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Entrevista Especial com Brice Lalonde, coordenador executivo da Rio+20

CEIRI 27 de agosto de 2012
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Por Jean Bortoleto

Na entrevista a seguir, concedida por telefone ao CEIRI NEWSPAPER, Brice Lalonde esclarece os desafios da Rio+20 e dos objetivos de desenvolvimento sustentável. “Há um equívoco da maioria das pessoas em esperar que conferências internacionais tomarão decisões espetaculares. Isto é muito raro, porque deve haver um acordo entre 193 países que tem diferentes níveis de desenvolvimento, de bem-estar e é difícil. As pessoas pensam que os Estados Unidos governam, mas não é como um governo. Os Estados Unidos são um dos 193 países juntos. Não há governo supranacional que toma decisões, é preciso esperar decisões de todos os países”, destacou o coordenador executivo da Rio+20, Dr. Brice Lalonde.

O Militante ecologista, encarregado francês das negociações sobre o clima entre 2007 e 2011, ministro de Meio Ambiente nos governos socialistas entre 1988 e 1992, Brice Lalonde apresentou para o CEIRI NEWSPAPER as principais pautas e os obstáculos de uma Cúpula onde ressalta que a noção simplista do capitalismo e do sistema internacional dificulta os possíveis progressos.

CEIRI NEWSPAPER – Qual foi a proposta inicial da Rio+20 e seus objetivos?

 

Brice Lalonde – Quando falamos sobre compromisso, sim, a proposta foi alcançada, porque temos um acordo que foi assinado por 193 países, que é um compromisso com o desenvolvimento sustentável. Se quiser, podemos olhar por outro lado, podemos olhar pelo lado negativo. Se não fosse assinado nenhum acordo, isso significaria que o desenvolvimento sustentável desapareceria da agenda das Nações Unidas por, não sei, 5 ou 6 anos. Então, se preferir, significa que o desenvolvimento sustentável permanece como objetivo de 193 países, o que é importante por si mesmo.

Agora, se formos para o tópico da economia verde, penso que podemos dizer que sobre isso temos muito trabalho a ser feito nos próximos anos. Eu considero que a economia verde é um tema atual e muito países não sabem exatamente o que fazer.

 

CEIRI NEWSPAPER – O senhor declarou em uma entrevista que a Rio+20 é como uma vacina para a Rio 92. Foi somente isto ou poderia ser algo mais?

 

Brice Lalonde – Foi para os próximos 20 anos…

 

CEIRI NEWSPAPER – Neste caso, foi suficiente para os próximos 20 anos?

 

Brice Lalonde – Sim, acho que há muitas coisas a serem feitas e a Rio+20 abriu a porta de muitas coisas a serem feitas. Podemos falar sobre a ONU. Ela tem pelo menos 10 mandatos para operar, que começarão no próximo setembro, então há muito trabalho a ser realizado. Além disso, eu acho que a Rio+20 é também um momento. Você sabe que a negociação intergovernamental é um complemento preenchido por demandas enormes, isto é, compromissos privados vindo de empresas, vindo de governos locais.

 

CEIRI NEWSPAPER – Sobre as empresas e também sobre o pacto global, o senhor acredita que o desenvolvimento de responsabilidades sociais pode acontecer no Brasil? O senhor tem algum conselho prático para os CEOs?

 

Brice Lalonde – Vou voltar para a primeira pergunta e fazer uma ligação com a segunda questão. Há algo muito importante que ocorreu na Rio: a ideia de ter objetivos de desenvolvimento sustentável para toda a humanidade. Nós temos dois anos para elaborar um relatório para as Nações Unidas, o que é muito importante e completamente novo, porque normalmente se tem milhões de objetivos de desenvolvimento. É muito importante combater a pobreza, temos que continuar a luta contra a pobreza, pois se temos sucesso nesse combate, isso significa que, pelo menos, devemos ter sustentabilidade para toda a humanidade e todo o planeta. (…) Nessa linha, podemos fazer parcerias para alcançar esses objetivos, e parceria é uma das noções que emergem lentamente, fruto da Cúpula de Johanesburgo, que está se tornando mais importante na Rio e provavelmente vai continuar, porque significa que deve haver uma coalizão de Estados, governos e governos locais, metrópoles, empresas, ONGs, think tanks. Esse tipo de coalização deve acontecer e, respondendo à sua questão, a responsabilidade social empresarial é muito importante, é claro, e isto quer dizer que se refere, primeiramente, ao princípio: existem conceitos éticos e isto significa que não se pode fazer negócio apenas por dinheiro; é preciso fazer negócio também porque é um serviço à sociedade. No Brasil, a responsabilidade social empresarial está se desenvolvendo muito rápido. Eu fico muito surpreso em ver isso cada vez que vou ao Brasil e conheço muito bem as pessoas do Instituto Ethos, que já existe há um bom tempo e tem sido muito bem-sucedido.

 

CEIRI NEWSPAPER – É como uma grande parceria entre pessoas, empresas, governos, cidades e todos os seres humanos por um mundo melhor?

 

Brice Lalonde – Sim, é muito interessante e eu penso que, hoje, temos a internet e ela é um modo de se atingir um grande público. Isso não aconteceu na Rio 92. É uma maneira completamente nova e é ainda uma forma com a qual a população pode acompanhar o que está acontecendo nas empresas e a informação circula muito rápido, logo é uma ferramenta muito poderosa também.

 

CEIRI NEWSPAPER – A participação da grande mídia teve um papel importante na divulgação da Rio+20. Além destes meios, como as pessoas podem se interessar por essa questão e participar mais ativamente?

 

Brice Lalonde – Sim, houve uma inovação na Rio+20, que foi o diálogo do desenvolvimento sustentável, os diálogos da Rio, que começaram antes dos compromissos oficiais. As pessoas votaram em recomendações pela internet que foram enviadas a altos escalões dos governos e a ideia de ter uma participação por democracia direta para tentar engajar o grande público e colocá-lo na conferência internacional é muito interessante, é uma inovação.

 

CEIRI NEWSPAPER – Em sua opinião, esse é o ônus mais importante da conferência? Captar o grande público, criar uma consciência melhor em relação a empresas sustentáveis, o que é mais importante na conferência?

 

Brice Lalonde – Conto a você em dez anos (risos).

 

CEIRI NEWSPAPER – Talvez as pessoas, já que elas podem fazer pressão sobre o governo e também sobre as empresas enquanto consumidores?

 

Brice Lalonde – Sim, mas também como cidadãos, não somente consumidores. Podia-se ver na Rio+20 uma quantidade enorme de jovens, o que é muito importante para o futuro. Jovens são comprometidos, interessados e querem ver essas coisas acontecerem.

 

CEIRI NEWSPAPER – O senhor considera que os jovens de hoje colocarão no topo de suas prioridades o meio-ambiente e depois as questões de lucro e exploração do meio-ambiente, ou acredita que permanecerá como é hoje ou mesmo há vinte anos? O senhor acha que há uma mudança de mentalidade por um futuro melhor para todos?

 

Brice Lalonde – Sim, eu acho. Havia algo novo no Rio, atenção a dois extremos: pobreza extrema e riqueza extrema. Havia pessoas dizendo que é preciso prestar atenção à pobreza extrema, mas a extrema riqueza também precisa de atenção. Estes dois extremos estão destruindo o planeta. Devemos ser cuidadosos. Havia ainda uma quantidade enorme de compromissos, algo em torno de 700, equivalente a aproximadamente 600 bilhões de dólares. Por tantos compromissos, eu penso que precisamos considerar o prosseguimento da Rio+20 como mais importante que a própria Rio+20. Temos que adquirir novas maneiras de dar seguimento a essas conferências. Também a economia verde é muito, muito importante. Aos poucos, os profissionais da economia estão compreendendo a importância da ecologia e está emergindo uma nova disciplina. É fato que não se pode ver a economia sem ver a ecologia, então é complicado.

 

CEIRI NEWSPAPER – Houve uma grande discussão sobre economia verde na cúpula e até agora nada ainda está muito claro. Talvez isto possa ser esclarecido se os CEOs e as pessoas souberem como aplicar a economia verde.

 

Brice Lalonde – Exatamente, porque os CEOs quando vão para a escola, aprendem a fazer contas, aprendem sobre finanças, mas eles não sabem sobre a contabilidade da natureza.

 

CEIRI NEWSPAPER – Muitas organizações da sociedade civil disseram que a Rio+20 tinha começado com uma tendência à ruína e avaliaram sua conclusão como um “completo fracasso”. Por outro lado, os Chefes de Estado, emitiram pareceres positivos sobre a cúpula. Em sua opinião, por que esta divergência de pensamento?

 

Brice Lalonde – Bem, porque as ONGs e a sociedade civil querem ir mais rápido, eles gostariam que os governos fossem mais corajosos/pró-ativo. Eu penso que há também um equívoco da maioria das pessoas em esperar que conferências internacionais tomarão decisões espetaculares. Isto é muito raro, porque deve haver um acordo entre 193 países, que tem diferentes níveis de desenvolvimento, de bem-estar e é difícil. As pessoas pensam que os Estados Unidos governam, mas não é como um governo. Os Estados Unidos são um dos 193 países juntos. Não há governo supranacional que toma decisões. É preciso esperar decisões de todos os países e a maioria vai a essas conferências tentando defender seus interesses nacionais sendo difícil encontrar alguém que fale em interesses globais comuns. É muito difícil. Assim, a ação que se inicia não começa nessas conferências, elas começam localmente.

 

CEIRI NEWSPAPER – Podemos dizer que esta cúpula é um grande passo?

 

Brice Lalonde – Sim, é um passo. Se você olhar o documento oficial por si mesmo há muitas coisas que pode encontrar, então tudo o que precisamos fazer é o nosso trabalho. É uma conferência que mantém as portas abertas.

 

CEIRI NEWSPAPER – E sobre a crítica/descontentamento que o secretário-geral da ONU realizou sobre a Conferência, mas, depois, sua mudança de percepção sobre o resultado da Conferência. Por que isso aconteceu?

 

Brice Lalonde – Bem, é a política. Eu penso que o que você está dizendo é muito importante. Eu acho que poderíamos dizer que 10 países deveriam ter tido mais liderança. Nada acontece se não houver um grupo de países pressionando. Além disso, alguns países estavam tendo eleições, alguns estavam em crise financeira, é difícil fazê-lo. Mas tinha alguma liderança, como a Colômbia, que a mostrou.

 

CEIRI NEWSPAPER – O que impediu o Programa das Nações Unidas para o Meio-Ambiente de obter status de agência?

 

Brice Lalonde – Eu acredito que é porque os Estados Unidos não quiseram e o Brasil concordou com eles. Quero dizer, o Brasil estava em situação de negociar um acordo.

 

CEIRI NEWSPAPER – Pergunta da leitora Aggnes Franco: Considerando que o desenvolvimento sustentável é uma alternativa dentro do capitalismo e este sistema sustenta o lucro como um objetivo e considerando que o lucro depende da exploração da mais-valia, como é possível balancear o social, o ambiental e o econômico nesse cenário?

                                                                                                                 

Brice Lalonde – Bem, porque…é uma luta…

 

Jean Bortoleto – Podemos falar sobre a economia verde nessa questão? É a resposta-chave à pergunta?

 

Brice Lalonde – A resposta-chave é a que todo mundo deve encontrar. Quero dizer, não há ideias perfeitas para aplicar. A economia verde é crucial para sobreviver, precisamos organizar a sociedade. A democracia permite que todos se expliquem, fazendo justiça e servindo como árbitro. A justiça é muito importante, precisa ter uma justiça independente e ministros que lutem por aquilo que eles pensam ser o correto a fazer. O ministro do meio-ambiente precisa lutar pelo meio-ambiente e o primeiro-ministro precisa arbitrar. Na Rio+20 concordamos que agora o capital humano é o mais importante, educação, saúde, relações sociais entre as pessoas. Então isso é capital humano, capital natural, que é a natureza, sistemas equitativos que forneçam serviços, logo esse capital natural e humano é mais importante que o financeiro e máquinas. Esta é a nova descoberta. Temos instituições que estão fazendo isso, mas não solucionam todo o problema no mundo.

 

Ouça a entrevista completa no SoundCloud do CEIRI.

 

Esta entrevista foi realizada por Jean Bortoleto, analista de relações internacionais e colaborador do CEIRI NEWSPAPER.

Coordenação: Daniela Alves

Tradução: Isabella Soares Curce

Colaboração: Bárbara Menezes

Participação Especial: Aggnes Franco

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