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Eleições na Espanha, entre a ameaça do nacionalismo e do terrorismo

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Após o início da Crise Financeira Internacional, a Espanha entrou em uma profunda recessão acompanhada de altos índices de desemprego – O índice chegou a superar os 27% – e uma redução drástica dos serviços públicos. A crise promoveu uma mudança no cenário político espanhol. O Governo voltou a ser ocupado por um partido de centro-direita alinhado aos interesses de Berlim e Bruxelas – PP (partido Popular) – e surgiram novos partidos como o Podemos, cuja visão política é muito semelhante ao Syriza, da Grécia.

O Partido Popular havia ocupado a presidência da Espanha entre 1996 e 2004, sob o mandato do então presidente José Maria Aznar, que promoveu uma série de reformas e projetos que colocou a Espanha como a 4ª maior economia da União Europeia e preparou a mesma para sua adesão à Zona Euro.  Somente após os atentados do 11 de março de 2004, em Madrid, foi quando o Partido perdeu apoio popular, já que muitos consideravam que os atentados foram uma retaliação à participação da Espanha na invasão do Iraque, junto com os Estados Unidos e a Inglaterra.

Com a volta do PP à Presidência, em 2011, as medidas de austeridade – ainda que não muito populares – tiveram um efeito positivo para economia espanhola recuperando a credibilidade do país e promovendo um crescimento de 2,8% para 2015 – crescimento este semelhante a registrado na Espanha no período pós crise, segundo a União Europeia. O desgaste social promovido pelas severas medidas de austeridade do governo foram aos poucos minando a popularidade do PP, dado que ficou registrado durante as últimas eleições municipais em 24 de maio de 2015, quando o Partido perdeu importantes cidades no país.

As eleições gerais da Espanha previstas para o dia 20 de dezembro eram consideradas uma causa perdida para o PP, sem embargo, o cenário eleitoral está sendo revertido por dois importantes acontecimentos. O Processo Nacionalista, aprovado pelo Parlamento da Catalunha, no dia 9 de novembro, pressiona ao Governo Central de Madrid, que não demorou em acionar o Tribunal Constitucional para derrubar o projeto, mantendo um discurso firme de defesa da unidade territorial. O Governo Espanhol, rapidamente, tratou de que seus interesses fossem reforçados pela União Europeia, pelos Estados Unidos e pela ONU, cujo secretário geral Ban Ki Moon já adiantou que a Catalunha não está inserida na lista de países com direito à autodeterminação. Os outros partidos da Espanha advogam por uma alternativa em relação ao processo nacionalista catalão, o que acaba reforçando o papel do PP na integração territorial e lhe rende um maior apoio popular dos espanhóis de outras regiões, que são contrários a independência da Catalunha. Os atentados de Paris, se transformaram em outro fator que, ao contrário do atentado ocorrido em Madrid, em 2004, acabou gerando na população um sentimento reacionário em relação a mudanças que possam ocorrer nas políticas de segurança nacional e de imigração – tão defendidas pelo PP – no caso de uma mudança na Presidência, mas que são rejeitadas por outros partidos. A ameaça do Estado Islâmico, ou ISIS, também gerou uma maior polarização da população, que busca no partido da Presidência um discurso rígido e uma postura de defesa do território.

A Espanha até mesmo pensou na possibilidade de intervir militarmente na Síria se alinhando aos interesses da França, mas, por temor de um impacto negativo nas eleições, acabou por optar por aumentar sua presença no Norte da África, onde o Estado Islâmico aos poucos se expande, sendo a Espanha a porta natural da Europa.

As pesquisas eleitorais apontam para um alinhamento da população com os partidos de direita, embora muitos acreditem que o PP não irá obter maioria absoluta, como ocorreu nas últimas eleições, mas deverá criar uma aliança com o partido Ciudadanos, que representa a nova direita espanhola, conforme estudo do Clima Eleitoral realizado pelo jornal espanhol El Pais. Para a América Latina, a situação política e econômica da Espanha não é um fato a ser negligenciado, ou minimizado. O país atua como ponte entre a União Europeia e os países latinos, além de ser um dos maiores investidores na região.

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Imagem (Fonte):

https://www.gurusblog.com/jordi/wp/wp-content/uploads/2015/11/candidatos-elecciones-generales-compressor.png

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Wesley S.T Guerra - Colaborador Voluntário Sênior

Atua como consultor internacional na área de Paradiplomacia para o Escritório Exterior de Comércio e Investimentos do Governo da Catalunha. Formado em Negociações e Marketing Internacional pelo Centro de Promoção Econômica de Barcelona, Bacharel em Administração pela Universidade Católica de Brasília, especialista pós-graduado em Ciências Políticas e Relações Internacionais pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo – FESPSP, MBA em Novas Parcerias Globais pelo Instituto Latinoamericano para o Desenvolvimento da Educação, Ciência e Cultura e mestrando em Polítcias Sociais em Migrações na Universidad de La Coruña (España). Fundador do thinktank NEMRI – Núcleo de Estudos Multidisciplinar das Relações Internacionais. Especialista em paradiplomacia, acordos de cooperação e transferência acadêmica e tecnológica, smartcities e desenvolvimento econômico e social. Morou na Espanha, Itália, França e Suíça.

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