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Primária após primária, o magnata do ramo imobiliário, Donald Trump, demonstrou ter ganho a preferência do eleitorado republicano nas prévias deste Partido, a ponto de pulverizar todos os prognósticos e análises feitas por especialistas e cientistas políticos estadunidenses e estrangeiros quanto ao seu desempenho, frente a outros candidatos com muito mais experiência política.

Com uma estratégia considerada por analistas como atabalhoada e polêmica, ele conseguiu endosso das lideranças partidárias e superou a rejeição, que, segundo Nate Silver, um dos principais estatísticos políticos dos Estados Unidos, poderia alcançar 50%, à medida que o número de concorrentes fosse reduzindo, ou por meio da convenção partidária, que ocorrerá em julho próximo.

O fenômeno político do pré-candidato republicano é reflexo de uma sociedade frustrada e reflexiva com relação ao establishment e ao futuro daquele que já foi um dos países mais prósperos, cuja propaganda do “american way of life” era fruto de orgulho para os seus nacionais, que compreendiam, através da forte propaganda, que a força laboral poderia promover uma vida próspera e estável para todos aqueles que trabalham e lutam no dia-a-dia.

Na exploração desse lapso político-econômico-social de tempos mais recentes do cidadão médio norte-americano, Trump lança uma epopeia contra todas as “mazelas” e isso lhe rendeu votos e notoriedade. Suas frases de efeito, por mais espanto que causem, são repercutidas e alcançam o objetivo.

O próprio pré-candidato em seu último livro “Crippled America” admite que utiliza dos meios de comunicação em seu favor e que, muitas vezes, suas declarações polêmicas tem como fim alcançar as manchetes dos jornais, uma forma de propaganda gratuita e bastante efetiva.

Todavia, os dados apontam que a rotineira propagação de declarações perturbadoras levanta precedente para traçar um paralelo com a trágica história da primeira metade do século XX, exemplificado pelo período de ascensão do nazismo e a necessidade latente de sobrepor os interesses da nação, cuja identificação se fazia (e vários observadores dizem que está sendo proposto neste processo eleitoral) pela raça e religião sob a tutela da ética, da lei e desejando reconstruir a ordem internacional

A frase de campanha “Make America Great Again” (Fazer a América Grande Novamente, na tradução livre), em termos estruturais, não é tão distante dos ensinamentos expressos na biografia de Adolf Hitler, “Mein Kampf” (Minha Luta, em tradução livre do alemão), o que permite conjecturar a possibilidade de observar a retomada de um império hegemônico e mantê-lo fidedigno ao ideário de política compreendido por Trump.

Ao dar outro argumento para a comparação, o célebre discurso de política externa de Trump, intitulado “America First” (“Primeiro a América”, em tradução livre) conduz para uma proximidade com “Deutschand über alles” (“Alemanha acima de tudo”, na tradução livre do alemão) e também com o America First Comitee, lobby criado nos anos 1940 para impedir a intervenção estadunidense na II Guerra Mundial e mesmo de auxiliar com armamentos e meios logísticos o Reino Unido.

Diante de um cenário cuja temática comparativa acarreta em muitas reflexões, para o eleitorado disposto a votar no bilionário, observadores apontam que esses temas não lhe afetam diretamente, haja vista que o perfil desses potenciais votantes está no grupo dos homens brancos, sem diploma universitário, com baixa perspectiva de ascensão social e com forte sentimento de decadência em relação ao “american dream”.

Fazem parte desse grupo aqueles cidadãos enquadrados no conceito WASP (“Branco, Anglo-Saxão e Protestante”, na tradução da sigla para o português), contrários a políticas sociais e benefícios para minorias, principalmente hispânicos.

Por último, é necessário destrinchar as ponderações feitas pelo próprio pré-candidato em relação a alguns temas chave nessa campanha.

O primeiro destes pontos é a questão social que está atrelada ao sentimento anti-imigrante que o magnata carrega em discursos e declarações. A proposta de construir um muro na fronteira sul dos EUA talvez seja das mais polêmicas, objetivando impedir a entrada de novos imigrantes latino-americanos e defendendo um programa para deportação de mais 11 milhões de pessoas. Tal iniciativa irá acarretar no desenvolvimento de um Estado policial e aumentar o sentimento antiamericano no mundo. Outra consequência seria uma eventual desacelaração econômica, com declínio do PIB e rendimentos.

Na esfera comercial, há entendimentos de especialistas que Trump deseja enfrentar a China em uma guerra comercial que poderia impactar não só os EUA, mas o sistema internacional como um todo, fato que poderia reativar a Crise de 2008, com aumento do desemprego e, consequentemente, gerando uma sociedade incapaz de pagar por seus empréstimos estudantis e hipotecas, por exemplo.

Nas finanças, a promessa de cortes de impostos colocaria pressão no déficit orçamentário da União, aumentando a dívida pública substancialmente. Essa medida, para os especialistas, de caráter populista, tem prazo de validade e produziria aumento da desigualdade social, com grande riqueza para poucos, classe média achatada e a pobreza apertando os programas de segurança social.

A política externa também apresenta suas particularidades. Com total falta de conhecimento nas Relações Internacionais e na história de seu próprio país, conforme vem sendo dito na mídia, Donald Trump, uma vez eleito, poderá abrir mão da aliança com sul-coreanos e japoneses na defesa da região contra a ameaça norte-coreana, caso os dois atores não paguem por essa proteção. Em relação a OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), a política é semelhante: os europeus deverão assumir a maior parte das despesas, soldados, aviões, navios e mísseis dos EUA estacionados na Europa, sem deixarem de se submeter à liderança da Casa Branca. No Oriente Médio, por sua vez, mesmo criminalizando os muçulmanos, busca manter a parceria com aliados tradicionais e reaver a cooperação de outros tempos com Israel.

Ao que tudo indica com sua nomeação até a eleição em novembro o mundo ficará apreensivo quanto ao futuro, graças aos discursos que o pré-candidato Donald Trump vem apresentando.

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Imagem (Fonte):

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Victor José Portella Checchia - Colaborador Voluntário

Bacharel em Relações Internacionais (2009) pela Faculdades de Campinas (FACAMP), Especialista em Direito Internacional pela Escola Paulista de Direito (EPD) e Especialista em Política Internacional pelo CEIRI (Centro de Estratégia, Inteligência e Relações Internacionais). Atuou em duas grandes multinacionais do setor de tecnologia e na área de Cooperação Internacional na Prefeitura Municipal de Campinas com captação de recursos externos, desenvolvimento de projetos na área econômica e comercial e buscando oportunidades de negócios para o município. Atualmente é Consultor de Novos Negócios na Avanth International em Campinas/SP. Escreve semanalmente sobre América do Norte com foco nos Estados Unidos.

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