambiental, independentemente de seus resultados, não terão qualquer poder de paralisar as obras na Grande Barragem Renascença da Etiópia.

Esta Barragem, localizada na região noroeste da Etiópia, junto à fronteira com o Sudão, será a maior usina hidrelétrica da África, quando concluída. O Governo etíope a vê como importante passo para triplicar a produção de energia elétrica no país, um dos principais entraves ao contínuo crescimento da economia. Não à toa, o Governo da Etiópia segue buscando contratos de apoio e cooperação internacionais para o setor. Na semana passada, selou um Acordo de 104 milhões de dólares com o Banco Africano de Desenvolvimento para investir no setor elétrico do país.

Entretanto, a Grande Barragem Renascença da Etiópia trará sérios impactos à população local. Estima-se que cerca de 3.700 famílias serão deslocadas para a construção da usina. Atuações passadas do Governo em indenizações e reassentamento de famílias afetadas não trazem muitas esperanças: o deslocamento de milhares de Oromo para a expansão urbana da capital Adis Ababa foi feito, para muitos, de maneira insatisfatória, causando uma série de conflitos com a polícia local.

Da mesma forma, a Grande Barragem Renascença da Etiópia impactará significativamente o ecossistema local e o nível de vasão do Nilo Azul. Outras barragens edificadas pelo Governo etíope, como a GIB III, na região sul do país, também afetaram consideravelmente o meio ambiente e, para muitos ativistas, pouca atenção foi dada pelos governantes para a mitigação dos efeitos sobre o meio ambiente.

A mudança no nível de vasão do Nilo Azul tornou-se, ainda, objeto de debate entre a Etiópia e os países da região pelos quais passa o rio Nilo. O Governo egípcio, por exemplo, posicionou-se fortemente contra a barragem no início do projeto, alegando que a mudança no nível de vasão do rio impactaria nas atividades agrícolas no país. Foi somente após a formação de uma Comissão com representantes do Egito, da Etiópia e do Sudão para a avaliação dos impactos ambientais da barragem que os ânimos se acalmaram entre os Estados.

A declaração do Ministro das Águas, Irrigação e Eletricidade sobre o pequeno poder decisivo das avaliações ambientais poderão novamente acender as tensões diplomáticas entre esses países. Não seria a primeira vez, porém, que políticas internas causariam tensões com outros Estados. Há muito tempo, órgãos internacionais criticam o nível de transparência e respeito aos direitos individuais das políticas públicas do Governo etíope, sem contudo abalar as suas implementações.

Dessa maneira, seja em um ambiente de relações externas ou internas, o Governo da Etiópia se mostra sólido e irredutível perante críticas alheias. Isto faz com que suas políticas públicas sejam, em sua concepção, cerradas e que pouco representem os anseios gerais da população. Com isso, fica evidente porque muitos analistas consideram que as políticas públicas promovidas pelo Estado etíope se assemelham mais a uma cartilha governamental do que propriamente a uma política do povo e para o povo.

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Imagem (FonteCenter for Security Policy):

http://www.centerforsecuritypolicy.org/2014/10/06/ethiopia-and-egypt-find-common-ground-on-hydro-project/

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Pedro Frizo - Colaborador Voluntário

Economista pela ESALQ-USP, é atualmente mestrando em Sociologia pelo Programa de Pós- Graduação do IFCH-UFRGS. Foi pesquisador do Programa de Mudanças Climáticas do Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia (IDESAM). Atualmente desenvolve pesquisas na área de Sociologia Econômica, Economia Política e Sociologia do Desenvolvimento. Escreve no CEIRI Newspaper sobre economia e política africana, como foco em Angola, Etiópia e Moçambique

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