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DEBATE COMERCIAL ENTRE BRASIL E CHINA: UMA DISCUSSÃO SEM COMPARAÇÕES (PARTE – 2)

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No dia 19 de abril do ano passado (2010), foi publicada no “Site do CEIRI” uma “Análise de Conjuntura”, com o título “Burocracia é uma das principais barreiras para o investimento japonês no Brasil”, apresentando uma das reclamações dos investidores no Brasil. Além dos japoneses, investidores asiáticos de grande pólos tecnológicos, como a Coréia do Sul e Taiwan, também reclamam da falta de interesse dos brasileiros em investir nos seus países, no que resulta em relações comerciais baseadas em exportação brasileiras de commodities e alimentos, acompanhada da solicitação de que façam investimentos no Brasil, algo que tem ocorrido até certo ponto.

 

Em quaisquer discussões comerciais entre o Brasil e outros países sempre é pensada uma pergunta: o Brasil (ou seja, suas empresas) tem produtos ou capacidade de disputar espaço com as grandes empresas internacionais no exterior ou mesmo no próprio país? A conclusão a que os analistas chegam é de que, desconsiderando o campo agrícola e de alimentos, o país não tem a capacidade de competir contra empresas de tecnologia ou de bens industrializados vindos do exterior.

No ano passado (2010), Hiroyuki Ishige, “Vice-Ministro para Relações Internacionais” do “Ministério da Economia, Comércio e Indústria do Japão”, afirmou que “o Brasil é uma das economias mais significativas do mundo. Porém, a nossa impressão é que algumas instituições continuam na época em que o Brasil não tinha essa projeção”.

Neste mesmo ano, durante alguns eventos de empresas taiwanesas promovidos pela “Taiwan Trade Center”, de São Paulo, muitos empreendedores buscaram informações sobre como fazer investimentos brasileiros na Ilha (Taiwan / Formosa), pois seria benéfico para ambos, uma vez que este país possui empresas líderes no campo tecnológico, fator importante para alguma empresa brasileira que esteja interessada em iniciar seu próprio projeto, bem como interessada em criar  uma marca brasileira forte no setor.

Observadores têm destacado que, apesar do pleno conhecimento dessas críticas externas, internamente, o Brasil ainda mantém suas brigas intestinas dentro de um modelo voltado para a exportação de matérias-primas. As disputas entre exportadores agrícolas e empresários de setores da indústria têm contribuído apenas para “atrasos” no desenvolvimento do país. Alguns estrangeiros dizem que se a energia utilizada nestas contendas fossem direcionadas para cobranças feitas ao Estado acerca de alguns pontos, ambos setores poderiam evoluir.

Pode-se considerar que uma das principais causas das perdas que sofrem as empresas brasileiras para empresas estrangeiras nos mercados interno e externo é a falta de infra-estrutura para o transporte de seus produtos. O custo logístico é um dos principais fatores na definição dos preços e no aumento, ou diminuição das exportações.

Para Tang Wei, diretor-geral da “Câmara Brasil-China de Desenvolvimento Econômico” (CBCDE), na questão da disputa entre produtos brasileiros, versus os produtos chineses, “os brasileiros falam que o problema é a China, que produz com mão de obra escrava e, assim, consegue ter produtos baratos. Mas isso não é verdade. Não há mão de obra escrava na China e, ainda que houvesse, esse é um custo proporcionalmente baixo dentro de todo o processo produtivo”.

Deve-se destacar que os produtos “chaves” de exportação chinesa são fabricados em cidades portuárias, com maior facilidade logística, sendo isto um importante fator para fazer com que o valor final ou o valor de mercado destes produtos sejam mais baratos que produtos fabricados no Brasil, por exemplo.

Embora o Brasil e a China sejam países de grandes proporções territoriais, o tempo que um produto fabricado no norte, centro-oeste e em outras regiões brasileiras leva para chegar aos portos contribui para os atrasos e para o aumento dos custos de fretes, refletindo imediatamente no crescimento dos preços. O planejamento chinês foi direcionado para enfrentar este problema.

Além das distâncias, diferentemente de outros países, o Brasil tem como principal meio de escoamento de produtos as rodovias, chegando a durar mais de uma semana para um produto chegar aos portos, acrescentando-se a isto as perdas ocorridas durante o trajeto, quando grande parte destes produtos podem ser eliminados devido aos acidentes e outros fatores imprevisíveis, além dos valores dos seguros, causados pelo grande risco de roubo de carga .

Quanto a este ponto da malha viária, existe o custo para investimento em outros meios, como as hidrovias e ferrovias, algo que, em curto prazo, pode ser difícil para os cofres públicos brasileiros, mas, em longo prazo, se mostra como essencial.

Cada vez mais os analistas concordam que, assim como a China investiu no passado e hoje está colhendo os frutos de seu investimento, o Brasil também deve investir em infra-estrutura logística para poder aumentar adequadamente suas exportações, podendo disputar mais mercados no exterior.

O investimento logístico, embora caro, desperta o interesse de investidores estrangeiros, dentre eles, da própria China, além de vários outros países importantes, como a Coréia do Sul que desejam destinar recursos para participar de parcerias na malha ferroviária brasileira.

Desde 2008, já existe o interesse dos chineses neste setor, mas, por motivos internos e não oficiais, os interessados não estão trabalhando em tais projetos, embora suas empresas, bem como as coreanas já atuem em linhas urbanas de trens e metrôs de algumas capitais brasileiras. No caso  da “Linha 4 do metrô de São Paulo”, há participação de empresa sul-coreana; no metrô da cidade do Rio de Janeiro, por sua vez, há participação de empresa chinesa.

Com os preparativos para a “Copa do Mundo de Futebol”, em 2014, e para os “Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro”, em 2016, que serão realizados no Brasil, parece que a prioridade brasileira é investir nas cidades que serão sedes destas competições e tais investimentos não estão sendo pensados de forma estratégica para criar uma infra-estrutura logística que permita o escoamento da produção brasileira em nível nacional. Contrariamente ao que está sendo divulgado, isto está dificultando a entrada de investidores interessados na área.

Na semana passada, a “Confederação Nacional da Indústria” (CNI) divulgou um estudo sobre o impacto dos produtos chineses para as empresas brasileiras. O estudo afirma que a entrada dos produtos da China no mercado do Brasil prejudica as empresas nacionais, sem chances de competição, mas isso ocorre devido aos seus valores agregados.

Exatamente por isso, tendo em vista às dificuldades logísticas do Brasil e as facilidades chinesa e de outros países, Tang Wei, o já referido diretor-geral da CBCDE, defende a tese de que não deve haver qualquer proteção brasileira em relação aos produtos chineses, pois são transparentes as razões das diferenças, os erros brasileiros e os prejuízos que virão se forem adotadas restrições e medidas que em nada contribuirão para a atração  de investidores.

Acrescentou ainda, reforçando com exemplos empíricos a sua tese sobre os acertos chineses e os erros brasileiros: “Em muitas províncias foram construídas zonas econômicas que concentram produtores e fornecedores, o que acaba barateando custos logísticos, por exemplo. (…). Não é apenas na China que muitos produtos são mais baratos do que aqui. Nos Estados Unidos e na Europa também”.

Para os analistas, observando as facilidades e dificuldades de cada país, fica cada vez mais claro que os produtos brasileiros são incapazes de disputar espaços no mercado externo, levando alguns ainda a defender a proteção dos produtos nacionais no mercado brasileiro, com o receio das perdas que há para as empresas estrangeiras.

Porém, a maioria afirma que as medidas devem ser de incentivos e investimentos adequados, ao invés de barrar o fluxo normal e correto de trocas comercias entre os países. No caso brasileiro-chinês, por exemplo, os chineses têm destacado que “Brasil e a China são complementares”, como afirmou o “Cônsul da China em São Paulo”, Sun Rongmao.

Para estes observadores, a criação de facilidades para a produção e escoamento do produto brasileiro pode aumentar ainda mais a balança comercial do Brasil em relação aos seus parceiros, principalmente em relação à China, que, na atualidade, é o maior parceiro comercial do Brasil.

Na opinião deles, esta seria a política correta e vitoriosa, que certamente resultaria no grande e sustentável desenvolvimento do país, ao invés de apenas um crescimento dependente de fatores externos.

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Fabricio Bomjardim - Analista CEIRI - MTB: 0067912SP

Bacharel em Relações Internacionais (2009) e técnico em Negociações Internacionais (2007) pela Universidade Anhembi Morumbi (UAM). Atua na área de Política Econômica com foco nos países do sudeste e leste asiático, sendo referência em questões relacionadas a China. Atualmente é membro da Júnior Chamber International Brasil-China, promovendo as relações sócio-culturais sino-brasileiras em São Paulo e Articulista da Revista da Câmara de Comércio BRICS. Também atuou como Consultor de Câmbio no Grupo Confidence.

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