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Erdogan oferece condolências ao povo armênio pelas mortes na Segunda Guerra Mundial

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O primeiro ministro turco Recep Tayyip Erdogan expressou sua mensagem de condolências ao povo armênio pelas mortes durante a Primeira Guerra Mundial” neste último 23 de abril de 2014, véspera da rememoração do aniversário de 99 anos do Genocídio Armênio”. Erdogan utilizou uma linguagem mais conciliatória que qualquer outro Primeiro-Ministro turco anterior[1].

Os comentários de Erdogan representaram a primeira tentativa evidente e manifesta feita por um líder turco de oferecer condolências pelas mortes no evento que alguns historiadores consideram ser o primeiro genocídio do século XX. A prisão e massacre de líderes armênios teve início em Istambul, em 24 de abril de 1915, tendo atingido uma cifra de 2 milhões de mortos, conforme apontam alguns especialistas[2].

A Armênia acusa as autoridades otomanas de então de massacrarem sistematicamente um grande número de armênios e, em seguida, deportar forçosamente tantos mais, incluindo mulheres, crianças, idosos e enfermos, em condições terríveis nas chamadas “marchas da morte[1][3][4].

Erdogan adotou um tom conciliador em seu discurso no último dia 23 de abril, oferecendo condolências da Turquia aos netos de armênios que perderam suas vidas em 1915. “É com esta esperança e convicção que nós desejamos que os armênios que perderam suas vidas no contexto do início do século 20 descansem em paz, e nós transmitimos nossas condolências aos seus netos[1], afirmou.

O Primeiro-Ministro disse também que os eventos de 1915 tiveram “consequências desumanas”. Contudo, Erdogan não chegou a fazer uso do termo genocídio” para descrever os assassinatos em massa[3], demanda frequente dos descendentes dos sobreviventes.

No comunicado, que foi excepcionalmente[1] traduzido para nove línguas, incluindo o armênio, ele descreveu os incidentes da “Primeira Guerra Mundial” como “a nossa dor compartilhada[1]. E continua: “Tendo experimentado eventos que tiveram consequências desumanas – como a realocação – durante a Primeira Guerra Mundial, (isto) não deve impedir que turcos e armênios  estabeleçam compaixão e atitudes mutuamente humanas entre um para o outro[1]. Erdogan afirmou ainda que “milhões de pessoas de todas as religiões e etnias perderam suas vidas na Primeira Guerra Mundial[3].

Ele declarou também ser “inadmissível” que a Armênia faça uso dos eventos de 1915 “como uma desculpa para a hostilidade contra a Turquia[3] transformando o assunto “em uma questão de conflito político[3]. Também repetiu apelos anteriores para o diálogo entre os dois países e solicitações para a criação de uma “Comissão Histórica Conjunta” para investigar acontecimentos que envolveram as mortes[1]– um pedido que tem até sido negado pelas autoridades armênias até o momento[3].

A Armênia tem até agora recusado a oferta de uma Comissão dessa natureza, pois considera o genocídio como um fato histórico estabelecido e acredita que a Turquia faria uso de tal Comissão para pressionar sua própria versão dos acontecimentos[1]. Erdogan reiterou a posição turca de longa data de que a morte de milhões de pessoas em virtude da violência do período deve ser lembrada “sem discriminação quanto à religião ou etnia[1].

Os EUA saudaram a declaração como histórica. O “Porta-Voz do Departamento de Estado dos EUA”, Jen Psaki,afirmou que Washington saudou oreconhecimento público histórico de Erdogan do sofrimento que os armênios experimentaram em 1915[4]. No entanto, o “Presidente da Armênia”,Serzh Sarkisianficou muito menos impressionado com as declarações, afirmando que Erdogan “continua a política de negação absoluta da Turquia[5].Sarkisiandeclarou que “o genocídio armênio está vivo na medida em que o sucessor da Turquia Otomana continua a sua política de negação absoluta. A negação de um crime constitui a continuação direta do próprio crime. Só o reconhecimento e a condenação podem prevenir a repetição de tais crimes no futuro[5]. Sarkisian afirmou ainda que o iminente 100º aniversário do genocídio oferecia à Turquia “uma boa chance de se arrepender e deixar de lado o estigma histórico caso eles façam esforços para libertar o futuro de seu Estado deste fardo tão pesado[4].

Em certo sentido o Primeiro-Ministro se aproxima de um público turco cuja luta pela verdade e justiça está se fundindo com a da diáspora armênia, ao mesmo tempo em que busca restaurar sua credibilidade internacional. Adicionalmente, muitos turcos ecoam as suspeitas dos armênios da diáspora de que a declaração é uma manobra cínica para conquistar benevolência ocidental e para desviar a atenção dos escândalos de corrupção que engolem Erdogan e seu Governo[6], bem como das recentes acusações de autoritarismo e brutalidade policial[7].

A Turquia cortou laços e fechou sua fronteira com a Armênia em 1993 em apoio ao Azerbaijão de língua turca, que então travava uma batalha perdida contra os separatistas armênios de Karabakh.A fronteira permanece fechada desde 1993[1]. No ano passado, o Ministro do Exterior turco, Ahmet Davutoglu chamou os eventos de 1915-1916 de um “erro” durante a primeira visita de alto escalão da Turquia à Armênia em quase cinco anos[3].

A Turquia nega as alegações de armênios de que até 1,5 milhão de pessoas foram mortas e deportadas forçosamente, bem como que isto constituiu um ato de genocídio. Os turcos afirmam que a grande maioria dos mortos foi fruto dos confrontos e da fome durante Primeira Guerra Mundial e os turcos étnicos também sofreram com o conflito[2]. Afirma ainda que entre 300.000 e 500.000 armênios e pelo menos a mesma quantidade de turcos morreram no período[4]. As disputas por reconhecimento e denúncias do negacionismo continuam a atar as relações entre os dois países[1][3].

Dentre as mais de 20 nações[4] que reconheceram formalmente o genocídio armênio perpetrado pelos turcos estão Argentina, Bélgica, Canadá, França, Alemanha, Itália, Rússia, Líbano, Uruguai e Chile. “Reino Unido”, EUA, Israel e outros fazem uso de uma terminologia diferente[3], supostamente em razão da parceria militar destes países com a Turquia[8]. Assim como 43 dos estados norte-americanos, os Estados brasileiros de “São Paulo”, Paraná e Ceará reconhecem o genocídio. Israel e Brasil, na categoria de Estados nacionais, ainda não reconhecem o genocídio armênio[8].

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Imagem (Fonte):

http://www.bbc.com/news/world-europe-27131543

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

http://www.haaretz.com/news/middle-east/1.586910

[2] Ver:

http://www.aljazeera.com/news/middleeast/2014/04/turkey-pm-offers-condolences-armenians-2014423131613513407.html

[3] Ver:

http://www.bbc.com/news/world-europe-27131543

[4] Ver:

http://www.theguardian.com/world/2014/apr/24/armenian-president-turkey-genocide-denial

[5] Ver:

http://www.haaretz.com/news/world/.premium-1.587389

[6] Ver:

http://www.al-monitor.com/pulse/originals/2014/04/turkey-armenia-genocide-reconciliation-erdogan-credibility.html

[7] Ver:

http://www.telegraph.co.uk/news/worldnews/europe/turkey/10347991/Turkish-police-in-Taksim-protests-accused-of-brutality.html

[8] Ver:

http://blogs.estadao.com.br/gustavo-chacra/guia-dos-99-anos-do-genocidio-armenio-vergonhosamente-nao-reconhecido-pelo-brasil/ 

Natalia Nahas Carneiro Maia Calfat - Colaboradora Voluntária

Doutoranda e mestre pelo programa de Ciência Política da USP e diretora de Relações Internacionais do Icarabe, Instituto da Cultura Árabe. Possui bacharelado em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo e pós-graduação em Política e Relações Internacionais pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). É integrante do Grupo de Trabalho sobre Oriente Médio e Mundo Muçulmano na Universidade de São Paulo (GT OMMM).

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