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Doença de Chávez expõe fraqueza do regime venezuelano

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A internação em Cuba do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, para tratamento de uma doença misteriosa está levando o país a uma situação tensa, podendo gerar crise, violência e repressão, com rumores de “farsa política” e “golpe de estado”.

 

Segundo declarações das autoridades venezuelanas, Chávez foi internado no dia 10 de junho em Cuba para a retirada de um “abscesso pélvico”, sem ocorrer a revelação do que causou o problema, razão pela qual tem havido especulações que variam desde erro ocorrido numa suposta lipoaspiração até câncer de próstata, hipótese que começa a ser considerada a mais provável e está sendo disseminada pela mídia, tanto por autoridades médicas como autoridades políticas, embora de forma controlada e sem confirmação acerca do que é divulgado.

Ressaltando a incerteza, Geraldine Canteros, uma cirurgiã argentina entrevistada pelo jornal “GLOBO” afirmou: “para saber a gravidade da situação de Chávez, é fundamental saber qual foi a patologia que resultou em um abscesso pélvico: poderiam ser dezenas de doenças, malignas e benignas”*.

A dúvida tem levado às piores considerações, principalmente devido ao silêncio que está rondando o caso, em especial do próprio Chávez, que ficou sem se pronunciar por duas semanas, atitude fora do padrão de seu comportamento, uma vez que ele “discursa” diariamente nos meios de comunicação venezuelanos.

A questão, porém, está mostrando a fragilidade do regime político bolivariano, o qual os especialistas identificam como autoritário e centralizador, baseado no “tipo puro carismático de dominação”, usando-se a tipologia de Max Weber para compreender as formas legítimas de dominação.

Segundo divulgado na imprensa, a gravidade da doença foi ressaltada pelo fato de Chávez ter recebido da “Assembléia Nacional” autorização para continuar despachando de Havana, onde se encontra. Da perspectiva política, contudo, emergiu não apenas a centralização do regime, como também a fraqueza institucional do país, que ainda se estrutura de forma personalista.

Este fato tem sido ressaltado, já que o atual vice-presidente venezuelano, Elías Jaua, está sendo levado a se apresentar apenas para tranqüilizar os partidários do mandatário, ao garantir que ele não está governando interinamente. No limite, está trazendo à tona a impossibilidade de substituição de Chávez graças ao modelo político que vige, não se vislumbrando quem poderá assumir o poder no caso de sua morte.

Em síntese, há um vazio gigantesco separando Chávez das instituições, bem como de qualquer líder que esteja imediatamente abaixo dele. No caso de sua ausência, não são poucos os analistas que apostam numa grande crise, com graves riscos de golpe, que possa vir de qualquer segmento interno do governo, já que Hugo Chávez é o ponto de equilíbrio entre personagens que convergem ideologicamente, mas são antagonistas metodológicos, adversários internos e mesmo inimigos políticos, tanto que a Oposição hoje é composta também por significativo número de ex-aliados do Presidente.

A confirmação da possibilidade de um movimento armado foi apresentada por um de seus irmãos, Adan Chávez, que alertou os partidários para se prepararem para uma possível luta armada. De sua perspectiva, o Hugo alertou que deseja se manter no cargo por meio democrático, mas não descarta as outras formas de luta.

Adan declarou, ao se referir ao Presidente: “Como autênticos revolucionários, não podemos esquecer outras formas de luta”**, apresentando que o clima de golpe, ou movimento militar percorre o país, principalmente as altas esferas do poder.

A oposição (tanto a política, quanto a da sociedade civil) está criticando a ausência de informações e está declarando que o silêncio vem trazendo instabilidade e ansiedade dentro da população, pois não se sabe primeiro qual é a doença de Chávez, segundo quem está dirigindo o país.

A doutora Elsa Cardozo, professora de “Relações Internacionais” da “Universidade Central da Venezuela” afirmou: “Na Venezuela, onde a política está intimamente ligada à figura de Chávez, qualquer observador se questiona quem está governando agora. Isso não é bom para a confiança que o Governo deve gerar, dentro e fora do país”***.

Outro pesquisador, Luis Vicente León, do “Instituto de Pesquisa Datanálisis”, levantou a possibilidade de estar sendo fabricada uma farsa com o intuito de iludir o povo, criando a imagem de um resistente, um salvador, um homem que renasce da dor para realizar seu destino perante o povo.

Em suas palavras: “A razão pode estar em uma estratégia de preparação para uma grande volta à Presidência. A idéia seria estimular o aparecimento de rumores negativos, que dariam ao retorno de Chávez um toque ainda mais espetacular e dramático”****.

Neste sentido a meta é a eleição presidencial de 2012, constituindo-se a doença de Chávez como uma grande peça teatral, dentro de um bem articulado planejamento de “marketing político”.

Analistas apontam que, independente da realidade sobre a doença e de qual ela seja, o acontecimento trouxe para a superfície a essência do atual regime político venezuelano, que está cada dia mais enfraquecido e vive o drama de todos os regimes que se constituem espelhados no “tipo puro carismático de dominação legítima”. O principal problema se resume na fraqueza das instituições, ou sua ausência, ou nas suas seguidas extinções, ficando o vazio quando ocorre o desaparecimento do líder.

Como afirmam os especialistas, o poder não admite vácuo e a tendência é este ser preenchido imediatamente, tão mais rápido, equilibrado e seguro, quanto mais sólidas são as instituições políticas e sociais. No caso oposto, geralmente produzem instabilidade, luta pelo poder, não raro “golpes de estado”, ou “guerras civis”.

Diante do momento de crise que vive a Venezuela, de polarização política, antagonismos sociais, problemas econômicos, enfrentamentos entre as instituições e divergências entre grupos internos do governo, todos os analistas estão apostando que a tendência será de grande violência no país.

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Fontes:

* http://oglobo.globo.com/mundo/mat/2011/06/21/causa-do-abscesso-a-chave-do-enigma-sobre-saude-do-chavez-924743564.asp#ixzz1QRKjhJC1

** http://oglobo.globo.com/mundo/mat/2011/06/26/irmao-de-chavez-diz-que-apoiadores-nao-devem-descartar-luta-armada-para-manter-poder-924769222.asp

*** http://cgn.inf.br/?system=news&action=read&id=147576

**** http://cgn.inf.br/?system=news&action=read&id=147576

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Marcelo Suano - Analista CEIRI - MTB: 16479RS

É Fundador do CEIRI NEWSPAPER. Doutor e Mestre em Ciência Política pela Universidade em São Paulo e Bacharel em Filosofia pela USP, tendo se dedicado à Filosofia da Ciência. É Sócio-Fundador do CEIRI. Foi professor universitário por mais de 15 anos, tendo ministrado aulas de várias disciplinas de humanas, especialmente da área de Relações Internacionais. Exerceu cargos de professor, assessor de diretoria, coordenador de cursos e de projetos, e diretor de cursos em várias Faculdades. Foi fundador do Grupo de Estudos de Paz da PUC/RS, do qual foi pesquisador até o final de 2006. É palestrante da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG-RS), tendo exercido também os cargos de Diretor de Cursos e Diretor do CEPE/CEPEG da ADESG de Porto Alegre. Foi Articulista do Broadcast da Agência Estado e do AE Mercado (Política Internacional), tendo dado assessoria para várias redes de jornal e TV pelo Brasil, destacando-se as atuações semanais realizadas a BAND/RS, na RBS/RS e TVCOM (Globo); na Guaíba (Record), Rádioweb; Cultura RS; dentre vários jornais, revistas e Tvs pelo Brasil. Trabalhou com assessoria e consultoria no Congresso Nacional entre 2011 e 2017. É autor de livros sobre o Pensamento Militar Brasileiro, de artigos em Teoria das Relações Internacionais e em Política Internacional. Ministra cursos e palestra pelo Brasil e no exterior sobre temas das relações internacionais e sobre o sistema político brasileiro.

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