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BRASIL E CHINA SÃO FOCOS DOS INVESTIDORES (PARTE 2): AS DIFERENÇAS ENTRE AMBOS – ASPECTOS QUE MOSTRAM A DESVANTAGEM BRASILEIRA*

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Embora os dois “gigantes emergentes” estejam sob os olhos dos investidores, ainda existe grande diferença entre eles, claramente expressadas nas percepções destes profissionais, bem como de analistas econômicos e observadores internacionais.

Para Masataka Fujita, “Chefe de Análise de Tendências de Investimentos” da Unctad, “não é justo comparar nenhum país com a China, por sua economia e população gigantesca (…). Se olhamos os números per capita, vemos que os investimentos no Brasil são grandes e que o país ganha competitividade”.

 

Sua visão tem fundamentos, principalmente no tocante à dimensão chinesa, pois a China, nos últimos cinco anos, apresentou taxas anuais de 11% no crescimento do “Produto Interno Bruto” (PIB) e trabalha para garantir significativo crescimento no “PIB per capita”. Sua afirmação foi confirmada pelo pronunciamento do presidente chinês, Hu Jintao, enviada ao “Wall Street Journal”.

O presidente Hu apontou a média do crescimento de 11% do PIB chinês e também que o “PIB per capita” alcançou U$ 4.000,00. Segundo economistas, o PIB chinês cresceu no quarto trimestre de 2010 a média de 9,2% em relação ao ano de 2009. Um grande avanço do crescimento que fechou o ano de 2010 com 10,1% contra 9,2%, apresentado no ano da crise (2009).

A inflação chinesa ficou próxima de 4,7% em dezembro de 2010, comparada com o mesmo mês de 2009, mas foi menor que a do mês anterior, quando foi registrada uma alta de 5,1%. A estabilização, segundo os economistas se deu por conta dos preços dos alimentos, que contiveram a inflação do país.

Ainda para o Presidente, a China apresentou “importante progresso na reestruturação econômica” ao longo dos últimos cinco anos, devido ao desenvolvimento equilibrado de diversas regiões. “Estima-se que a renda per capita de residentes de áreas urbanas e rurais tenha crescido a uma taxa média anual superior a 9,3% e 8,0%, respectivamente, nos últimos cinco anos”, detalhou.

Os dados chineses impressionam e aumentam a confiança dos investidores, que tem certeza da rentabilidade de seus investimentos graças as altas taxas apresentadas. O Brasil está entre os dez grandes países líderes nos destinos de investimentos, mas ainda não consegue acompanhar e/ou apresentar dados significativos para competir com a China. Consegue competir apenas com a Índia, que antes da entrada brasileira no cenário mundial, ocupava a décima posição do ranking.

O que preocupa brasileiros e chineses é a previsível pressão inflacionária a ser enfrentada pelos integrantes dos BRICS. Devido a atual situação da economia internacional, a guerra cambial vem interferindo diretamente nas economias, alterando a balança “Importação X Exportação” e gerando oscilações nos valores de muitos produtos.

Burns alerta quanto ao “ônus da pobreza” neste caso, declarando que “Aumentos de dois dígitos nos preços de alimentos básicos nos últimos meses estão exercendo pressão em alguns países, especialmente em parcelas da população que já sofrem um pesado ônus de pobreza e desnutrição (…) E se os preços globais dos alimentos aumentarem ainda mais, juntamente com o preço de outros produtos essenciais, não se poderá excluir uma repetição das condições verificadas em 2008”.

Acrescenta que isso corre por que “a desvalorização do dólar, a melhoria das condições econômicas locais e o aumento dos preços de bens e serviços significam que o preço real dos alimentos não aumentou na mesma proporção que a cotação do dólar para produtos alimentícios básicos, comercializados internacionalmente”.

Como o câmbio é um importante fator que influência no crescimento das exportações e importações de um país, o Brasil realizou em janeiro deste ano (2011) uma série ações para conter a queda da moeda norte-americana em relação ao Real brasileiro e a China “discute e defende” o Yuan (moeda chinesa) desvalorizado em uma “guerra cambial” quase declarada com Washington, sendo esta uma das razões que levaram os dois Presidentes a fazer reuniões nos EUA, nesta semana.

A decisão destes países em atuar ou não no controle cambial, também influi na questão dos investimentos estrangeiros. Este fato foi comprovado quando o “Banco Central” brasileiro apenas especulou sobre aumento dos “depósitos compulsórios” e sobre o aumento da IOF. O mesmo ocorreu quando da mensagem do Governo chinês, de que iria estudar uma revisão do valor de sua moeda e adotar uma medida compulsória. Isto fez com que as “Bolsas de Valores” dos dois países operassem em baixa na primeira semana de janeiro deste ano (2011), tendo estas ações gerado efeitos que se espalharam para outras “Bolsas” pelo mundo.

Este equilíbrio econômico registrado pelas duas economias tem se expressado concretamente nos estudos de avaliação de “Risco Econômico” de ambos os países, sendo este um fator importante para gerar credibilidade no investidor, contribuindo para o crescimento dos investimentos, mesmo com desconfianças de que haverá inflação. A “Fitch”, atualizou o “rating” dos países e rebaixou os europeus, que estão em crise. Além disso, a Instituição está próximo de reavaliar o “rating AAA” dos Estados Unidos.

Esta revisão apenas comprova que a importância econômica internacional se desloca cada vez mais para o Oriente, tornando as nações asiáticas, acrescidas de alguns poucos países emergentes não asiáticos, como prioridade dos investidores.

Estes dados econômicos estão sendo motivos de questionamentos entre economistas e empreendedores brasileiros, pois está ficando mais claro que, apesar do sucesso momentâneo, o Brasil não consegue acompanhar a China e o país está totalmente atrasado frente às possíveis e prováveis “potências econômicas” do futuro próximo. Também está transparecendo que o motivo desta distância está na diversificação que existe quando se comparam as economias brasileira e chinesa.

Enquanto o Brasil apenas foca suas exportações em commodities, alimentos, energia e outros produtos básicos, os chineses investem cada vez mais na inovação tecnológica e na especialização de bens industrializados para o mercado mundial.

A China, atualmente, é um dos países mais industrializados do mundo, já superando o Japão e ficando atrás dos Estados Unidos. O gigante asiático está diversificando suas exportações, indo dos produtos agrícolas aos automóveis e produtos tecnológicos. Já o Brasil não tem este tipo de diversificação e a indústria brasileira, apesar de significativa, ainda não tem porte ou um desenvolvimento tecnológico competitivo.

Segundo uma pesquisa publicada pelo “Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada” (Ipea), o Brasil está longe de produzir tecnologias, ficando cada vez mais distante da China. De acordo com os dados apresentados, o país investe apenas 0,1% do PIB em pesquisa e tecnologia, contra 0,65% dos EUA, 0,31% da Europa e a significativa média chinesa de 2%, que pretende ampliá-la para 15%, até 2020.

Enquanto o Brasil recebe mais investimento estrangeiro do que investe no exterior, a China, além de captar “Investimento Externo Direto” (IED), também contribui para que seus empresários privados e empresas do Estado invistam no exterior.

Com isso, o país se projeta para ser uma potência econômica forte e consolidada, enquanto o pensamento brasileiro permanece no setor agropecuário, sem incentivar de forma devida a sua indústria e a pesquisa tecnológica.

Ainda com base nos dados do Ipea, a média de faturamento das empresas líderes de mercado mundial é de R$ 2 bilhões, ao ano, enquanto as empresas brasileiras faturam apenas R$ 20 milhões. Novamente, isto se dá pela falta de investimento na produção de tecnologias.

Se a gente não começar a produzir, não vai produzir nunca”, afirma Fernanda De Negri, a pesquisadora do IPEA, mostrando um reconhecimento de que a indústria brasileira ainda carece de ser protegida por estar em desvantagem em relação às grandes multinacionais. A atual “Presidente do Brasil”, Dilma Rousseff, pretende aumentar o incentivo na pesquisa e desenvolvimento tecnológico, o que anima alguns investidores internos e externos.

Todos os analistas afirmam que o Brasil não pode ficar atrasado neste aspecto se quiser ter uma economia moderna. “Esse setor é chave não só pela inovação, mas também porque tem um impacto profundo sobre a competitividade”, complementou De Negri.

Para economistas e especialista em desenvolvimento, mesmo com um incentivo adequado e “justo” em todos os setores da economia brasileira, o país poderá alcançar a atual posição da China apenas em longo prazo. Neste cenário, a China possivelmente estará ocupando uma posição semelhante a dos Estados Unidos de hoje, podendo ser este um percurso mais demorado do que se supõe, provavelmente, acima de 50 anos.

Eles acreditam no aumento da importância dos dois países para o desenvolvimento da economia internacional, mas, quanto ao Brasil, a dimensão e continuidade desta importância vai depender ainda das prioridades que eleger para poder se adaptar à competição nos mercados internacionais e vencer.

Todos confluem para a opinião de que será necessário seguir o exemplo de seu atual “grande parceiro” comercial, ou seja: (1) investir mais em outros mercados, atitude que tem adotado, mas não pode ser apenas isto. (2) É preciso diversificar os bens e produtos para exportação, com padrões internacionais e, (3) principalmente, investir expressivamente em ciência e tecnologia.

Estes especialistas concordam que a economia brasileira deve iniciar rapidamente seu processo de desenvolvimento tecnológico e de bens industrializados, para aproveitar dos recursos que tem em abundância. Além disso, deve utilizar mais da “criatividade e do empreendedorismo” de seus empresários, pois somente com estas medidas poderá ganhar espaço significativos no mercado internacional.

Se não o fizer, a tendência é ver seu desenvolvimento freado e, paulatinamente, ser excluído do grupo dos coordenadores da política e da economia internacional, desperdiçando uma das grandes oportunidades de sua história.

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* Dentre as fontes abertas usadas para fazer esta análise (Parte 1 e Parte 2), pesquisou-se o “Wall Street Journal”, “Financial Times”, “Valor Econômico”, “Estadão”, “BBC Brasil” e “Portal Terra”, além de “Organismos Internacionais” e “Institutos”, como “Unctad” e o “IPEA”.

 

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Fabricio Bomjardim - Analista CEIRI - MTB: 0067912SP

Bacharel em Relações Internacionais (2009) e técnico em Negociações Internacionais (2007) pela Universidade Anhembi Morumbi (UAM). Atua na área de Política Econômica com foco nos países do sudeste e leste asiático, sendo referência em questões relacionadas a China. Atualmente é membro da Júnior Chamber International Brasil-China, promovendo as relações sócio-culturais sino-brasileiras em São Paulo e Articulista da Revista da Câmara de Comércio BRICS. Também atuou como Consultor de Câmbio no Grupo Confidence.

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