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Envio de armamentos pesados norte-americanos ao leste europeu podem aumentar tensão entre EUA e Rússia

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O Pentágono está considerando a possibilidade de enviar armamentos pesados, como tanques, veículos de combate, além de outros equipamentos, e até 5 mil soldados para países do Báltico e do leste da Europa, a fim de apoiar e fortalecer suas alianças na região. No momento, Estônia, Lituânia e Polônia, já manifestaram a disposição em receber tais armas, mas outros países como Bulgária, Hungria, Letônia e Roménia também poderão receber os equipamentos[1]. A medida tem sido argumentada dentro dos Estados Unidos da América (EUA) como uma resposta à agressão da República da Rússia no leste europeu[2]. Caso a medida seja aprovada, esta pode vir a aumentar ainda mais a tensão entre os dois países.

Segundo informações divulgadas pelo capitão Greg Hicks, um porta-voz militar, Philip Breedlove, General da Força Aérea dos EUA e Comandante Supremo Aliado da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) na Europa, havia feito uma recomendação a Ashton Carter, Secretário de Defesa dos EUA, para o armazenamento de equipamentos na região do leste europeu[3]. A decisão, no entanto, compete a Carter, que pode vir a aprovar a proposta ainda antes da reunião ministerial da OTAN, que deve ocorrer no final de junho em Bruxelas, na Bélgica.

De acordo com alguns analistas, essa medida visa tranquilizar os aliados norte-americanos no leste europeu, em razão do acirramento do conflito na Ucrânia, que iniciou em março de 2014, entre o Governo e os rebeldes ucranianos próRússia. Para James Stavridis, almirante aposentado e ex-comandante supremo aliado da OTAN, a proposta “fornece um nível razoável de garantias aos aliados mais apreensivos, embora nada é tão bom quanto as tropas estacionadas em tempo integral em terra, é claro[4].

Na última segunda-feira, o Pentágono declarou que os militares dos Estados Unidos estavam avaliando para onde iriam direcionar os equipamentos e também o batalhão de soldados, mas que essa decisão faz parte de um esforço de longo prazo em manter uma força na região com intuito de facilitar o treinamento rotacional que os EUA realizam em conjunto com seus aliados da OTAN[5]. Em conformidade, Steve Warren, PortaVoz do Pentágono, pontuou que a medida “se trata unicamente do posicionamento dos equipamentos para melhor facilitar a nossa capacidade de realizar o treinamento[6]. Além disso, Warren reiterou que “os militares dos EUA continuam a avaliar o melhor local para armazenar esses materiais em consulta com os nossos aliados. Neste momento, não temos nenhuma decisão sobre se ou quando irá se transferir esses equipamento[7].

Compete destacar que com a manutenção de força na fronteira oriental da OTAN, os Estados Unidos poderiam oferecer uma resposta mais rápida em caso de conflito, pois suas forças levariam menos tempo para se deslocar. No entanto, é válido lembrar que as propostas de estabelecimento de uma força de combate permanente da OTAN no leste europeu, sugeridas após o início da Crise na Ucrânia, foram rechaçadas pela Alemanha e outros membros da Organização. Ao invés disso, criou-se uma força de reação rápida estabelecida ao noroeste da Polônia, além da intensificação dos exercícios e da rotação de tropas na região.

Como mencionado anteriormente, alguns países já manifestaram o interesse em receber equipamentos norte-americanos. Nesse sentido, segundo Tomasz Siemoniak, VicePremiê e Ministro da Defesa da Polônia, “estão sendo realizadas negociações sobre a implantação na Polônia de armazéns de equipamento militar do Exército dos EUA. Este é mais um passo para aumentar a presença dos Estados Unidos na Polônia e na região[8]. Já Juozas Olekas, Ministro da Defesa da Lituânia, afirmou que espera receber tanques M1A2 Abrams e veículos blindados M2A3 Bradley, e reforçou ainda que acredita que “pelo menos uma parte de tanques e veículos blindados será colocada na Lituânia. Nós estamos preparando a infraestrutura para a recepção dos armamentos, está quase pronta[9]. Enquanto que Sven Mikser, Ministro da Defesa da Estônia,  assinalou que “o estado mais poderoso no plano militar dos países da OTAN deve pensar seriamente na segurança do leste europeu[10].

No entanto, o envio de armamentos pesados aos países do leste europeu pode ocasionar tensões dentro da OTAN, uma vez que alguns países buscam evitar qualquer impasse militar com o Governo russo. Haja vista que, por exemplo, alguns países como a Bulgária e a Hungria, que são membros da OTAN, possuem estreitos laços culturais e comerciais com a Rússia, e, portanto, podem se colocar contrários ao recebimento de equipamentos em seus países[11].

Em resposta a isso, na última segunda-feira, Yuri Yakubov, funcionário do Ministério da Defesa da Rússia, declarou que se os Estados Unidos realmente enviarem equipamentos pesados para o leste europeu e para os países bálticos “a Rússia não terá opção a não ser construir as suas forças e recursos na frente estratégica ocidental[12]. Yakubov salientou ainda que a resposta russa pode incluir, por exemplo, a aceleração da instalação de mísseis Iskander para Kaliningrado, um enclave russo rodeado pela Polônia e Lituânia[13].

Vladimir Putin, Presidente da Rússia, afirmou que “somente uma pessoa doente ou num sonho poderia imaginar que a Rússia de repente ataque a OTAN[14]. Adicionalmente, o Presidente russo criticou o avanço da OTAN na região, destacando que “nós, por outro lado, retiramos de Cuba todas as bases, mesmo as bases sem valor estratégico. E agora vocês dizem que nós temos um comportamento agressivo? Vocês mencionaram a expansão da OTAN para leste. Nós, por outro lado, não estamos nos movendo para lado nenhum. É a infraestrutura da OTAN que se move em direção às nossas fronteiras, inclusive a infraestrutura militar. Será isso uma manifestação da nossa agressividade?[15].

Para alguns analistas, a proposta, caso seja aprovada, marcaria a primeira vez desde a Guerra Fria que o Governo norteamericano envia equipamento militar pesado aos mais novos integrantes da Organização do Tratado do Atlântico Norte na Europa Oriental, Estados antes parte da esfera de influência da antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS)[16] . Ademais, tal medida pode aumentar a tensão com a Rússia.

Nesse sentido, segundo assinalou Marek Toczek, exViceAlmirante polonês, “isto é mais um passo para a escalada da tensão, que pode levar a uma tragédia maior. Este passo não serve para a causa de normalização das relações. Não vai aumentar o nível da segurança nacional da Polônia. Eu não vejo ações concretas por parte da Rússia ou por parte de outros países situados a leste da Polônia que possam provocar a necessidade de dar tal passo. Do meu ponto de vista, isto cria uma base para a escalada de tais ações. Eu acho que isto contradiz os interesses da Polônia e de outros países da região[17].

É preciso levar em consideração o posicionamento dos países na região quanto ao acirramento do conflito na Ucrânia, bem como as respostas desses países. Recentemente, manobras militares de aviões e navios russos criaram um alerta na Europa, a OTAN em resposta realizou exercícios militares nas proximidades da fronteira com a Rússia[18]. Por fim, por mais que a medida possa vir a dissuadir uma eventual agressão russa na Europa, como salientam alguns analistas, a mesma pode vir a promover o acirramento das tensões já existentes entre os governos da Rússia e dos Estados Unidos.

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Imagem (Fonte):

http://www.worldbulletin.net/world/160641/us-poised-to-put-heavy-weapons-in-east-europe

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Fontes Consultadas:

[1] Ver:

http://www.theguardian.com/us-news/2015/jun/13/us-military-weapons-eastern-europe-russia

[2] Ver:

http://www.reuters.com/article/2015/06/15/us-russia-usa-europe-idUSKBN0OV17A20150615  

[3] Ver:

http://www.stripes.com/news/europe/pentagon-considers-moving-weapons-to-eastern-europe-risking-tension-1.352312

[4] Ver:

http://www.theguardian.com/us-news/2015/jun/13/us-military-weapons-eastern-europe-russia

[5] Ver:

http://www.reuters.com/article/2015/06/15/us-russia-usa-europe-idUSKBN0OV17A20150615

[6] Ver:

Idem.

[7] Ver:

http://www.aljazeera.com/news/2015/06/poised-station-heavy-weaponry-east-europe-150613221321530.html

[8] Ver:

http://br.sputniknews.com/mundo/20150614/1295644.html

[9] Ver:

Idem.

[10] Ver:

Idem.

[11] Ver:

http://www.reuters.com/article/2015/06/15/us-russia-usa-europe-idUSKBN0OV17A20150615

[12] Ver:

http://www.bbc.co.uk/news/world-europe-33131886

[13] Ver:

Idem.

[14] Ver:

http://br.sputniknews.com/mundo/20150614/1295644.html

[15] Ver:

Idem.

[16] Ver:

http://www.dw.de/pentagon-poised-to-send-heavy-weapons-troops-to-eastern-europe/a-18516115

[17] Ver:

http://br.sputniknews.com/mundo/20150614/1295644.html

[18] Ver:

http://www.stripes.com/news/europe/pentagon-considers-moving-weapons-to-eastern-europe-risking-tension-1.352312

Jessika Tessaro - Colaboradora Voluntária Júnior

Pós-graduanda do curso de Especialização em Estratégia e Relações Internacionais Contemporâneas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). É Graduanda do Curso de Políticas Públicas da UFRGS e bacharel em Relações Internacionais pela Faculdade América Latina Educacional. No presente, desenvolve estudos sobre a geopolítica e a securitização dos Estreitos internacionais e Oceanos.

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