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Diversificação do parque Industrial e da receita governamental: os desafios bolivianos para manter desenvolvimento

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O Estado Plurinacional da Bolívia tem se destacado como o país sul-americano que mais cresce no continente, com média de 5% anuais há mais de dez anos, fenômeno que tem sido chamado de “milagre econômico boliviano”.

As projeções da Comissão Econômica para América Latina e o Caribe (Cepal) para 2017, ainda não confirmadas, estimaram um crescimento da economia boliviana da ordem de 4,3%, uma pequena queda, mas, ainda assim, o maior índice do continente. Para 2018, o Jornal de Negócios apresenta, com base em dados do FMI, um infográfico no qual a Bolívia aparece com o maior índice de expectativa de crescimento da América do Sul. O desafio boliviano é manter este ritmo de crescimento, fomentando a expansão da indústria nacional de modo a reduzir a dependência externa e alcançar um patamar de desenvolvimento endógeno e sustentável. 

Evolução do PIB da Bolívia

O país vem logrando êxito por meio de uma política sustentada por três pilares: a nacionalização de hidrocarbonetos como gás e petróleo; investimento público e políticas sociais; e a estabilidade política e social da longeva gestão de Evo Morales. A estatização de empresas e a renegociação de contratos permitiu ao Estado ampliar as receitas com hidrocarbonetos, alavancadas com a exportação de gás para o Brasil e a Argentina. Os investimentos públicos, por sua vez, foram custeados com este extraordinário aumento de receitas que possibilitou a geração de uma reserva financeira capaz de sustentar também os programas sociais. Dentre os 14 anos de crescimento econômico, observa-se que Evo Morales esteve como chefe do executivo nos últimos onze anos, o que certamente contribuiu para a continuidade da política de Estado adotada. 

Em que pese o longo período de bonança, o governo não fez o pagamento, por dois anos consecutivos, da segunda parcela do Aguinaldo, uma espécie de 13º salário pago em junho e dezembro na Bolívia.  As autoridades econômicas bolivianas atribuem à crise brasileira, que fez reduzir a demanda, a indisponibilidade de recursos para honrar tal pagamento.  Acreditam, entretanto, numa melhoria em 2018, com base na expectativa de crescimento da demanda externa, de importadores como o Brasil, Estados Unidos, China e países da Europa.  

Os críticos veem com reservas a manutenção do crescimento da Bolívia, que denominam jaguar sul-americano, numa cética alusão ao fenômeno dos tigres asiáticos. Destacam que, a despeito das altas taxas de crescimento, o país segue sendo o mais pobre do continente e questionam se o aumento da dívida pública acumulada e o esgotamento das reservas não causarão uma estagnação no futuro.

A economia boliviana está baseada no rentismo, no caso, a receita advinda das exportações de petróleo e gás que sustenta os investimentos públicos e a importação de produtos, inclusive os de primeira necessidade. Os riscos, para a diversificação da indústria, em países com economia rentista altamente dependente do petróleo, já haviam sido apontados por Celso Furtado em duas análises sobre a Venezuela, sendo a primeira em 1957. Nas décadas seguintes, o perigo de desindustrialização, em país desenvolvido, foi objeto de análise aplicada à Holanda, que iria dar origem ao termo “doença holandesa” (Dutch Disease).  

A exemplo da economia venezuelana, o perigo do rentismo para a Bolívia reside na aposta em fonte única de receitas, ou seja, a indústria do petróleo, de modo que se desestimule o desenvolvimento de outros setores da indústria nacional. Uma das consequências é a crise de abastecimento, decorrentes de quedas nos preços do petróleo e gás que comprometam o equilíbrio das contas públicas e a capacidade de importação. 

Em recente decisão da justiça boliviana, Evo Morales adquiriu o direito de tentar nova reeleição em 2019 e a possibilidade de continuar na gestão, no período de 2020 a 2025. Desde já e para os próximos anos, seja com Evo Morales ou outro Presidente, o desafio da Bolívia, para não seguir o caminho da Venezuela, é utilizar parte das reservas obtidas com o rentismo e aplicá-la no fomento aos demais segmentos da indústria nacional. Dessa forma, pode-se diversificar a fonte de receitas e reduzir a dependência externa para o abastecimento das necessidades de consumo interno. 

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Fontes das Imagens:

Imagem 1O Presidente Evo Morales discursa nas Jornadas Europeias de Desenvolvimento” (Fonte):

https://www.facebook.com/MinPresidencia/photos/a.223952224648280.1073741828.221347191575450/446888029021364/?type=3&theater

Imagem 2Evolução do PIB da Bolívia” (Fonte):

https://www.ine.gob.bo/

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A.C. Ferreira - Colaborador Voluntário

Mestre e especialista em relações internacionais pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), especialista em Política e Estratégia pelo programa da ESG (UNEB, ADESG/BA), bacharel em Administração pela Universidade Católica do Salvador (UCSal). Consultor e palestrante de Comércio Exterior.

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6 Comments

  1. Wilson Moretti Mencaroni 7 de fevereiro de 2018

    O bom retrospecto recente no crescimento da Bolívia pode servir de parâmetro para a recuperação econômica brasileira? Guardadas as devidas proporções, e desde que aprenda com os colapsos administrativos de alguns dos nossos vizinhos, acredito que os países sul-americanos têm muito a contribuir, seja no campo teórico com modelos econômicos ou na prática do comércio regional, com a reabilitação do Brasil.

    Responder
    1. Antonio Ferreira 20 de março de 2018

      Boas ponderações, meu caro Wilson.

  2. Anderson 9 de fevereiro de 2018

    Parabéns pelo texto A.C. Ferreira. O tema da diversificação industrial é sobremaneira importante para os países sul-americanos, porém, bastante ignorado pelos respectivos mandatários nacionais.

    O Brasil, por exemplo, perdeu o bonde da história e ao invés de ter investido pesadamente na indústria de tecnologia e em P&D, quando estava num bom momento da sua economia, preferiu continuar sendo exportador de commodities. Hoje estamos vendo os resultados.

    Sendo assim, tendo a discordar da expressão “manutenção do desenvolvimento”, pois o que houve, de acordo com o texto, foi o aumento da capacidade produtiva, pois fala-se em “14 anos de crescimento econômico”. Seria desenvolvimento se, companhado do crescimento, tivéssemos melhoria do padrão de vida da população. O que o texto nos informa, ao contrário, é que a Bolívia é o pais “mais pobre do continente”.

    Responder
    1. Antonio Ferreira 20 de março de 2018

      Anderson, grato pela leitura e comentário. De fato não se confundem os conceitos de crescimento e desenvolvimento e uma das matérias-fonte que estão no artigo menciona as políticas inclusivas, aponta indicadores de redução de pobreza, de diminuição de desigualdade e melhoria de renda baseado em dados do FMI. A posição dos críticos, tb citada no artigo, baseia-se na alegada posição no ranking de pobreza, desconsiderando indicadores de desenvolvimento já citados bem a evolução positiva do IDH, os quais sugerem melhoria do país em relação a si próprio.

  3. rosana neder 10 de fevereiro de 2018

    Muito esclarecedor esse texto. Nos dá uma visão completa do panorama atual. Valeu a leitura.

    Responder
    1. Antonio Ferreira 20 de março de 2018

      Grato, Rosana. Aguardamos novas visitas suas ao Ceiri Newspaper

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