LOADING

Type to search

REPENSANDO A EUROPA: DESAFIOS DEMOGRÁFICOS E O FUTURO DA ECONOMIA

Share

Atualmente, a Europa enfrenta um retrocesso, não apenas econômico, mas também demográfico, estando forçada a repensar urgentemente o seu futuro.

Nas últimas décadas, a população européia tem perdido peso em relação à população do mundo: se, em meados do século XX, representava 21% do total, atualmente, não chega a 11%. A maioria das projeções sugere não apenas a continuação desta tendência, mas o envelhecimento progressivo da Europa, ou seja, o retrocesso do peso relativo dos jovens em relação aos grupos etários de mais idade.

 

Embora o envelhecimento seja apresentado como um fenômeno global, sua intensidade varia entre as regiões do mundo e a Europa se destaca como sendo, juntamente com o Japão, a mais afetada. A Organização das Nações Unidas (ONU) prevê que a idade média na União Européia (UE) deverá aumentar para 45 anos, até 2025, comparando-se com os 37 anos previstos para o BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China) e os 39 para os Estados Unidos.

imagem1

 

A estrutura atual de idade da população européia é o reflexo de sua história demográfica recente e, em particular, de mudanças substanciais nos seus padrões de crescimento natural e migratório. O avanço socioeconômico comportou melhoras na qualidade de vida e saúde, as quais se traduziram em um progressivo aumento da longevidade e da esperança de vida (oito anos, no último meio século).

Por outro lado, devido, em parte, aos adiantamentos no controle da reprodução, a taxa de fecundidade (corresponde à média de filhos por mulher na idade de reprodução) diminuiu notavelmente depois do “baby boom” dos anos sessenta até o ponto de, hoje, não superar o limite que assegura a “substituição geracional” (2,1 crianças por mulher), em nenhum país da UE (a média é de 1,5).

Oferecendo um contraponto, os fluxos líquidos de imigração aumentaram na última década, passando de 500.000 pessoas em 1998, para 2 milhões em 2003. Apesar disso, os fluxos migratórios só compensaram em parte o retrocesso do crescimento natural e, recentemente, tenderam a estabilizar-se.

Caso não ocorram mudanças drásticas em ditos patrões de crescimento demográfico, está previsto que o envelhecimento avance, acarretando novos desafios econômicos para os Estados europeus.

Possivelmente, a maior pressão será sobre o “estado de bem-estar”, à medida que aumente o “rácio de dependência” (população com idade maior de 65 anos, em percentagem da população com idades compreendidas entre os 15 e os 64 anos).

No caso da UE, alguns prognósticos situam que o “rácio de dependência” chegará a 50% na metade deste século. Por outro lado, é de se esperar que a continuidade da tendência demográfica na Europa, se não for mitigada, proporcionará uma retração do peso econômico da UE no mundo.

Nas últimas décadas, o peso do Produto Interno Bruto (PIB) da UE sobre o total mundial já experimentou retrocesso, passando a representar, em paridade de poder de compra, de 27% do PIB mundial, no ano 1990, para 22%, em 2008.

Analistas apontam uma redução deste indicador nos próximos anos, em parte devido ao processo de envelhecimento. Acredita-se que as economias mais avançadas no seu processo de envelhecimento tenderão a crescer menos.

Ainda que a tendência ao envelhecimento pareça difícil de reverter, foi debatida amplamente a possibilidade de mitigar o impacto econômico deste “avanço”, mediante o uso de políticas adequadas, incluindo estímulos à natalidade, à incorporação da mulher ao mercado de trabalho (chamadas políticas de gênero), atraso da idade de aposentadoria, ou políticas migratórias que promovam a entrada de imigrantes em idade trabalhista, para re-equilibrar a pirâmide populacional.

Enquanto uma maior taxa de natalidade alargaria diretamente a base da pirâmide, uma maior participação trabalhista da mulher ou um atraso da idade de aposentadoria aliviaria o decréscimo na população ativa. Além disso, uma pirâmide de população mais equilibrada favoreceria o crescimento e a melhora do “estado de bem-estar”.

Em qualquer caso, a evidência empírica não tem corroborado de forma contundente a eficácia destes tipos de políticas e tudo aponta que, sem mudanças nos padrões de crescimento natural, seu impacto acabará sucumbindo ao progresso do envelhecimento. Ainda assim, ditas políticas podem favorecer temporariamente o crescimento econômico e oferecer uma oportunidade para implementar reformas de caráter estrutural que comportem um aumento da taxa de fecundidade, ou avanços na produtividade, melhorando as perspectivas de crescimento em longo prazo. A alternativa seria adaptar as instituições e políticas vigentes à nova realidade, pois muitas surgiram quando a estrutura demográfica era muito diferente.

Em curto prazo, o futuro da União Européia virá marcado pela iminente entrada em vigor do Tratado de Lisboa. Entre seus objetivos, o Tratado estabelece aplanar o caminho à Europa para que esta se posicione no cenário internacional como “um ator eficaz e relevante”. A eficácia será certamente determinante para alcançar a dita relevância, mas também o será o modo como se administrará o desafio demográfico.

Tags:
Daniela Alves - Analista CEIRI - MTB: 0069500SP

Mestre em Medicina pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Bacharel em Relações Internacionais, jornalista e Especialista em Cooperação Internacional. Atualmente é CEO do Centro de Estratégia, Inteligência e Relações Internacionais (CEIRI) e Editora-Chefe do CEIRI NEWSPAPER. Vencedora de vários prêmios nacionais e internacionais da área dos Direitos Humanos. Já palestrou em várias cidades e órgãos de governo do Brasil e do Mundo sobre temas relacionados a profissionalização da área de Relações Internacionais, Paradiplomacia, Migrações, Tráfico de Seres Humanos e Tráfico de órgãos. Trabalhou na Coordenadoria de Convênios Internacionais da Secretaria Municipal do Trabalho de São Paulo e na Assessoria Técnica para Assuntos Internacionais da Secretaria do Emprego e Relações do Trabalho do Governo do Estado de SP. Atuou como Diretora Executiva Adjunta e Presidente do Comitê de Coordenação Internacional da Brazil, Russia, India, China, Sounth Africa Chamber for Promotion an Economic Development (BRICS-PED).

  • 1

Deixe uma resposta

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.