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Desvalorização cambial na Etiópia anima empresários chineses

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A China configura atualmente como um dos principais parceiros diplomáticos e econômicos dos países da África Subsaariana. Neste conjunto de nações, a Etiópia ocupa o papel de protagonista, à medida que se apresenta como local atrativo a companhias chinesas que queiram desenvolver atividades de uso intensivo de mão de obra. Em um período onde as transações e investimentos em escala global são cada vez mais rápidos e fáceis, este crescente movimento se faz com o intuito de diminuir o custo geral de produção e ganhar competitividade no mercado mundial.

Banco Nacional Etíope desvalorizou a moeda local após 7 anos estável

Neste sentido, o Estado etíope caminha na consolidação de uma estrutura econômica e institucional favorável ao fortalecimento do investimento estrangeiro direto. As construções de barragens, de usinas hidrelétricas e de rodovias, por exemplo, têm sido obras desenvolvidas com vistas a tonificar essa estrutura. É nesta direção que a recente mudança no regime de câmbio caminha também.

Após sete anos com o câmbio deliberadamente inalterado, o Banco Nacional da Etiópia (BNE) desvalorizou em 15% a moeda nacional – o Birr. Cotada anteriormente em 23/dólar, a cotação média agora situa-se em torno da casa dos 27 birrs. Juntamente com a desvalorização, o BNE anunciou também no início deste mês (novembro de 2017) um aumento de 2% na taxa geral de juros, a qual será a partir de agora de 7% ao ano.

Segundo a instituição, a medida foi anunciada com o intuito de incrementar as rendas auferidas com a exportação. Isto pois, uma vez consolidadas as filiais de empresas estrangeiras, um câmbio desvalorizado aumenta as rendas auferidas com as vendas no mercado mundial. Com uma expectativa maior de rendimentos após a desvalorização do câmbio, cresce a projeção de lucros às empresas instaladas, o que poderá incentivar o investimento estrangeiro direto.

O balanço de pagamentos também desempenhou papel relevante na decisão do BNE. O café representa, atualmente, cerca de 40% das exportações etíopes. A estagnação dos preços internacionais dessa commodity vem limitando as receitas externas, o que explica a decisão em desvalorizar a moeda. Além disso, uma vez que os produtos importados tenderão a ter um aumento nos preços no mercado nacional, subir a taxa geral de juros foi vista como medida para arrefecer o consumo e, com isso, evitar uma possível pressão inflacionária.

Porém, a desvalorização encontra a sua grande razão de ser na tentativa de impulsionar a consolidação de uma indústria nacional. A transformação de uma economia essencialmente agrária para uma lastreada no segundo setor faz parte do atual Great Transformation Plan II (GTP II), o qual almeja posicionar a Etiópia como uma economia de nível médio até 2025.

Neste sentido, a presença chinesa é vista como primordial, seja para incrementar as receitas em dólares e com isso expandir o controle sobre divisas, seja para criar indústrias de abastecimento – onde através de um learning-by-doing* possíveis grandes indústrias intensivas em bens de capital e tecnologia poderiam emergir. No período entre 2012 e 2017, 279 empresas chinesas passaram a operar na Etiópia, criando mais de 28 mil empregos em projetos que valem, em conjunto, cerca de 580 milhões de dólares. A transferência tecnológica desse conjunto de empresas chinesas ao empresariado etíope dependerá, no entanto, de condições institucionais, do fortalecimento do mercado interno e de um processo contínuo de capacitação da mão de obra local.

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Nota:

* Learningbydoing resume uma condição de aprendizado por parte do empresariado nacional sobre práticas produtivas e de inovação desenvolvidas por empresas estrangeiras. É vista por muitos economistas como um dos principais caminhos para o desenvolvimento de indústrias em nações subdesenvolvidas.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Desvalorização da moeda etíope tende a acentuar investimento chinês na Etiópia” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/China%E2%80%93Ethiopia_relations

Imagem 2Banco Nacional Etíope desvalorizou a moeda local após 7 anos estável” (Fonte):

https://www.ezega.com/News/NewsDetails/3538/NBE-Gives-New-Forex-Directives-to-Ethiopian-Banks

Pedro Frizo - Colaborador Voluntário

Economista pela ESALQ-USP, é atualmente mestrando em Sociologia pelo Programa de Pós- Graduação do IFCH-UFRGS. Foi pesquisador do Programa de Mudanças Climáticas do Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia (IDESAM). Atualmente desenvolve pesquisas na área de Sociologia Econômica, Economia Política e Sociologia do Desenvolvimento. Escreve no CEIRI Newspaper sobre economia e política africana, como foco em Angola, Etiópia e Moçambique

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