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DEBATE COMERCIAL ENTRE BRASIL E CHINA: UMA DISCUSSÃO SEM COMPARAÇÕES (PARTE – 1)

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A China tem trazido incômodos ao mercado internacional e vem recebendo críticas variadas dos demais atores. Os Estados Unidos direcionam seus argumentos para a questão do câmbio; outros países questionam a mão de obra-barata, as vezes referida por “mão de obra escrava”, como sendo formas indiretas de criar barreiras contra concorrentes aos produtos chineses.

 

O Brasil é um dos Estados que questionam a participação e a comercialização dos produtos vindos da China no seu mercado interno, trazendo desentendimento entre empresários e governos de ambos os lados e gerando dúvidas sobre como posicionar-se perante o tema, ou seja, sobre como os brasileiros devem responder à forte concorrência do seu maior parceiro comercial na atualidade.

Para entender o problema é necessária uma reflexão sobre as diferenças estruturais e de investimentos nos dois países, considerando suas Logísticas, seus sistema mercadológicos e econômicos, a forma como os governos atuam nos respectivos mercados internos e observar aspectos do setor empresarial.

Durante um encontro promovido pela “Câmara Brasil-China de Desenvolvimento Econômico” (CBCDE), realizado na última semana, o “Cônsul da China” em São Paulo, Sun Rongmao, declarou que o país deveria aprender com os chineses em alguns pontos e não apenas criticar a concorrência. Para Sun, o Brasil deve dar mais incentivos às empresas brasileiras, assim como Beijing fez com as suas. Afirmou: “Em vez de tomar medidas muito restritivas contra os chineses, poderia fazer alguns controles, como a China fez para o seu desenvolvimento”.

Este comentário é apenas uma demonstração do que se passa na China, onde o Governo atua aplicando uma série de incentivos para que sua economia cresça de forma saudável e forte. Segundo o Cônsul, lá, exige-se que as empresas estrangeiras localizadas no território exportem pelo menos 30% de sua produção. Esta medida ajuda na proteção das empresas de seu país, sendo uma iniciativa que poderia ser aplicada no Brasil.

Desde 1978, o país asiático, na época governado por Deng Xiaoping, lançou o “plano de abertura econômica”, iniciado nas cidades costeiras, pois teriam menores dificuldades logísticas para a exportação de seus produtos. Como mostrou Tang Wei, diretor-geral da CBCDE,A primeira foi em Shenzhen, no sul do país. Como a experiência deu certo, o governo replicou o modelo em várias outras regiões do País“,.

Podemos analisar dois panoramas diferentes entre Brasil e China: primeiro, na relação entre o governo e o empresariado e, segundo, na questão logística. Em ambos os casos, no entanto, ressalta-se a existência de um gigantesco planejamento corretamente aplicado por parte da China, algo que não se percebe no Brasil.

Significativamente, desde bem antes da abertura comercial brasileira, sob governo de Fernando Collor de Melo, na década de 1990, o Brasil não teve um processo adequado de incentivos à sua indústria nacional, quando comparado a quaisquer outros países com semelhantes dimensões.

Analistas convergem para a opinião de que, ao longo dos últimos 25 anos, considerando o panorama histórico, dentre os principais fatores que podem ser elencados, os erros de planejamento, associados aos casos de corrupção e às privatizações mal planejadas em determinados setores podem ter sido os responsáveis pela atual situação de defasagem do Brasil, apesar do momento de crescimento que ele vive.

Faltou para o país um planejamento eficaz para uma projeção de longo prazo, comportamento diferente do apresentado pela China, que adotou muitas medidas por seguidos governos para contemplar o curto, o médio e, principalmente, o longo prazo. O Brasil, ao contrário, se manteve pensando em curto e, algumas vezes, em médio prazo, sem uma visão empreendedora do próprio país.

Comparando os dois países, da década de 1980 até a atualidade, ambos passaram por situações semelhantes em suas economias, com dificuldades no controle inflacionário, nos investimentos internos, nas exportações etc. É interessante destacar que, já sob o “Período de  64 a 85”, a opção brasileira foi tentar abrir novos mercados, incluindo a China, mesmo naquele contexto de “Guerra Fria”, pois se buscava novos parceiros comerciais, sendo indiferente o posicionamento ideológico deles, podendo estar no Bloco capitalista, ou no antigo Bloco comunista, já que o objetivo era tentar diminuir a dependência em relação às Grandes Potências ocidentais.

Visando à estabilidade, ou buscando que ela se concretizasse ao menos em alguns setores, o governo chinês também já no mesmo momento fez apostas nos planos de longo prazo, com “Planos Qüinqüenais”, investindo pesado em educação, pesquisa, infra-estrutura e na abertura econômica de algumas cidades portuárias. Para conseguir manter baixas as taxas de desemprego, aceitou a mão de obra barata como instrumento, uma vez que esta opção sempre foi atrativa para as grandes multinacionais que fizeram seus investimentos em solo chinês.

Nestes últimos trinta anos, enquanto o Brasil procurou atrair empresas para o consumo local e buscou aumentar suas exportações de commodities, a China investiu em sua infra-estrutura de transportes, visando o escoamento de produtos em direção ao mercado mundial, abriu parte do mercado interno para as empresas multinacionais e focou seus recursos em setores de base, o que, em curto prazo, não lhes trouxe muitos benefícios, mas resultou na China de hoje: a segunda maior economia do mundo.

Considerando apenas a “relação governo-empresariado” e usando como exemplo estes dez primeiros anos do século XXI, percebe-se o movimento do planejamento estratégico da China, com um novo posicionamento do seu Governo. Já que há uma infra-estrutura favorável para o desenvolvimento das empresas de base, o país iniciou uma série de incentivos para que o empresariado nativo expandisse os investimentos no exterior, tanto as empresas privadas, como as estatais, comportamento não percebido na economia brasileira durante o mesmo período. Ou seja, existe não apenas o componente do planejamento, como também há a adaptação deste à conjuntura, algo que reflete positivamente em todos os setores.

No caso brasileiro, o setor empresarial tem sido foco de grandes críticas no mundo por não ser “ousado” em investir no exterior. Para alguns analistas estrangeiros, principalmente chineses e japoneses, o empresariado do Brasil tem “medo” de investir externamente. Associado a isto e talvez explicando este perfil, ele não recebe incentivos de seu próprio governo, além de ter de se submeter a uma grande burocracia, constituindo este conjunto de fatores uma das grandes barreiras para o país deixar de ser dependente do “Investimento Externo Direto” (IED) e da exportação de commodities, para se tornar um país que faz IED e participa do desenvolvimento de outras nações, por meio de investimentos e exportação de bens industriais.

Como pode ser visto, a primeiras diferença que emerge comparativamente entre os dois países é o fato de ter existido um planejamento estratégico no caso chinês, que escolheu setores, fez apostas conscientes e insistiu na projeção de um país futuro, não ocorrendo no caso brasileiro que apresenta características imediatistas e reativas, ao invés de estratégicas e proativas, como será visto mais adiante.

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Fabricio Bomjardim - Analista CEIRI - MTB: 0067912SP

Bacharel em Relações Internacionais (2009) e técnico em Negociações Internacionais (2007) pela Universidade Anhembi Morumbi (UAM). Atua na área de Política Econômica com foco nos países do sudeste e leste asiático, sendo referência em questões relacionadas a China. Atualmente é membro da Júnior Chamber International Brasil-China, promovendo as relações sócio-culturais sino-brasileiras em São Paulo e Articulista da Revista da Câmara de Comércio BRICS. Também atuou como Consultor de Câmbio no Grupo Confidence.

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