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Egípcios temerosos entre a continuidade da herança de Mubarak e a assunção da “Irmandade Muçulmana”

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Os protestos permanecem no Egito e a população exige que o candidato Ahmed Shafiq, escolhido para concorrer no segundo turno das eleições (próximos dias 16 e 17 de junho), seja excluído do processo eleitoral, uma vez que se alega representar a continuidade do Regime deposto.

Os manifestantes não aceitam o julgamento que foi feito para o ex-presidente Hosni Mubarak, condenado a prisão perpétua, mas que tem 84 anos e está a beira da morte, tendo sofrido paradas cardíacas recentemente*, bem como a declaração de inocência para os seus filhos e para ex-membros do grupo que governou o país ao longo do “Regime Mubarak”, dentre eles o próprio candidato Shafiq (último Primeiro-Ministro do Governo de Mubarak), que agora está em condições de ascender ao poder.

Os egípcios exigem que as eleições sejam substituídas por um “Conselho Presidencial” que garanta a transição para a Democracia, em substituição à “Junta Militar”, ou a qualquer Presidente que possa ser eleito, mas para o qual ainda não se sabe quais serão as atribuições, os poderes e os deveres perante uma Constituição que precisa ser composta.

A situação se coloca num dilema em que os cristão e os laicos temem que o poder chegue às mãos dos “radicais islâmicos”, alguns deles configurados na chegada ao poder da “Irmandade Muçulmana”, cujo braço político, o “Partido Liberdade e Justiça” (PLJ), é majoritário no Parlamento e, segundo os analistas internacionais, embora esteja mais articulado, ainda apresenta certa fragmentação e  desorganização interna com segmentos mais radicais e outros moderados, mostrando que ainda não apresentam uma direção comum de organização política democrática que preserve os direitos de todos os segmentos da população, exceto à implantação do islamismo como norteador da ordem política egípcia. Destacando-se ainda que são grupos que tendem a recusar o dialogo e a negociação.

As relações dos muçulmanos com os cristãos coptas (10% da população), por exemplo, têm sido turbulentas e violentas, algo que pode levá-los a apoiar Shafiq diretamente, dando força aos sobreviventes do grupo que foi deposto. Mas tal comportamento, segundo apontam observadores, trará a ira dos grupos que exigem a continuidade do processo revolucionário que derrubou o Governo anterior. 

 

Acreditam ainda os observadores que a transição será mais facilitada com a vitória do Ex-Primeiro-Ministro de Mubarak, pelo fato de ele ser um ex-general e ter sido Comandante da “Força Aérea”, por isso, ter boas relações com a as “Forças Armadas” (um Estado dentro do Estado egípcio) e com a “Junta Militar” (é um candidato da Junta), que muitos acreditam não se afastar do poder, mesmo com a escolha do Presidente, pois tem-se o cargo, mas não as demais instituições do Governo definidas, bem como as atribuições para os que assumirão as funções de mando. Ou seja, acreditam que, dentro do cenário, ele poderá negociar o retirada de uma instituição (“Forças Militares”) enquanto são construídas outras que a substituirão no seu atual papel de mantenedora da ordem.

Outros observadores apostam que com a eleição do candidato da Irmandade, Mohammed Mursi, este terá de negociar com vários grupos, constituindo-se isso num processo de coligação, algo que exigiria negociação constante, logo um exercício mais democrático.

O problema, contudo, não se resume nestes termos, o país, além de pobre, está mais depauperado após a onda revoltosa e a vive em situação crítica, com grande parte da população nos limites, ou abaixo da linha de pobreza (aproximadamente, 60% da população encontra-se nesta condição), reivindicando mudanças imediatas, ou proteção contra os radicalismos que virão, no caso de um governo exclusivista.

Isto foi expresso por Anwar Rizk, “catador de lixo” no bairro conhecido como “Cidade do Lixo”, no qual vivem pessoas da mais baixa das condições no Egito,  o qual expressou predisposição a votar em Shafiq, por temor dos muçulmanos, declarando ter “medo da Irmandade Muçulmana e dos salafitas. (…). Nós temos aqui muçulmanos que vivem conosco como irmãos, em condições muito boas, mas eu tenho medo da Irmandade porque eles pensam apenas no bem deles”**.

Independentemente dos resultados eleitorais dos dias 16 e 17, as previsões dos analistas são de que o processo de mudança do regime no país será mais lento e traumático, não excluindo novas ondas de revolta, manifestações e violência, apesar da assunção paulatina ao poder da “Irmandade Muçulmana”, o grupo mais articulado, ativo e mais antigo buscando assumir as rédeas políticas no Egito, excetuando-se as “Forças Armadas”, que se apresentam como uma Instituição a parte.

A construção das instituições democráticas mostra-se como o objetivo maior, porém acreditam os especialistas que dificilmente elas poderão ser estabelecidas num cenário de tamanha pobreza com o qual vive o Egito. Por isso, não excluem a possibilidade de que o processo atual seja um período transitório e curto para a implantação de outro regime autoritário militarizado, devidos as exigências imediatas de estabelecimento da ordem no país.

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Fontes:

* Ver:

http://www.correio24horas.com.br/noticias/detalhes/detalhes-1/artigo/condenado-a-prisao-perpetua-ex-presidente-do-egito-piora-estado-de-saude-e-entra-em-coma/

* Ver Também:

http://noticias.terra.com.br/mundo/noticias/0,,OI5828583-EI17615,00-Egito+em+coma+Mubarak+sofre+paradas+cardiacas.html

** Ver:

http://tribunadonorte.com.br/noticia/a-era-mubarak-nao-esta-encerrada/222527

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Ver também:

http://pt.euronews.com/2012/06/09/egito-protestos-regressam-a-praca-tahrir/

Ver também:

http://noticias.terra.com.br/mundo/noticias/0,,OI5816350-EI17615,00-Multidao+protesta+contra+candidatura+de+Ahmed+Shafiq+no+Egito.html

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Marcelo Suano - Analista CEIRI - MTB: 16479RS

É Fundador do CEIRI NEWSPAPER. Doutor e Mestre em Ciência Política pela Universidade em São Paulo e Bacharel em Filosofia pela USP, tendo se dedicado à Filosofia da Ciência. É Sócio-Fundador do CEIRI. Foi professor universitário por mais de 15 anos, tendo ministrado aulas de várias disciplinas de humanas, especialmente da área de Relações Internacionais. Exerceu cargos de professor, assessor de diretoria, coordenador de cursos e de projetos, e diretor de cursos em várias Faculdades. Foi fundador do Grupo de Estudos de Paz da PUC/RS, do qual foi pesquisador até o final de 2006. É palestrante da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG-RS), tendo exercido também os cargos de Diretor de Cursos e Diretor do CEPE/CEPEG da ADESG de Porto Alegre. Foi Articulista do Broadcast da Agência Estado e do AE Mercado (Política Internacional), tendo dado assessoria para várias redes de jornal e TV pelo Brasil, destacando-se as atuações semanais realizadas a BAND/RS, na RBS/RS e TVCOM (Globo); na Guaíba (Record), Rádioweb; Cultura RS; dentre vários jornais, revistas e Tvs pelo Brasil. Trabalhou com assessoria e consultoria no Congresso Nacional entre 2011 e 2017. É autor de livros sobre o Pensamento Militar Brasileiro, de artigos em Teoria das Relações Internacionais e em Política Internacional. Ministra cursos e palestra pelo Brasil e no exterior sobre temas das relações internacionais e sobre o sistema político brasileiro.

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