LOADING

Type to search

ESPECIAL PROJETO FX-2 – SARKOZY ENTENDEU O ESTILO LULA

Share

As parcerias entre França e Brasil se estendem ao longo da história e não surpreende que ambos os países tenham firmado acordo bilionário para aquisição de equipamentos militares.

A título de exemplo, podem ser citadas duas parcerias que ocorreram no início do século XX, uma também de caráter militar e outra de caráter cultural-educacional. A primeira foi a Missão Francesa de instrução e organização do Exército Brasileiro, que começou em 1919 e trouxe em seu bojo um modelo de organização militar que foi implantado e renovou, por determinado período, a concepção sobre uma força de terra no Brasil.

O segundo caso foi à criação da Universidade de São Paulo, fundada em 25 de janeiro de 1934, com o intuito de fazer frente à direção cultural que vinha do Rio de Janeiro, no momento em que se lutava pelo encerramento do processo transitório iniciado na “Revolução de30”. Nesse ponto, os franceses aqui estiveram para transmitir o que havia de vanguarda nas discussões e estudos realizados na Sorbonne (apelido da antiga Universidade de Paris e hoje usada para se referir as quatro atuais instituições sucessoras). Era uma forma de tentar restaurar a importância de São Paulo no cenário político nacional, principalmente diante da derrota da “Revolução Constitucionalista de1932”. Em síntese, citando apenas esses dois exemplos, mostra-se que não é novidade a existência de parceria ampla entre os dois países.

A questão atual, no entanto, precisa ser vista com cautela, pois para vários técnicos e especialistas, se não houve surpresa, trouxe preocupação. Há aspectos diplomáticos, estratégicos, políticos e técnicos que precisam ser considerados no que foi anunciado pelo presidente da República do Brasil, Luis Inácio Lula da Silva, no meio da tarde do dia “7 de setembro”, dia da “Independência do Brasil” e, certamente, durante bom tempo, o “Dia da França no Brasil”.

Em termos diplomáticos, deve-se destacar a maestria dos franceses. Eles certamente fizeram um trabalho exemplar de análise de inteligência para realizar a dança diplomática. Tiveram informações e conhecimentos certos sobre os traços de personalidade dos líderes brasileiros, sobre a forma de negociação que é típica do Brasil, sobre a nossa tradição em política externa e trabalharam para não permitir que, mesmo estudos técnicos, encobrissem e trouxessem barreiras à negociação política.

É notório que, contrariamente aos demais líderes dos países que concorriam para fechar o acordo comercial militar, o presidente francês, Nicolas Sarkozy, ficou constantemente ao lado do presidente brasileiro, quase demonstrando que alguém lhe dizia que a diplomacia brasileira na atualidade é uma ‘diplomacia presidencial”, concluindo que não importaria a existência daqueles que estão entre os mais bem qualificados quadros técnicos profissionais em diplomacia do mundo, pois para o baile diplomático brasileiro atual o essencial é o estilo, a negociação direta e os desejos do Chefe de Estado do Brasil. Foi, provavelmente, na questão do desejo que o presidente francês agiu de forma tão perfeita.

Observando-se os passos, reuniões e pronunciamentos feitos ao longo do semestre, foi perceptível que o francês acenou para todos os pedidos políticos do presidente Lula. Primeiramente, Sarkozy afirmou que o Brasil deve fazer parte do Conselho de Segurança da ONU (Organização das Nações Unidas), com assento permanente. Depois, concordou com as reivindicações brasileiras de que os brasileiros deveriam entrar no G-8 e, diante da contradição da proposta, percebeu que o ideal é a expansão do Grupo para uma configuração de G-12, G-14 etc. Aceitou inclusive as declarações do ministro das Relações Exteriores brasileiro, Celso Amorim, de que o G-8 estava fadado à morte e deveria ser substituído em importância pelo G-20, algo que vai contra qualquer tentativa consistente de organização de um sistema internacional.

A lógica das relações internacionais não permite que haja tantas grandes potências, determinando as regras do jogo. À história nos demonstra que onde houve pluralidade tão grande de atores determinantes a tendência era de que os médios produzissem micro corridas armamentistas, crescessem e lutassem permanentemente pela alteração do sistema, produzindo instabilidades constantes, até gerar um abalo na estrutura internacional. Apesar disso, ou sabedor de que a reivindicação de ampliação do G-8 pode estar apenas no plano retórico, bem como as reivindicações brasileiras para entrar no Conselho de Segurança da ONU, Sarkozy concordou com Lula.

Mesmo quando ficou claro que ambos tinham posicionamentos distintos e antagônicos em relação ao Irã, o presidente francês concordou com o brasileiro, demonstrando que tinha consciência de que reivindicações tão densas estão mais no plano do discurso para consumo interno, do que serem objetivos para realização concreta.

Ou melhor, sabendo que para projetos de governo, para projetos políticos partidários, ou para projetos pessoais vale a propaganda para mostrar ao povo a luta sobre as tentativas para dar ao país uma projeção diferenciada na história.

Em política se sabe que a publicidade sobre algo, vale tanto quanto a coisa propriamente dita. Mas, este é um problema que não diz respeito ao francês, por isso ele fez a sua parte. Assim, Sarkozy contemplou plenamente os desejos do presidente do Brasil em sua diplomacia presidencial, independente de ela produzir ou não os frutos desejados, ou adequados para o país..

Na parte estratégica, alguns especialistas demonstraram a sua preocupação numa questão chave, que sempre foi batida por aqueles que criticavam o alinhamento automático do Brasil com os EUA: a exclusividade na parceria técnico-militar com um único ator.

Um acordo tão amplo, com um único parceiro, coloca o Brasil numa dependência similar àquela que se dizia que havia com os EUA e sofria tantas críticas. Além disso, desfaz todas as reivindicações de diversificação de parcerias que foram feitas pelos manifestantes que emergiram ao longo dos últimos vinte anos no Brasil. Ademais, corre-se o risco de não ter como retroceder, caso se perceba a falha do acordo firmado.

Nesse quesito é que se deve levantar a questão técnica. De acordo com os pronunciamentos dos especialistas civis e militares, foi acertada a escolha do submarino francês (Scorpène) para a construção de quatro naves convencionais e uma nuclear, pois está dentro do desejado pela Marinha do Brasil, haverá transferência de tecnologia, será construída uma plataforma no Rio de Janeiro e sabe-se que os franceses são um dos poucos países do mundo que dominam tal conhecimento. Ou seja, a proposta contempla de forma plena as necessidades e os projetos das Forças Armadas brasileiras para preencher substantivamente a Estratégia Nacional de Defesa (END), adotando-se a perspectiva da Marinha. Apesar das manifestações contrárias, as críticas foram apagadas com as respostas técnicas apresentadas.

Além disso, o valor de € 6,7 bilhões já era suficiente para se imaginar que deixaria qualquer envolvido na negociação satisfeito. Ademais, também foram firmados acordos para produção conjunta de 51 helicópteros EC 725, no valor de € 1,9 bilhões. Supunha-se que o total de € 8,6 bilhões, algo em torno de R$ 22,5 bilhões, no câmbio atual, não traria problemas no caso da recusa da outra negociação, a que envolvia a aquisição dos trinta e seis caças de ataque, calculando-se que o montante deste projeto será de algo em torno de € 2,78 bilhões.

Diante da dimensão dos valores envolvidos é que os analistas se surpreenderam. Após os franceses terem conseguido sucesso tão amplo, não havia a necessidade de antecipar para o dia 7 de setembro, o anúncio de uma concorrência que ainda podia esperar a verificação e análise dos relatórios técnicos feitos pelos profissionais da Força Aérea Brasileira (FAB), que fizeram extensos questionários sobre todos os envolvidos, os quais seriam enviados ao presidente, para que este observasse com cautela e se pronunciasse na data limite prevista, dia 23 de outubro de 2009, levando em conta critérios diferentes dos políticos.

As declarações feitas pelo presidente brasileiro ao longo da semana davam indícios de que se caminhava para este desfecho, mas as evasivas nas respostas abriam espaços suficientes para se pensar que a prudência o levaria a esperar a data certa para fazer a declaração, pois muitos são os dados que preocupam na escolha do caça francês.

Em princípio, todos os concorrentes são caças de ponta, não era isso que os analistas discutiam. Dentre os três que estavam na reta final, quase todos anunciavam uma ligeira superidade do F/A 18 super hornet, da norte-americana Boing, mas pesava contra ele o fato de não haver transferência de tecnologia dentro do exigido, nem confiança de que ela poderia ocorrer, mesmo que os norte-americanos assinassem o Acordo nestes termos. Por isso, já se tomava o concorrente dos EUA como fora do páreo.

Os dois que ficaram tiveram como principal argumento aquele que permitiria a transferência total do pacote tecnológico. Apesar das declarações do presidente Lula de que a França era o único país que aceitava a transferência, ambos (franceses e suecos) aceitaram as exigências, ou seja, os dois acordaram com a produção conjunta, a transferência tecnológica total e, no caso do caça sueco, o Gripen, fabricado pela empresa SAAB, estava acertado que haveria a transposição da fábrica para o Brasil, com o intuito de desenvolver o caça em território brasileiro, entrar no mercado sul-americano e, posteriormente, no mercado global. Ontem, foi anunciado que os franceses também pretendem isso, mas a anterioridade dos suecos é bem maior.

Assim, o anúncio da vitória do Rafale, apesar de Lula ter reiterado diversas vezes que lhe agradava o concorrente francês, surpreendeu porque deixou de lado aspectos como ser a primeira vitória deste caça em uma concorrência internacional, em sete disputas ocorridas no mundo. Também ignorou os pedidos de espera feitos pelos técnicos, antes de avaliação conclusiva da capacidade do caça sueco, o Gripen, que vários analistas consideram os mais flexível em termos de adaptação para as necessidades brasileiras.

A conclusão a que chegaram muitos dos observadores é de que o fator político triunfou sobre a avaliação técnico-profissional e talvez o Brasil sofra com isso em futuro médio.

O consolo fica para os profissionais militares que, ao menos, terão um equipamento para trabalhar e, apesar de possíveis usos políticos que serão feitos acerca desse momento histórico, acabará trazendo benefícios. Infelizmente, não tantos quanto traria se apenas as razões profissionais e de Estado fossem as norteadoras da parceria.  

Tags:
Daniela Alves - Analista CEIRI - MTB: 0069500SP

Mestre em Medicina pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Bacharel em Relações Internacionais, jornalista e Especialista em Cooperação Internacional. Atualmente é CEO do Centro de Estratégia, Inteligência e Relações Internacionais (CEIRI) e Editora-Chefe do CEIRI NEWSPAPER. Vencedora de vários prêmios nacionais e internacionais da área dos Direitos Humanos. Já palestrou em várias cidades e órgãos de governo do Brasil e do Mundo sobre temas relacionados a profissionalização da área de Relações Internacionais, Paradiplomacia, Migrações, Tráfico de Seres Humanos e Tráfico de órgãos. Trabalhou na Coordenadoria de Convênios Internacionais da Secretaria Municipal do Trabalho de São Paulo e na Assessoria Técnica para Assuntos Internacionais da Secretaria do Emprego e Relações do Trabalho do Governo do Estado de SP. Atuou como Diretora Executiva Adjunta e Presidente do Comitê de Coordenação Internacional da Brazil, Russia, India, China, Sounth Africa Chamber for Promotion an Economic Development (BRICS-PED).

  • 1

Deixe uma resposta

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

×
Olá!