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Eleições no Iraque e a sectarização da política iraquiana

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Na última quarta-feira, 30 de abril, o Iraque realizou as primeiras eleições desde a retirada de tropas americanas, em 2011. O atual “Primeiro Ministro”, Nuri al-Maliki, se candidatou a um terceiro mandato, com uma propaganda que o põe como único capaz de conter uma crescente insurgência inspirada pelo grupo fundamentalista islâmico Al-Qaeda[1].

Nessas eleições, serão escolhidos 328 assentos no “Conselho de Representantes”, o qual, por sua vez, elegerá os próximos Presidente e Primeiro-Ministro iraquianos[2]. Enquanto analistas afirmam ser difícil prever o resultado das eleições[1], o que preocupa observadores internacionais são tensões sectárias no país, manifestadas, nos últimos dias, por meio de surtos de violência[3].

Nas eleições de 2005, as primeiras de um Iraque pós-invasão, o sectarianismo se apresentava em linhas evidentes: a maioria dos partidos xiitas se organizaram sob a “Aliança Unida Iraquiana”; partidos curdos, sob a “Aliança Curda”; e sunitas, sob uma aliança bem mais fraca[4].

No entanto, nessas eleições, divisões sectárias apresentam um quadro bem mais complexo. Como destaca o especialista Reidar Visser, xiitas se dividiram entre os que apoiam Maliki, os alinhados com Ammar al-Hakim e os do “Movimento Sadrista”. Por outro lado, o que em 2010 era o “Partido Sunita-Secular Iraqiya”, apresenta-se agora dividido em três blocos: um controlado por Osama al-Nujaifi, o porta-voz do Parlamento; outro, pelo vice-premier, Saleh al-Mutlak; e outro, por Ayad Allawi, ex-líder do Iraqiya. Mais surpreendentemente, mesmo os curdos se dividiram e cederam a competições internas, algo raro entre eles[4].

As atuais eleições se diferenciam das anteriores também em outros importantes aspectos. Primeiramente, elas são marcadas pela ausência de tropas americanas e de forças da coalizão, o que teve claro impacto em termos de segurança: enquanto em abril de 2010, um mês após as eleições, as mortes de iraquianos chegavam a 1288, o mesmo período de 2014 vê um número quase quatro vezes maior[5].

Além disso, o conflito na vizinha Síria vem sobrecarregando os recursos iraquianos com fluxos de refugiados e com o crescimento de combatentes no “Estado Islâmico do Iraque” e do Levante, grupo afiliado à al-Qaeda, que vem trazendo insegurança[6] às cidades iraquianas[5].

Embora alguns tenham Maliki como favorito[2] – ele próprio declarou que sua vitória era “certa[7] –, o crescente nível de violência, as mais severas desde 2008, têm enfraquecido sua reputação de “o homem que restaurou um grau de normalidade para Bagdá[8]. De fato, sunitas, curdos e também xiitas de grupos rivais criticam o Governo não apenas por sua inabilidade em conter a violência crescente desde o ano passado[9], mas também pela corrupção desenfreada, pelo nepotismo e pela “aquiescência para sectarizar as forças de segurança interna e o exército[5].

Surpreendentemente, o próprio “Chefe do Gabinete do Primeiro Ministro”, Muhavad Husam al Dine Al Bayati, afirmou que “o mais corrupto será o vencedor [das eleições][10]. Apontando para o alto índice de corrupção no país, Bayati afirmou, em entrevista à agência de notícias RT, que “aquele que roubou mais dinheiro iraquiano está em posição de manipular as eleições[10] por meio de compra de votos e de suporte da “Alta Comissão Eleitoral Independente”.

Em 2005, um Governo sólido foi garantido com a vitória xiita, com a delegação de posições chave para os curdos e com a total exclusão política dos partidos sunitas[4]. No atual cenário, independentemente dos resultados das eleições, tal arranjo político parece irrealizável.

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ImagemOs aglomerados de cartazes eleitorais nas cidades testemunham a natureza fragmentada da política iraquiana” (Fonte):

http://www.bbc.com/news/world-middle-east-27118799

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

http://www.bbc.com/news/world-middle-east-27118799

[2] Ver:

http://www.bbc.com/news/world-middle-east-27080662

[3] Ver:

http://www.aljazeera.com/news/middleeast/2014/04/violence-mars-build-up-iraq-election-2014428172327666995.html;

Ver também:

http://www.nytimes.com/2014/04/29/world/middleeast/iraq-prepares-for-national-elections-in-the-shadow-of-militant-threats.html?ref=middleeast&_r=0

[4] Ver:

http://www.foreignaffairs.com/articles/141370/reidar-visser/iraqs-new-politics

[5] Ver:

http://www.aljazeera.com/indepth/opinion/2014/04/iraq-election-unlikely-bridge-sec-2014428882392899.html

[6] Ver:

http://www.aljazeera.com/indepth/interactive/2013/07/2013724141933455196.html

[7] Ver:

http://www.dailystar.com.lb/News/Middle-East/2014/May-01/255029-maliki-says-hes-certain-of-victory-in-iraqs-elections.ashx#axzz30Q7dg1Vu

[8] Ver:

http://mideastafrica.foreignpolicy.com/posts/2014/04/29/insecurity_threatens_iraqi_parliamentary_elections

[9] Ver:

http://www.aljazeera.com/programmes/insidestory/2013/07/20137237814336453.html

[10] Ver:

http://rt.com/op-edge/155992-iraq-elections-winner-corrupt/

Ricardo Fal Dutra Santos - Colaborador Voluntário

Mestre em Segurança Internacional pela Paris School of International Affairs, Sciences Po, com especialidade em direitos humanos e Oriente Médio. Especialista em Ajuda Humanitária e ao Desenvolvimento pela PUC-Rio. Bacharel e licenciado em História pela UFF. Atualmente, atua como pesquisador da ONG palestina BADIL Resource Center, e possui experiência de campo na Cisjordânia. Escreve para o CEIRI Newspaper sobre crises humanitárias, violações de direitos humanos e fluxos migratórios e de refugiados.

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