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Analistas apontam que, apesar das constantes suspeitas acerca do solidez e futuro do MERCOSUL, o Bloco mantinha alguma unidade, como a esperar o momento propício em que suas instituições estivessem solidificadas ao ponto de gerar capacidade para orientar os comportamentos dos seus países signatários. Acreditavam que as diferenças entre as economias poderiam ser superados com exercício constante de aproximações, negociações, cumprimento de Acordos, respeito a Tratados, gerando capacidade e possibilidade real de criação do “mercado comum”, bem como ação coletiva de um Bloco real.

 

A crise política do Paraguai, com o impeachment do ex-presidente Fernando Lugo, gerou tensões no Bloco, em especial devido a indecisão sobre a melhor atitude que deveria ser tomada para a defesa da solidez e manutenção do grupo, razão pela qual, dentre as teses defendidas, a de expulsão do Paraguai do Bloco acabou sendo substituída pela sua suspensão até as próximas eleições presidenciais neste país, em abril de 2013, quando se acredita que a normalização gerada pelo processo eleitoral torne desnecessários os debates sobre se houve o desrespeito ou não da cláusula democrática do MERCOSUL no caso do impeachment ocorrido, uma vez que foi aberta uma grande polarização de interpretações, divididas essencialmente entre os que afirmam que ela foi respeitada, pois a ação foi constitucional, dentro das exigências legais e sem infringir qualquer ponto da legislação, e aqueles que declaram haver o desrespeito à Cláusula, pelo fato de não terem sido oferecidas todas as condições de defesa, expressadas de forma concreta na velocidade do julgamento.

No entanto, mesmo que tal decisão tenha sido criticada por ambos os pólos, vários observadores afirmam que ela foi uma maneira de evitar mais desgaste, pois a suspensão poderia ser amenizada pela manutenção dos Acordos e direitos do Paraguai não afetando a sua economia e não punindo o povo. Ou seja, o MERCOSUL teria mantido critérios mais equilibrados de ação, apesar dos discursos inflamados e extremados que exigiam a expulsão do Paraguai.

No momento, analistas apontam que a Crise trouxe como conseqüência para abalar o Bloco econômico não a medida adotada contra o Paraguai, mas a decisão que vem sendo criticada em vários setores, ou seja, a de aprovar a entrada da Venezuela à revelia do Paraguai.

Interpretes declaram que há ilegalidade, outros que houve desrespeito à diplomacia, outros que se cometeu um erro estratégico e político que poderá gerar uma cisão definitiva ou um desgaste irreparável no MERCOSUL, dando razão aos especialistas que sempre apontavam o Bloco como um constante moribundo, sem força real para se lançar como uma unidade real, coesa e consistente.

A decisão começa a ser vista na imprensa como uma imposição e erro jurídico, quando não político, pois a suspensão do Paraguai exigiria a espera da normalidade de sua situação interna (havendo muitos que afirmam já está ocorrendo) para garantir o respeito às Cláusulas do próprio MERCOSUL, já que ele foi suspenso e não expulso, mantendo-se como membro. No limite lógico, acusa-se de uma espécie de “golpe branco intra-bloco” dado contra o Paraguai, cujo Congresso recusava a inclusão Venezuela.

A mídia divulgou a cisão manifestada pelo Uruguai que declara ter sido contra a entrada da Venezuela por várias razões, dentre elas as citadas acima, e levou o Brasil a ter de se posicionar e responder de forma a gerar uma pergunta indelicada sobre a possibilidade de inverdades nas declarações feitas à imprensa pelas autoridades brasileiras e uruguaias.

Segundo aponta a mídia, os brasileiros declararam que a iniciativa foi feita pelo presidente uruguaio, Jose Mujica, e foi apoiada pela Argentina e Brasil. No momento, de forma tensa, os ministros e demais autoridades uruguaias declaram que tal fato não ocorreu e foi uma imposição do Brasil sob o constrangimento do Presidente do Uruguai que recuou diante da ação e teve de acatá-la.

Independentemente da verdade, o que emergiu para o grande público foi uma divergência em que autoridade quebraram o protocolo e se defenderam publicamente, acusando-se mutuamente de terem mentido, mesmo que indiretamente, algo de excepcional gravidade para a manutenção da harmonia entre membros de um grupo que visa criar, manter, solidificar e desenvolver instituições conjuntas e conjuntamente. Conforme apontam observadores, iniciou-se uma “quebra de confiança”.

Para o Brasil, ficou diante da mídia o fantasma de o governo atual ter agido ideologicamente e sem critérios técnicos, contrário a sua postura de busca pela configuração técnica, algo que vinha sendo avaliado positivamente pelo público interno do Brasil e é uma das bandeiras do Governo, vindo a confirmar tal interpretação o fato disseminado na imprensa de que o ministro das “Relações Exteriores” brasileiro, Antônio Patriota (apontado como técnico desde o início da composição do Governo), ter sido contrário à decisão e também o fato de pronunciamentos oficiais terem sido feitos pelo assessor da Presidente, Marco Aurélio Garcia,  que havia perdido terreno como porta-voz da política externa brasileira e é identificado pela mídia como o elemento ideológico. 

Diante da postura dos uruguaios, analistas acreditam que a posição em relação á Venezuela possa ser revertida, uma vez que será rediscutido o seu ingresso em 31 de julho próximo. Apontam a existência dessa possibilidade devido as contradições que a Venezuela representa em relação a própria Cláusula democrática que gerou a reação contra o novo Governo paraguaio, já que se acusa o Governo venezuelano de desrespeitar inúmeras das exigências mínimas para ser considerado uma Democracia e vem sendo denunciado constantemente em Cortes internacionais de “Direitos Humanos”.

Também se acredita num recuo pelo desgaste que poderá representar o ingresso venezuelano, pois significaria a perda de prestígio para o MERCOSUL, em função da forma como é visto “Governo de Hugo Chávez” na “comunidade internacional”, e pela esperada pressão que ele fará em relação aos países do Bloco, especialmente Uruguai e Paraguai (que se acredita que retornará), se os erros cometidos com as decisões atuais não o esvaziarem o MERCOSUL ao ponto de matar o moribundo.

Além disso, acreditam também que o Brasil, individualmente, terá perdas que não foram avaliadas, uma vez que a tendência será de os venezuelanos, mantido o seu governo bolivariano, atuará em parceria com a Argentina que adota a postura de tomar decisões unilaterais, desrespeitando os Acordos do MERCOSUL, especialmente contra o Brasil, e tinha nos dois signatários menores um contrapeso no momento das votações. Por isso, apontam os observadores a possibilidade de os brasileiros se verem obrigados a recuar.

A contraparte desta construção de cenário surge do fato de a disseminação para a imprensa da decisão tomada sobre a Venezuela trazer numa possível reavaliação do posicionamento constrangimentos entre o Bloco e este país, os quais podem gerar transtornos e desgastes  num momento em que as economias precisam de estabilidade, decisões e ações coletivas, acrescentando-se o fato de ter sido adotado um comportamento ideológico e não técnico, tal qual muitos observadores estão apontando.

Diante da situação, o que analistas têm discutido é que foi criado um dilema, quando não um impasse, e trazido tensões desnecessárias para um ambiente que necessitava de equilíbrio e qualquer decisão doravante poderá gerar mais tensões. Por isso estes observadores acusam como principal erro cometido o retorno da postura ideológica e não técnica na política externa brasileira, voltando a trazer nas decisões tomadas contradições entre os discursos e as ações, entre os projetos anunciados e suas execuções.

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Fontes:

Ver:

http://www1.folha.uol.com.br/mundo/1114305-vice-uruguaio-diz-que-venezuela-e-agressao-ao-mercosul.shtml

Ver:

http://www1.folha.uol.com.br/mundo/1114440-paraguai-mostra-video-de-chanceler-venezuelano-com-militares.shtml

Ver:

http://www1.folha.uol.com.br/mundo/1113755-pressao-do-brasil-forcou-entrada-da-venezuela-no-mercosul-diz-uruguai.shtml

Ver:

http://www.jb.com.br/internacional/noticias/2012/07/01/franco-diz-que-que-suspender-paraguai-do-mercosul-e-ilegal/

Ver:

http://veja.abril.com.br/noticia/internacional/paraguai-investiga-maduro-por-convocar-militares-para-defender-lugo

Ver:

http://noticias.portalbraganca.com.br/internacional/internacional-parlasul-suspensao-do-paraguai-do-mercosul-adia-primeira-reuniao-do-parlamento.php

Ver:

http://noticias.terra.com.br/mundo/noticias/0,,OI5875076-EI20486,00-Paraguai+precisa+olhar+para+futuro+diz+chefe+da+OEA.html

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Marcelo Suano - Analista CEIRI - MTB: 16479RS

É Fundador do CEIRI NEWSPAPER. Doutor e Mestre em Ciência Política pela Universidade em São Paulo e Bacharel em Filosofia pela USP, tendo se dedicado à Filosofia da Ciência. É Sócio-Fundador do CEIRI. Foi professor universitário por mais de 15 anos, tendo ministrado aulas de várias disciplinas de humanas, especialmente da área de Relações Internacionais. Exerceu cargos de professor, assessor de diretoria, coordenador de cursos e de projetos, e diretor de cursos em várias Faculdades. Foi fundador do Grupo de Estudos de Paz da PUC/RS, do qual foi pesquisador até o final de 2006. É palestrante da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG-RS), tendo exercido também os cargos de Diretor de Cursos e Diretor do CEPE/CEPEG da ADESG de Porto Alegre. Foi Articulista do Broadcast da Agência Estado e do AE Mercado (Política Internacional), tendo dado assessoria para várias redes de jornal e TV pelo Brasil, destacando-se as atuações semanais realizadas a BAND/RS, na RBS/RS e TVCOM (Globo); na Guaíba (Record), Rádioweb; Cultura RS; dentre vários jornais, revistas e Tvs pelo Brasil. Trabalhou com assessoria e consultoria no Congresso Nacional entre 2011 e 2017. É autor de livros sobre o Pensamento Militar Brasileiro, de artigos em Teoria das Relações Internacionais e em Política Internacional. Ministra cursos e palestra pelo Brasil e no exterior sobre temas das relações internacionais e sobre o sistema político brasileiro.

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