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Desenvolvimento sustentável é tema de encontro regional na Etiópia

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A cidade de Addis Ababa, na Etiópia, sediou, na última quinta-feira (18 de maio), o Fórum Regional Africano em Desenvolvimento Sustentável, promovido pela Comissão Econômica das Nações Unidas para a África (CEA). O evento contou com a presença de uma série de agentes públicos e formuladores de políticas públicas do continente africano. Dois temas despontaram ao longo do Fórum: a dinâmica dos termos de troca dos países africanos com os demais países do globo e os caminhos para o “desenvolvimento sustentável”.

Em relação ao primeiro tema, o secretário geral da CEA, Abdalla Hamdok, ressaltou a tendência à deterioração dos termos de troca nas nações africanas, dada a prevalência da exportação de produtos primários e, em contrapartida, a prevalência de bens manufaturados e de capital na pauta de importação destes países.

A África tem que tomar uma decisão importante e dizer a si mesma para ‘parar de exportar produtos primários’. Nós precisamos agregar valor às nossas commodities e esta é a direção certa para a criação de empregos decentes, mitigando o desemprego e temas correlatos”, afirmou Hamdok na abertura oficial do Fórum.

Tradicionalmente, as comissões econômicas das Nações Unidas lidaram com a deterioração dos termos de troca e a industrialização como fatores chave para entender os processos de desenvolvimento econômico nos países do Globo Sul. Por exemplo: a Comissão Econômica das Nações Unidas para a América Latina (CEPAL) também postulou, desde a sua fundação na década de 50, a dinâmica de importação de bens manufaturados frente a exportação de bens primários como um dos principais fundamentos causais ao “subdesenvolvimento” das nações latino-americanas.

No entanto, o termo “desenvolvimento” sofreu críticas e mudanças nas últimas décadas pela desconsideração dos aspectos ambientais e distribucionais. Nesse sentido, junto às dimensões econômicas, foram somadas as dimensões ambientais e sociais ao termo: não à toa, a Organização das Nações Unidas (ONU) trabalha, atualmente, com o termo “desenvolvimento humano”.

Nesta linha, autoridades africanas ressaltaram a importância da questão ambiental e da igualdade social dentro do Fórum. O Ministro de Água, Irrigação e de Eletricidade da Etiópia, Seleshi Beleke, afirmou que a “inclusão, a participação civil, a paz e a segurança são pilares chave para lograr uma agenda de desenvolvimento”.

Abdalla Hamdok, Secretário Executivo da CEA. Fonte: Wikipedia

De alguma maneira, porém, a pauta ambiental e social pena em migrar da retórica para a sua adoção plena nas políticas públicas, especialmente naquelas implementadas em boa parte das nações subsaarianas. Na Etiópia, por exemplo, o plano desenvolvimentista vem sendo criticado por ativistas e organismos internacionais por silenciar vozes dissonantes da sociedade civil, bem como por uma intensa repressão policial a cidadãos contrários às grandes obras.

Um destes grandes empreendimentos é a barragem Grand Renaissance, encabeçada pelo Governo etíope e alvo de severas críticas no cenário local e internacional. Nesta última semana, a 14° tentativa de diálogo de representantes do Governo da Etiópia com representantes dos Governos egípcio e sudanês falhou – estes dois últimos países sofrerão consequências na alteração do nível do rio Nilo após a construção da barragem, fato que instigou um posicionamento contrário deles à construção da mesma. Fontes locais afirmam que as autoridades egípcias e etíopes não chegaram a um acordo referente aos mecanismos de operação da barragem, fato que influi no volume de vazão e de disponibilidade de água ao longo do leito do rio Nilo aos outros países incrustados na sua bacia hidrográfica.

O episódio, acima de tudo, ilustra a dificuldade de tecer a pauta social e ambiental aos interesses econômicos. Neste sentido, pode-se perguntar qual a real possibilidade de a retórica da “sustentabilidade” converter-se em verdadeira prática entre os agentes privados e públicos. Uma série de grandes empreendimentos são desenvolvidos atualmente no continente africano, posicionando esta indagação de uma maneira pertinente.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Comissão das Nações Unidas para a África” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Comiss%C3%A3o_Econ%C3%B4mica_das_Na%C3%A7%C3%B5es_Unidas_para_a_%C3%81frica)

Imagem 2 Abdalla Hamdok, Secretário Executivo da CEA” (Fonte):

http://www.uneca.org/pages/executive-secretary-ai

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Pedro Frizo - Colaborador Voluntário

Economista pela ESALQ-USP, é atualmente mestrando em Sociologia pelo Programa de Pós- Graduação do IFCH-UFRGS. Foi pesquisador do Programa de Mudanças Climáticas do Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia (IDESAM). Atualmente desenvolve pesquisas na área de Sociologia Econômica, Economia Política e Sociologia do Desenvolvimento. Escreve no CEIRI Newspaper sobre economia e política africana, como foco em Angola, Etiópia e Moçambique

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