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Dhlakama ameaça ruptura com o pacto político consolidado com a FRELIMO

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Após um breve período de estabilidade política em Moçambique, os ânimos voltaram a se alterar com as eleições municipais em Nampula, região norte do país. Na semana passada, o líder da Resistência Nacional Moçambicana (RENAMO), Afonso Dhlakama, declarou que a eleição para Prefeito desta cidade foi marcada por fraudes por parte do partido governista, a Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO).

Para Dhlakama, a FRELIMO fraudou as eleições a partir da inclusão de civis não aptos a votarem no local, tendo assim trazido uma série de pessoas de outras regiões para participarem da escolha do novo governante municipal. Segundo o líder da RENAMO, isto haveria desiquilibrado injustamente o montante de votos recebidos pelo seu partido, fato que culminaria na escolha inevitável de Amisse Cololo, candidato da FRELIMO.

A RENAMO incluiu, como prerrogativa no acordo de paz, um protagonismo maior na política moçambicana

Ambos os partidos têm travado intensos combates retóricos e físicos desde as últimas eleições gerais, em 2014. Naquela ocasião, Dhlakama reivindicou a vitória em seis províncias na parcela central e norte do país, afirmando reiteradamente a vitória indiscutível da RENAMO nessas respectivas regiões. Como forma de protesto e retaliação ao resultado nas urnas, Dhlakama passou a treinar veteranos da guerra civil na floresta de Gorongosa, de onde se situaram significativa parte dos conflitos entre os braços armados de ambos os partidos. Estima-se que aproximadamente 15 mil moçambicanos migraram para o Malauí devido aos confrontos gerados.

Os embates, por fim, cessaram ao longo do ano passado (2017), devido ao avanço das discussões em torno da assinatura de um acordo de paz entre Dhlakama e o presidente Filipe Nyusi. Entre uma série de prerrogativas e demandas de ambas as partes para firmarem o acordo, estava presente um gradativo protagonismo da RENAMO na esfera política – fato longamente reivindicado pelos principais nomes do partido.

O que ocorreu nas eleições em Nampula, se provado como válido, põe em xeque o acordo de paz estabelecido entre ambas as partes, bem como desafia a atual e frágil estabilidade política de Moçambique. Entretanto, uma série de jornalistas e observadores apontam como incongruentes as críticas de Dhlakama sobre as fraudes nestas eleições.

Em primeiro lugar, argumenta-se a improbabilidade de que pessoas tenham sido trazidas de outras regiões para votarem em Nampula, tendo em vista o elevado custo para tal deslocamento. Segundo, avalia-se que não houve nenhum tipo de distúrbio durante as eleições, uma vez que os eleitores que participaram de todo o processo eram de fato creditados a exercerem o seu direito de voto naquele local. De acordo com relatos de observadores, houve somente um caso de tentativa de voto de uma pessoa não pertencente àquele distrito eleitoral.

Com isso, muito poderá ser discutido nas próximas semanas sobre as críticas feitas por Dhlakama acerca do processo eleitoral em Nampula, bem como sobre as suas implicações mediante a verificação da veracidade dos acontecimentos. Se provadas como corretas as acusações do líder da RENAMO, pode-se esperar uma degradação da confiança dos principais partidos no acordo de paz selado entre as duas principais frentes políticas. Se provadas incongruentes, no entanto, Dhlakama deverá prestar contas perante a sociedade sobre suas críticas infundadas, dada a sua expressiva influência nas estruturas democráticas da nação.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Líder do principal partido de oposição, Dhlakama é atualmente peça chave para assegurar a democracia em Moçambique” (Fonte):

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Afonso_Dhlakama_(cropped).jpg

Imagem 2 A RENAMO incluiu, como prerrogativa no acordo de paz, um protagonismo maior na política moçambicana” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Resist%C3%AAncia_Nacional_Mo%C3%A7ambicana

Pedro Frizo - Colaborador Voluntário

Economista pela ESALQ-USP, é atualmente mestrando em Sociologia pelo Programa de Pós- Graduação do IFCH-UFRGS. Foi pesquisador do Programa de Mudanças Climáticas do Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia (IDESAM). Atualmente desenvolve pesquisas na área de Sociologia Econômica, Economia Política e Sociologia do Desenvolvimento. Escreve no CEIRI Newspaper sobre economia e política africana, como foco em Angola, Etiópia e Moçambique

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