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[:pt]Doutrina Nuclear Indiana: o posicionamento indiano sob observação[:]

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Nas últimas semanas, surgiu uma polêmica acerca da veracidade da doutrina nuclear indiana de somente retaliação, instituída pelas Forças Armadas indianas desde seu primeiro posicionamento oficial sobre a questão, em 1999. A discussão foi lançada por Vipin Narang, professor do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e especialista em estratégia nuclear do Sul Asiático, na Conferência Internacional de Política Nuclear de Carnegie, no último dia 20 de março. Para Narang, existem evidências crescentes que apontam que a Índia não vai permitir ao Paquistão usar suas armas nucleares primeiro e somente então retaliar nuclearmente. O professor utiliza como evidências as falas de três políticos indianos importantes: um ex-comandante das forças estratégicas, General BS Nagal; um ex-Ministro da Defesa, Manohar Parrikar; e um ex-Assessor de Segurança Nacional, Shivshankar Menon.

No atual cenário, as relações Índia-Paquistão permanecem estáveis, no que concerne a questão nuclear, desde que o Paquistão fez o seu primeiro teste em 1999 e conseguiu obter capacidade dissuasória em relação à Índia. Em relação às doutrinas nucleares, o Paquistão proclama utilizar seu arsenal como meio de contrabalançar sua inferioridade de meios militares tradicionais – afirmando, assim, que poderia retaliar nuclearmente um ataque convencional massivo indiano. A Índia, por outro lado, postula uma política de somente retaliação, onde se compromete a retaliar nuclearmente apenas um ataque nuclear propagado por outra potência atômica no território indiano, ou em forças indianas pelo mundo. Montou-se, assim, um cenário onde, apesar de conflitos regionalmente localizados entre os dois países terem ocorrido nas últimas décadas, não houve um escalonamento para grandes confrontações convencionais ou para o uso de armas nucleares.

Intelectuais e a mídia indiana mostraram-se prontos para criticar a fala do americano. As frases de efeito propagadas pelos políticos supracitados, como, por exemplo, que a Índia não declarará se seguirá sua doutrina nuclear defensiva, proclamada por Manohar Parrikar, são utilizadas para explicitamente trazer ambiguidade, necessária para manter o temor sobre a postura indiana, escreve para o jornal Hidustan Times, Bharat Karnad, um dos escritores da doutrina nuclear indiana. Karnad também afirma que os laços de dependência mútua, políticos, econômicos e sociais, entre os dois países impedem conflitos armados de maior escala. De fato, os posicionamentos individuais de políticos que não ocupam mais seus cargos não são suficientes para minar uma doutrina nuclear já consolidada no pensamento militar indiano.

Isso não significa, porém, que esse debate é uma simples tentativa de polemizar um assunto sobre o qual não cabe discussão. Ele reflete mudanças fundamentais nas doutrinas militares paquistanesas e indianas que estão certamente levando a maiores reflexões dos políticos indianos sobre sua doutrina nuclear. O Paquistão, por um lado, está aumentando exponencialmente seu estoque nuclear e investindo em armas nucleares táticas, que são muito mais plausíveis de serem utilizadas em um contexto de guerra convencional e trazem dificuldades à doutrina nuclear indiana, que prega a retaliação massiva a qualquer ataque nuclear. A Índia, por outro lado, confirmou sua tríade nuclear de entrega, ao colocar em funcionamento o submarino nuclear INS Arihant, de produção própria, e está avançando rapidamente em prol da construção de seu escudo de defesa de mísseis balísticos, ambas estratégias que, ao diminuírem o poder de retaliação nuclear paquistanês, promovem instabilidade à dissuasão nuclear regional.

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Imagem 1Amostra de míssil nuclear indiano em desfile das Forças Armadas” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/India_and_weapons_of_mass_destruction#/media/File:Agni-II_missile_(Republic_Day_Parade_2004).jpeg

Imagem 2 Vipin Narang na Conferência Internacional de Política Nuclear de Carnegie” (Fonte):

https://www.youtube.com/watch?time_continue=1107&v=ChdTSSRlXB8

Imagem 3Desenho conceitual do INS Airhant” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/INS_Arihant#/media/File:Arihant_1.jpg

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Livi Gerbase - Colaboradora Voluntária

Mestranda em Economia Política Internacional pela UFRJ e Bacharel em Relações Internacionais pela UFRGS. Ex-pesquisadora do Núcleo Brasileiro de Estratégia e Relações Internacionais e do Centro Brasileiro de Estudos Africanos. Atualmente é estagiária do the South-South Exchange Programme for the Research on the History of Development (SEPHIS). Se interessa por assuntos relacionados aos países em desenvolvimento e recentemente tem focado no sistema financeiro internacional.

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