LOADING

Type to search

[:pt]Escândalo de Pedofilia Derruba Arcebispo da Paraíba[:]

Share

[:pt]

Vários documentos legais consignam, atualmente, a proteção dos menores de idade e a própria Igreja Católica afirma a defesa da vida humana em qualquer fase do desenvolvimento biológico, psicológico e social de cada ser humano, nomeadamente os nascituros e os menores de idade. Contudo, o mundo foi surpreendido, em finais do século XX, com a divulgação de casos de abuso sexual sistemático de menores, no seio da Igreja. A crise que, desde então, grassa entre os católicos não tem poupado Dioceses, fronteiras ou, até, hemisférios. O próprio Papa Bento XVI foi atingido por este tipo de escândalo por, enquanto Arcebispo, não ter agido corretamente no caso de um Padre suspeito de pedofilia.

Tentando resolver uma crise inenarrável, sob o ponto de vista da dignidade humana, a Igreja adotou medidas de alcance muito diverso, tais como os acordos extrajudiciais com as vítimas, a remoção de Padres das Dioceses onde praticaram atos pedófilos e, até, o perdão dos Sacerdotes envolvidos em abusos sexuais de menores[1]. Em contraponto com algumas das decisões erráticas assumidas pela Igreja, no passado dia 4 de junho, o Papa Francisco publicou uma Carta Apostólica em forma de “Motu Proprio”, intitulada Como Uma Mãe Amorosa. No documento, se prevê a remoção dos Prelados “por razões graves” que, para o Sumo Pontífice, tomam corpo na “negligência de um Bispo no exercício de seu cargo e, em particular, em relação aos casos de abuso sexual infligido a menores e adultos vulneráveis”.

Em início do mês de julho, o Brasil e a mídia católica italiana[2] foram surpreendidos com o anúncio da demissão de Dom Aldo di Cillo Pagotto, S.S.S.[3], Arcebispo da Paraíba. Conhecido por suas posições conservadoras, o Prelado figura “entre os signatários de uma petição internacional lançada em 2015 por um grupo de cardeais ultraconservadores contra as medidas de abertura do Papa frente às mudanças da família” tradicional. No dia 6 daquele mês, a Rádio Vaticano anunciava, em suas emissões radiofônicas e na Internet, a aceitação, pelo Papa Francisco, da renúncia de Dom Aldo. A decisão do Arcebispo, de acordo com a emissora do Vaticano, foi aceite pelo Vigário de Cristo e teve por base o disposto no parágrafo 2.º do cânone 401 do Código do Direito Canônico, que determina: “O Bispo diocesano que por doença ou por outra causa grave se tiver tornado menos capacitado para cumprir seu ofício é vivamente solicitado a apresentar a renúncia do ofício[4].

O governo da Arquidiocese da Paraíba, sob a responsabilidade de Dom Aldo, teve problemas que se arrastaram até o dia de sua demissão. De acordo com o Jornal da Paraíba, em 2013 ocorreu o pico de tensão entre o Arcebispo e a hierarquia da Igreja. Nesse ano, “um representante do Vaticano veio a João Pessoa com a missão de ouvir os religiosos sobre a realidade vivida na Arquidiocese da Paraíba. Ao todo, 26 padres prestaram depoimentos contrários à conduta de Pagotto”. No ano seguinte, Mariana José Araújo Silva, ligada à Paróquia de São Rafael, acusou Dom Aldo de manter relações íntimas com Miguel, um jovem de 18 anos com deficiência mental, tendo-o denunciado ao Núncio Apostólico, em Brasília. De acordo com Mariana, “o jovem Miguel lhe revelou que ‘outros rapazes também fizeram parte do círculo íntimo do arcebispo, inclusive com visitas íntimas dentro do próprio Palácio do Bispo’. Entre esses jovens estariam Wueslem e Artur[5].

Em início de 2015, “dom Aldo foi a Roma prestar esclarecimentos sobre as investigações envolvendo seu nome” e, alguns meses mais tarde, ele foi suspenso de poder ordenar Padres e Diáconos. Para um clérigo da Paraíba, que não quis ser identificado, a falta de diálogo e a tomada unilateral de decisões, por parte de Dom Aldo, determinaram a animosidade da Cúria relativamente ao Arcebispo: “Ele não ouve ninguém, não consulta quem deve ser consultado. É um bispo que se considera dono da Igreja”. Entrementes, para a vox populi, recaíam sobre o Arcebispo acusações de “ter abrigado em sua diocese padres e seminaristas acusados de abusar sexualmente de menores e expulsos por outros bispos”.

Se Dom Aldo recorreu aos Tribunais e conseguiu que o “material com as denúncias fosse retirado da internet”, o Arcebispo da Paraíba não atingiu o objetivo de evitar o processo canônico, que esteve a cargo de Dom Fernando José Monteiro Guimarães, Bispo do Ordinariado Militar do Brasil. Acusado de acobertar casos de pedofilia, Dom Aldo di Cillo Pagotto deu a conhecer publicamente sua carta de renúncia, endereçada aos Bispos de Alagoas, Paraíba, Pernambuco e Rio Grande do Norte, ao Clero e ao Povo de Deus da Igreja Particular da Paraíba. Na missiva, Dom Aldo justificou o modo como desenvolveu seu múnus sacerdotal, ao longo de 12 anos: “Minha intenção sempre se voltou à promoção da comunhão na caridade, tentando participar de forma proativa na edificação da Igreja fraterna e solidária, e da construção da sociedade com inclusão e justiça social”.

Por outro lado, ao assumir a recepção de Padres e Seminaristas no Palácio Apostólico de João Pessoa, o Arcebispo recorreu à ingenuidade moral e ao neutralismo axiológico para defender a atitude por ele assumida: “Acolhi padres e seminaristas, no intuito de lhes oferecer novas chances na vida. Entre outros, alguns egressos, posteriormente suspeitos de cometer graves defecções, contrárias à idoneidade exigida no sagrado ministério. Cometi erros por confiar demais, numa ingênua misericórdia”. Por fim, arguindo em prol do bem maior, ou seja, a Igreja Universal, Dom Aldo comunicou sua decisão, a Roma e ao mundo: “Creio que o melhor, pelo momento, para a Igreja Universal e para a Igreja Particular da Paraíba, seja a minha renúncia. Ante o desgaste enfrentado, sinto-me no dever de evitar comprometer a Unidade na Caridade, a expressão característica e essencial da Igreja de Jesus Cristo”.

A Igreja Católica enfrenta, atualmente, uma crise séria de legitimidade. Os diversos escândalos que a atingem e, sobretudo, o de pedofilia, exigem a adoção de medidas firmes que consigam pôr fim a um drama tão tenebroso. Por outro lado, ante a crise de confiança que abala esta religião milenar cabe, à sua hierarquia, pôr em prática a afirmação atribuída a Júlio César, relativamente a sua segunda mulher, Pompeia: “Minha esposa não deveria, sequer, estar sob suspeita”. Com efeito, a credibilidade só será restaurada se, com ações efetivas, os Padres prevaricadores forem definitivamente afastados da vida eclesial e se, concomitantemente, a Igreja conseguir eliminar, do seu seio, este problema inominável por parte de seus membros. Na verdade, atualmente, já não é no plano especulativo que o problema de pedofilia, na Igreja Católica, poderá ser erradicado. Mais do que declarações formais, ou promessas de solução futuras se impõe, à Igreja de Cristo, a adoção de um princípio de vida, em voga na Roma Antiga: “Atos, não palavras[6].

———————————————————————————————–                    

ImagemPalavras do Papa Bento XVI às vítimas irlandesas de abusos sexuais e suas famílias: ‘Sofrestes tremendamente e por isto sinto profundo desgosto. Sei que nada pode cancelar o mal que suportastes. Foi traída a vossa confiança e violada a vossa dignidade. Muitos de vós experimentastes que, quando éreis suficientemente corajosos para falar de quanto tinha acontecido, ninguém vos ouvia. Quantos de vós sofrestes abusos nos colégios deveis ter compreendido que não havia modo de evitar os vossos sofrimentos.’, PAPA BENTO XVI, Carta Pastoral do Santo Padre Bento XVI aos Católicos na Irlanda, 19 de março de 2010 (Fonte):

http://citizenpost.fr/wp-content/uploads/2013/12/pedophilie.jpg

———————————————————————————————–                    

Notas:

[1] O Padre Marcial Maciel, fundador dos Legionários de Cristo e do movimento Regnum Christi, foi criminalmente condenado nos EUA por manter relações sexuais com jovens do sexo masculino, menores. O Sacerdote, além de ter uma amante, foi acusado de ter vários filhos ilegítimos. Em 2006, a Congregação para a Doutrina da Fé, tendo em consideração a idade avançada do Padre Marcial e o declínio do seu estado de saúde, decidiu renunciar a uma audiência sobre os alegados abusos sexuais de cerca de 20 adolescentes candidatos aos Legionários de Cristo. A Congregação convidou o Padre Marcial a ter “uma vida reservada, de penitência e oração, abandonando qualquer forma de ministério público”. Cf. REDAÇÃO, “Legionaries of Christ Acknowledge Founder’s ‘Inappropriate’ Behavior”, Catholic News Agency, Denver, CO, 3 de fevereiro de 2009. Disponível online:

http://www.catholicnewsagency.com/news/legionaries_of_christ_acknowledge_founders_inappropriate_behavior/

Dom Józef Wesołowski, Arcebispo polonês, que serviu como Núncio Apostólico para a República Dominicana, Porto Rico e Haiti, foi removido de seu posto pelo Vaticano, no dia 21 de agosto de 2013, após acusações de abuso sexual de menores. O Arcebispo, que deveria ter sido o primeiro Prelado a ser julgado por abuso sexual de menores, sofria de problemas de saúde, cuja natureza não foi revelada, tendo sido hospitalizado em julho de 2015, na véspera da abertura do seu processo judicial pelo Vaticano. Ele foi encontrado morto em sua residência, no Vaticano, em 27 de agosto de 2015, sem ter ido a julgamento. Cf. Rosie Scammell & Stephanie Kirchgaessner, “Józef Wesołowski, Defendant in Vatican’s First Child Abuse Trial, Dies”, The Guardian, Londres, 28 de agosto de 2015. Disponível online:

https://www.theguardian.com/world/2015/aug/28/jozef-wesolowski-defendant-in-vaticans-first-child-abuse-trial-dies

[2] Ver:

Andrea Gagliarducci, “Papa Francesco Accetta la Rinuncia del Vescovo di Paraìba”, ACI Stampa, Cidade do Vaticano, 6 de julho de 2016. Disponível online:

http://www.acistampa.com/story/papa-francesco-accetta-la-rinuncia-del-vescovo-di-paraiba-3734

REDAÇÃO, “Ha Insabbiato Casi di Pedofilia, Papa Rimuove Arcivescovo Brasiliano”, Il Tempo, Roma, 6 de julho de 2016. Disponível online:

http://www.iltempo.it/adn-kronos/2016/07/06/ha-insabbiato-casi-di-pedofilia-papa-rimuove-arcivescovo-brasiliano-1.1556199

REDAÇÃO, “‘Sigo o Exemplo de SS. o Papa Bento XVI, Dando o Espaço Àquele que Deus Enviar para o Bem de Sua Igreja’, Escreveu em Carta o Arcebispo Emérito da Paraíba”, Zenit, Roma, 6 de julho de 2016. Disponível online:

https://pt.zenit.org/articles/papa-aceita-renuncia-do-arcebispo-da-paraiba-dom-aldo-pagotto/

[3] Ver:

Congregação do Santíssimo Sacramento.

[4] Ver:

AAVV (Notas, comentários e índice analítico do Pe. Jesús Hortal, SJ), Código de Direito Canônico, 22.ª ed. – revista e ampliada, São Paulo, Edições Loyola Jesuítas, 2013, trad. da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, p. 213.

[5] Em sua carta de renúncia, Dom Aldo se defendeu destas acusações afirmando: “Um blog divulgou carta difamatória, envolvendo o arcebispo e vários sacerdotes, arbitrariamente expostos ao escárnio público. As redes sociais encarregaram-se de espalhar comentários peregrinos e duvidosos. A presumida autora da carta responde em foro criminal”. O Dr. Iarley Maia, advogado de Mariana José Araújo Silva, afirmou a respeito do tratamento dado à sua cliente: “Ela foi muito pressionada, caluniada, difamada e até desrespeitada em sua honra. Colocaram em dúvida a sanidade mental dela. Foi preciso os exames de sanidade mental para comprovar que isso não existia”.

[6] Ver:

“Venientibus iis Syracusas Scipio res, non verba ad purgandum sese paravit.”, Titus Livius, Ab Urbe Condita Libri, 29.22.

[:]

J. M. de Barros Dias - Colaborador Voluntário Sênior

É Licenciado em Filosofia pela Universidade do Porto (Portugal) e Doutor em Filosofia pela Universidade de Évora (Portugal). Professor Associado da Universidade de Évora, reside em Curitiba desde início de 2012, onde é Professor na Faculdade São Braz e na Faculdade Inspirar. É autor de doze livros e mais de cem artigos científicos nas áreas da Ética, Filosofia da Educação e Filosofia Social e Política.

  • 1

Deixe uma resposta

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

×
Olá!