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Ao alinhar cronologicamente as condições atuais da ordem internacional são perceptíveis fissuras na condução do modelo sistêmico adotado para o plano político, social e econômico dos dias atuais. Com um espelho refletido para a história, desordens vividas na presente conjuntura remontam com grande similaridade aos fatos acontecidos no início do século XX e desencadearam duas guerras mundiais, tempo este de ruptura da ordem vigente do século XIX, conhecido como “belle époque”.

Os desequilíbrios no leste europeu, após a quebra institucional do Estado Ucraniano e a anexação da Crimeia pela Rússia; a Guerra Civil na Síria; a ascensão do fundamentalismo islâmico, de forma mais latente com o autoproclamado Estado Islâmico (ISIS, na sigla em inglês); a fragmentação da Líbia; as disputas territoriais por arquipélagos no sudeste asiático, colocando potências como China, Japão, Estados Unidos e Coréia do Sul em rota de colisão; a exploração do Ártico, conhecida como “Eldorado de gelo”; o Programa Nuclear Iraniano e a falta de consenso nas negociações, fruto dos nebulosos meios e fins para essa atividade; o Conflito Israelense-Palestino que trouxe à tona novos desequilíbrios para a diplomacia contornar e para o direito internacional julgar; a falta de uma agenda climática para reduzir os graves avanços da deterioração do planeta; além de crises sociais nos Estados Unidos e principalmente na Europa que culminam ainda na austeridade, arrocho salarial e desemprego solidificando bases para a crescente ascensão de uma extrema-direita que possivelmente ficaria responsável pelos direcionamentos da ordem internacional são apenas alguns exemplos das disparidades que assolam o ambiente aos quais todos estão inseridos.

A cultura do medo externada na literatura contemporânea por alguns intelectuais, em especial por Mia Couto e Eduardo Galiano, seria, na contextualização atual, o começo, o meio e o fim para explicar de forma única alguns dos movimentos políticos na história social do último século e do presente. Em concordância e aprofundando a reflexão, Ward Wilson, diretor do Rethinking Nuclear Weapons Project e autor de Five Myths About Nuclear Weapons” (Houghton Mifflin Harcour) escreveu para a revista Foreign Policy um artigo intitulado “A Era da Frustração” (The Age of Frustration) um estudo comparado que traça um paralelo vivido no período anterior a Primeira Guerra Mundial (1914-1918) e que nesse ano completou o 100º aniversário.

Nas palavras de Ward Wilson, o período anterior a 1º Guerra Mundial, conhecido também como “Belle Époque” caracterizou-se por uma era de frustração, o ideário de prosperidade social vivido na Europa implicitamente alinhava-se com desejos de ruptura da condição político-social, um “cheiro de queimado no ar”, como ficou classificado por alguns observadores. Nesse sentido, naquele tempo houve crises de política externa, como a crise venezuelana de 1895, a crise marroquina de 1905 e a Guerra Hispano-Americana em 1898, insatisfações econômicas que distanciaram ricos e pobres, período este que caracterizou a revolução industrial.

Concomitantemente a tais ingerências em política externa, as questões abrasivas estão em congruência às posturas sociais, responsáveis pela tomada de decisões contra as frustrações, tensões e dicotomias econômicas que privilegiavam e privilegiam camadas específicas da sociedade. No tempo que antecedeu a eclosão do conflito mundial, a Europa passava por um período com certo grau de calmaria, porém o alto nível de conservadorismo que mesmo trazendo crescimento econômico e riqueza rivalizava com sentimentos de mudanças. O alto grau de concentração de forças e disparidades sociais alimentou um ideário de mudança similar aos vistos nos dias atuais e que é fruto das citações feitas acima.

Ainda segundo as palavras do artigo da Foreign Policy, a visão contemporânea da sociedade ainda não encontrou voz na padronização dos costumes, ou seja, em países cuja tendência é mais liberalizante a profunda diferença entre ricos e pobres dita as regras das vertentes classistas, por outro lado, em atores cuja tendência é menos liberal tal qual é no hemisfério ocidental, a segregação racial, sexual e de credo é vista na ótica do fanatismo, com níveis de intolerância aquém da compreensão.

Ao comparar séculos, em especial o recorte que trata das consequências que levaram a 1a  Guerra Mundial e os dias tortuosos ao qual o mundo vive hoje é importante salientar que o aumento de atos de extrema violência, decapitações no Oriente Médio, sequestros e chacinas de jovens no México, estupros coletivos na Índia, para citar apenas alguns, são modelos da frustração, do ódio, das tensões sociais e de forma pouco coerente de um grito por mudanças, o desejo de sair de teorias utópicas para transformá-las em realismo.

Como ponto conclusivo e ainda fazendo alusão ao artigo, tal como o Concerto da Europa que consolidou um período de estabilidade e paz no século XIX, por meio da consolidação de um equilíbrio de poder gerido pelas grandes potências da época (leia-se Áustria, Prússia, Grã-Bretanha, Império Russo e posteriormente a França) que sufocou qualquer tentativa de mudança, revoltas e rebeliões, possivelmente a OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) fez o mesmo no começo, primeiro para minar o ideário comunista da esfera de influência ocidental e hoje por anseios econômicos concentrando para um pequeno grupo de nações o mesmo direito de impor um equilíbrio de forças sob o espectro da agenda de interesses destes suprimindo qualquer tentativa de alterar os rumos da ordem. Talvez as palavras de Thomas Jefferson possam fluir como reflexão: “Uma pequena rebelião de vez em quando é tão necessária no mundo político como tempestades no físico”.

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Imagem (Fonte):

https://news.bbcimg.co.uk/media/images/72481000/jpg/_72481307_poppy-field.jpg

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Fontes Consultadas:

Ver:

http://www.foreignpolicy.com/articles/2014/11/13/the_age_of_frustration

Ver:

https://docs.google.com/a/ceiri.com.br/document/d/1aXX8ZEekztqzOTIhY5sEiIBbg2YF5NRbvCYt3-cCTk8/edit

Ver:

http://csis.org/publication/2015-global-forecast

Ver:

http://www.diplomatique.org.br/acervo.php?id=3080

Ver:

http://revistaforum.com.br/digital/174/tensao-artico-corrida-pelo-eldorado-de-gelo/

Ver:

https://www.youtube.com/watch?v=jACccaTogxE

Ver:

http://www.politico.com/magazine/story/2014/11/keystone-pipeline-is-a-canard-113102.html?hp=m3#.VHX26IvF8Qw

Victor José Portella Checchia - Colaborador Voluntário

Bacharel em Relações Internacionais (2009) pela Faculdades de Campinas (FACAMP), Especialista em Direito Internacional pela Escola Paulista de Direito (EPD) e Especialista em Política Internacional pelo CEIRI (Centro de Estratégia, Inteligência e Relações Internacionais). Atuou em duas grandes multinacionais do setor de tecnologia e na área de Cooperação Internacional na Prefeitura Municipal de Campinas com captação de recursos externos, desenvolvimento de projetos na área econômica e comercial e buscando oportunidades de negócios para o município. Atualmente é Consultor de Novos Negócios na Avanth International em Campinas/SP. Escreve semanalmente sobre América do Norte com foco nos Estados Unidos.

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