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Economistas, agrônomos e outros especialistas de diferentes ramos de atuação vem estudando a possível “crise dos alimentos” que pode chegar em um futuro próximo à Coréia do Norte. As nações trabalham em seus preparativos internos e estudam os meios de cooperação para tentar impedir tal crise e garantir recursos para atender sua demanda. Juntamente com estes movimentos, emerge a pergunta: como o governo de Kim Jong-Il espera sobreviver a uma possível crise?

 

A Coréia do Norte é um país que nos últimos anos dependeu de doações de outros Estados para poder manter sua população com o mínimo de suas necessidades atendidas. Destas doações, grande parte é de origem chinesa e sul-coreana.  Outros recursos que chegam ao país resulta de barganha do governo norte-coreano com as potências globais com a finalidade de por fim ao “Programa Nuclear” de Pyongyang.

A situação do país não é simples. Sua fraca indústria e a ineficiência dos equipamentos que auxiliam na produção agrícola deixa os norte-coreanos vulneráveis a prejuízos decorrentes do clima e dos fenômenos naturais. Além de tal fragilidade, seu relacionamento com os demais países da comunidade internacional e sua forma de tratar os assuntos comerciais e diplomáticos atrapalham no comércio e na cooperação internacional.

Apenas no mês de março, algumas informações sobre a situação alimentar norte-coreana chamam a atenção e trazem preocupações ao país. Segundo Kwon Tae-Jin, investigador do “Instituto da Economia Rural da Coréia do Sul”, a colheita de cereais na Coréia do Norte neste ano poderá ser 100 mil toneladas menor que a colheita de 2010, com número estimado de 4 milhões de toneladas.  De acordo com especialistas, isto se deve à alta de preços dos alimentos no mercado internacional e ao inverno norte-coreano, que está acima da média do país. “Uma combinação de fatores vai conduzir a uma deterioração da situação alimentar na Coreia do Norte”, disse Kwon, citado pela agência sul-coreana Yonhap.

Atualmente, a ajuda enviada para a Coréia do Norte vem sendo reduzida. A ONU diminuiu seu envio devido ao “Programa Nuclear” em curso; a Coréia do Sul, que, até o ano de 2008,  enviava cerca de 400 mil toneladas de arroz, de 2009 até hoje reduziu a ajuda ao norte a poucas toneladas, geralmente em momentos de extrema necessidade. É de domínio público que as tensões entre as duas Coréias após o naufrágio do Cheonan e o bombardeio da ilha sul-coreana pelos coreanos do norte contribuíram para o corte da ajuda de Seul.

Os alertas sobre os danos de uma crise alimentar no lado norte da península coreana também estiveram disponíveis nas informações divulgadas pela “Organização das Nações Unidas” (ONU), que anunciou o número de pessoas com real necessidade de ajuda alimentar.

Em nota publicada no “Site do CEIRI”, “Coréia do Norte está altamente vulnerável a uma crise alimentar” (Daniela Alves, em 29 de março de 2011), citando o relatório da ONU, foi informado o número aproximado de 6 milhões de cidadãos norte-coreanos dependentes de ajuda para atender suas necessidades alimentares. O relatório também apresentou um panorama sobre o número de pessoas que morreram de fome na década de 1990, quantidade que foi estimada em 1 milhão de pessoas.

As informações sobre a real situação alimentar norte-coreana nem sempre tem um número exato devido às dificuldades em se obtê-las. Da mesma forma, os investigações sul-coreanas e os relatórios divulgados pelas Nações Unidas são trabalhados apenas com margens e análises estatísticas, apresentando as mesmas limitações de fontes.

A principal rede de notícias norte-coreana, a “Agência Telegráfica Central da Coréia” (KNCA), divulga informações “positivas” quanto a sua produção de alimentos, sem apresentar detalhes sobre a gravidade do tema para o país.

Apesar disso, o Governo norte-coreano não consegue evitar a necessidade de expor alguns fatores internos para outras nações com objetivo de obter ajuda e negociar o fornecimento de mantimentos. Por causa da gestão ineficaz dos alimentos e do questionamento de outros países sobre os altos orçamentos com gastos militares, o Governo retomou os pedidos de ajuda internacional e pôs novamente em discussão o seu “Programa Nuclear”, interrompendo o enriquecimento de urânio e passando a recorrer aos países africanos, a China e ao Brasil para obter alimentos.

Acompanhando as possíveis transições de poder em Pyongyang, a China mantém forte seu relacionamento com o vizinho, mantendo-se neutra em vários assuntos para não afetar suas relações com Seul. A preservação dos laços com o governo Kim Jong-Il é importante, pois os chineses ainda são a principal fonte “Econômica” norte-coreana, já que deste parceiro vem parte da energia para manter suas poucas indústrias em funcionamento e também boa parte dos alimentos, seja por doação, seja por transações comerciais.

Além da China, o jornal sul-coreano “JoonAng Ilbo” publicou uma matéria sobre o vizinho buscar ajuda no continente africano. “Pedem alimentos a países da África que estão entre os mais pobres do mundo, como o Zimbábue”, declarou uma fonte diplomática sul-coreana ao jornal.

Pyongyang solicita recursos a diversos países mencionando que a situação no país está “catastrófica” e de “extrema urgência” para receber ajuda alimentar, mas as representações diplomáticas que visitam a Coréia do Norte chegam a conclusões diferentes dos dirigentes comunistas.

Uma fonte anônima do jornal sul-coreano afirma que “Os países ocidentais começam a questionar se o Norte não solicita alimentos por simples razões de política interna, mais que por verdadeira necessidade de alimentar a população”.

Em busca de alimentos, Pyongyang passou a buscar maiores relações com o Brasil. A posição neutra do governo brasileiro em algumas questões que envolvem os atritos do governo norte-coreano com as potências ocidentais e países vizinhos pode lhe ser favorável. No ano passado (2010), representantes do seu governo estiveram no Brasil para tratar de assuntos de interesse nacional.

Uma das últimas ações do até então presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva com o país asiático foi a assinatura de um Decreto autorizando o envio de toneladas de alimentos, como uma “ajuda humanitária” para a “República Democrática Popular  da Coréia” (RPD), uma ação “importante” para o governo comunista, que espera utilizar de suas relações sem conflitos com o Brasília para poder se prover de benefícios em um momento emergencial.

Também em 2010, uma delegação norte-coreana, liderada pelo embaixador Ri Hwa Gun, junto do terceiro secretário da Coréia do Norte, Ma Gyong Ho e da subdiretora do “Comitê de Relações Culturais com o Exterior”, Kim Myong Suk, estiveram presentes na “Associação dos Municípios do Oeste de Santa Catarina” (AMOSC) para acompanhar e observar o sistema administrativo descentralizado das 36 secretarias do “Estado de Santa Catarina”, o sistema de gestão e preparar a criação de um “Centro de Amizade entre Brasil e Coréia do Norte” em uma sala do “Mercado Público Regional”. Isto será negociado neste ano.

No dia 11 de março, representantes brasileiros e norte-coreanos celebraram os 10 anos de laços diplomáticos, através do acordo de cooperação comercial entre Brasil e Coréia do Norte. O embaixador Ri Hwa e o ministro Francisco Mauro Brasil de Holanda, do Itamaraty, estiveram presentes para a celebração e avaliação dos anos de relações diplomáticas estabelecidas.

Durante este período, os avanços não chegam a ser comparados aos das relações Brasil-China e Brasil-Coréia do Sul, mas resultaram em 2009 na inauguração da “Embaixada do Brasil em Pyongyang” e no “Acordo de Cooperação Econômica e Técnica” entre os dois governos. Além destes, os temas mais abordados foram no campo dos esportes, cultura e do transporte marítimo.

Aproveitando deste ano em especial, os representantes norte-coreanos estão com metas de aprofundar os Acordos focados nos esportes, na “Cooperação na Agricultura” e em realizar a construção do “Centro de amizade Brasil-RPD”.  A meta chama a atenção no campo da agricultura devido as atuais necessidades do país asiático. Sendo assim, espera-se o aumento das visitas ao Brasil para trabalhar com novas experiências no cultivo de soja e nas técnicas brasileiras de uso na agricultura e pecuária.

Em 2010, a Embrapa auxiliou profissionais agrícolas coreanos nestes campos como resultado da Missão da delegação brasileira chefiada pela conselheira Cynthia Bugané, que esteve responsável por aprofundar a Cooperação nesta área.

Para analistas, agora é necessário dar atenção especial à transição do Governo na Coréia do Norte, pois o sucesso de Kim Jong-Un, o filho herdeiro de Kim Jong-Il, na execução de um plano de recuperação econômica norte-coreana poderá abrir mais espaço para o diálogo com as potências ocidentais e ajudar a sobreviver à possível crise alimentar. Acrescente-se que suas ações podem levar ao crescimento de relações com o exterior.

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Fabricio Bomjardim - Analista CEIRI - MTB: 0067912SP

Bacharel em Relações Internacionais (2009) e técnico em Negociações Internacionais (2007) pela Universidade Anhembi Morumbi (UAM). Atua na área de Política Econômica com foco nos países do sudeste e leste asiático, sendo referência em questões relacionadas a China. Atualmente é membro da Júnior Chamber International Brasil-China, promovendo as relações sócio-culturais sino-brasileiras em São Paulo e Articulista da Revista da Câmara de Comércio BRICS. Também atuou como Consultor de Câmbio no Grupo Confidence.

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