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[:pt]Espanha e os desafios do “novo” Presidente[:]

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Após uma longa disputa que começou em dezembro de 2015, e depois de duas eleições – nas quais sempre ganhou o mesmo candidato –, o Parlamento espanhol finalmente alcançou um acordo e nomeou o reeleito Mariano Rajoy, do Partido Popular, como Presidente da Espanha.

A Espanha foi um dos países mais afetados pela crise financeira mundial, que começou em 2008 e se alastrou pelo mediterrâneo. Mariano Rajoy chegou à Presidência em 2011, com a promessa de restaurar o crescimento da economia, bem como recuperar o equilíbrio fiscal do país, e suas promessas se concretizaram com uma recuperação do crescimento econômico (atualmente Espanha cresce acima do índice da União Europeia), mas com um elevado custo social: a pobreza aumentou 28,6%; a renda das famílias caiu pela metade; mais de 400.000 pessoas foram despejadas de suas casas; os contratos fixos praticamente já não existem; a terceirização causou a precarização do trabalho e uma redução salarial de 10% ao ano.

O crescimento da Espanha se deve principalmente à uma série de políticas de austeridade que afetou serviços essenciais, tais como a saúde, a segurança e a educação. O PIB aumentou mais de 3% ao ano desde a superação da crise, no final de 2014, mas a qualidade de vida despencou a um nível semelhante ao existente nos anos 70.

O impacto social das políticas de Mariano de Rajoy ficou refletido nas urnas e, mesmo com sua vitória nas duas últimas eleições, o Partido Popular perdeu apoio de outros aliados e também a maioria de parlamentares na Câmara, havendo, atualmente, uma forte oposição formada pelos partidos de esquerda PSOE (Partido Socialista Obreiro Espanhol) e Podemos, o que, sem dúvidas, será um grande desafio para poder aprovar novas políticas e cortes.

A Espanha enfrenta uma profunda divisão social e política. A crise da Catalunha coloca em uma posição delicada os principais órgãos do Estado e questiona a unidade territorial e a soberania do país.  Por outro lado, a instabilidade na União Europeia (UE) começa a cobrar o seu preço e Bruxelas já anunciou que a Espanha deve reduzir ainda mais os gastos e aplicar novas medidas de austeridade, com o intuito de cumprir com as metas fiscais do Bloco e pagar as ajudas cedidas pela União, como forma de contenção da crise financeira.

Mariano Rajoy afirmou que seguirá o receituário da UE, não havendo grandes mudanças em sua equipe de governo, salvo pequenas intervenções em pontos críticos do mandato anterior.

Em relação aos diversos crimes de corrupção nos quais o Partido foi involucrado, grande parte dos políticos do PP continuam atuando e as investigações seguem lentas e pouco frutíferas. A Espanha – como muitos países ibero-americanos – é um exemplo do paradigma que enfrentam muitas nações e da crescente polarização política da sociedade. O resultado de um crescimento econômico rápido, porém pouco inclusivo, foram as elevadas despesas públicas, sem a transformação social necessária para avançar no processo de desenvolvimento.

A espanhois não souberam aliar o crescimento e a transformação demográfica pela qual passava o país, gerando um descompasso entre a estrutura social e os gastos do Governo que foi agravando com o tempo. O país realizou cortes em áreas prioritárias e acabou condenando sua já reduzida população jovem e ativa a emigrar para outros países, aumentando ainda mais o desequilíbrio fiscal do país a longo prazo.

As pressões internacionais e a internacionalização tardia de sua economia afetaram seu posicionamento no tabuleiro geopolítico e, ainda que seja a 4ª maior economia da União Europeia, possui pouca expressão nas decisões do grupo.

A Espanha detém um papel relevante como investidor na América Latina, o que, por um lado, pode resultar em um ponto de equilíbrio econômico, mas, por outro, demanda maior autonomia para o Governo espanhol em relação a União Europeia, principalmente em relação a acordos e negociações.

Mariano Rajoy deve agora enfrentar não somente os problemas atuais da Espanha, como também promover as correções necessárias para que o país possa voltar aos trilhos, pois, mesmo que atualmente a economia esteja equilibrada, o desemprego segue elevado (acima de 20%), a população jovem é cada vez mais reduzida, a idade média dos espanhóis supera os 40 anos e já não existem muitos setores em que se pode cortar gastos, sem mencionar que todas essas políticas irão refletir na Espanha nos próximos anos.

A Espanha pode ser o preâmbulo do que irá acontecer com os países da América Latina que precisam urgentemente promover políticas compatíveis com sua evolução demográfica, mas que, de momento, atuam somente com o objetivo de gerar resultados a curto e médio prazos.

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ImagemMariano Rajoy” (Fonte):

http://www.elpolitico.com/wp-content/uploads/2016/08/Mariano-Rajoy-2.jpg

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Wesley S.T Guerra - Colaborador Voluntário Sênior

Atua como consultor internacional na área de Paradiplomacia para o Escritório Exterior de Comércio e Investimentos do Governo da Catalunha. Formado em Negociações e Marketing Internacional pelo Centro de Promoção Econômica de Barcelona, Bacharel em Administração pela Universidade Católica de Brasília, especialista pós-graduado em Ciências Políticas e Relações Internacionais pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo – FESPSP, MBA em Novas Parcerias Globais pelo Instituto Latinoamericano para o Desenvolvimento da Educação, Ciência e Cultura e mestrando em Polítcias Sociais em Migrações na Universidad de La Coruña (España). Fundador do thinktank NEMRI – Núcleo de Estudos Multidisciplinar das Relações Internacionais. Especialista em paradiplomacia, acordos de cooperação e transferência acadêmica e tecnológica, smartcities e desenvolvimento econômico e social. Morou na Espanha, Itália, França e Suíça.

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