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Estado Islâmico: ações, projetos e políticas contra a barbárie

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Conforme vem sendo apresentado por analistas na mídia, a rotina de barbárie imposta pelo autoproclamado Estado Islâmico (ou Daesh) nas linhas de combate na Síria e no Iraque já ultrapassou os limites de eventuais contornos diplomáticos em vista do alto grau de desprezo pela vida humana e pela forma degradante como a estrutura política do grupo insurgente interfere no cotidiano dos territórios ocupados.

Com uma proposta de implementar a Sharia, Lei Islâmica sem os preceitos interpretativos do Alcorão, abrem-se precedentes para adoção de doutrinação social que insira punições de lesa humanidade reprováveis e passíveis de penalidade de acordo com as normas do Direito Internacional definidas pelo Tribunal Penal Internacional (TPI), enquadrando as ações do Estado Islâmico do Iraque e do Levante (Islamic State of Iraq and al-Sham – ISIL, na sigla em inglês) em qualquer umas das denominações de crimes internacionais, ou seja, Genocídio, Crimes contra a Humanidade, Crimes de Guerra e Agressão.

No curso das ações, o autoproclamado Califado Islâmico idealizado por Abu Bakr Al Baghdadi já conseguiu enraizar nas regiões ocupadas um modelo fundamentalista que não cederá tão facilmente aos planos ocidentais de enfraquecimento das linhas de combate. Até o presente momento, a retórica da coalizão liderada pelos Estados Unidos, aliada as poucas incursões aéreas e ao suporte ao Exército Curdo, conhecido como Pershmergas, pouco fez para que o EI retrocedesse, apesar das pesadas baixas. A ideologia wahhabita do Estado Islâmico, que agrega ainda exploração de imagens e edições bem elaboradas como propaganda de recrutamento, dá a dimensão de que a organização está bem preparada para suportar as pressões internacionais por um longo período.

Para analistas militares ouvidos pelo New York Times (NYT), as últimas semanas podem indicar uma reviravolta do conflito, uma vez que forças iraquianas, formadas majoritariamente pela etnia xiita, curdos e o apoio aéreo da coalizão norte-americana fez retroceder os avanços do EI, eliminando combatentes, destruindo equipamentos e interrompendo as comunicações nas cadeias de comando, impedindo, assim, maiores movimentos.

Dentro dessa ótica, oficiais militares americanos deslocados para o Iraque confiam que o Exército Iraquiano repaginado e novamente organizado estaria pronto para grandes operações visando retomar o controle das regiões dominadas pelos insurgentes nos próximos 4 a 8 meses. As forças de segurança já obtiveram ganhos nas cidades de Baiji e Samarra, cortando apoio pela principal estrada que liga a Mossul, cidade que concentra grandes bacias petrolíferas que servem como uma das fontes de financiamento para investimentos no conflito.

Concomitantemente aos feitos até aqui produzidos, mas que ainda carece de maior assertividade por parte da coalizão internacional, alguns pontos levantados devem ser agregados como parte de um plano estrutural maior para eliminar os combatentes do ISIL e toda sua estrutura de comando. Nesse sentido, como vem sendo identificado nas análises apresentadas na mídia, é fundamental:

  1. Intensificar os ataques aéreos. A campanha de bombardeios promovidos pela coalizão internacional (formada oficialmente por Estados Unidos, Grã Bretanha, França, Arábia Saudita, Bahrain, Qatar, Jordânia e Emirados Árabes Unidos) deve superar os até agora contabilizados 632 ataques aéreos, tendo caído apenas 1.700 munições no Iraque e na Síria. Bombardeios desconexos não irão promover qualquer resultado duradouro.
  2. Encerrar a proibição de tropas em solo. O presidente Obama não indicou a permissão de que Forças Especiais (isso não significa que as mesmas já não estejam atuando) e Controladores Aéreos Avançados sejam incorporados na massa militar que combate os milicianos do Estado Islâmico. A falta de apoio nesse nível dificulta a precisão nos bombardeios. Com uma participação terrestre mais efetiva, a eficácia nos ataques seria mais relevante e com resultados mais rápidos, sem contar a diminuição na incidência de “fogo amigo”.
  3. Aumentar o tamanho do engajamento dos Estados Unidos. Segundo dados militares, a força atual é de 2.900 homens, considerada inadequada pela dimensão e complexidade do conflito. De acordo com o General Anthony Zinni, estima-se como adequado tropas em torno de 10 mil a 25 mil homens, incluindo Forças Especiais, Controladores Aéreos, em parceria com efetivo local, bem como logística, inteligência, seguranças e contingentes aéreos em apoio.
  4. A aliança com todo o Iraque e facções moderadas na Síria. Analistas de política internacional acreditam que seria de grande valia trabalhar ao lado dos Pershmergas, tribos sunitas, Exército Sírio Livre e elementos das Forças de Segurança Iraquianas (ISF, na sigla em inglês). Os Estados Unidos devem aliar-se a tribos sunitas com estabelecimento de bases operacionais na Província de Anbar e aumentar a coordenação com o Exército Sírio Livre, além de planos para treinar os combatentes na Síria.
  5. Comandos de Operações Especiais (Joint Special Operations Command – JSOC, na sigla em inglês). Unidades de SEALS e Delta Force foram fundamentais na segmentação da rede Al Qaeda no Iraque. Esses Comandos Especiais responderam pela eficiência em reunir informações, interrogar prisioneiros e ações clandestinas. O deslocamento dessas unidades novamente para o Oriente Médio auxiliaria na mesma temática passada.
  6. Participação turca na guerra. O presidente Obama deve buscar maior apoio de Ancara na campanha militar. O Exército Turco poderia empurrar o ISIL a ponto de fomentar zonas de segurança para os membros moderados da Oposição síria. Porém, a participação turca esbarra no desejo do presidente Recep Tayyip Erdogan de que Washington cumpra o compromisso de derrubar o presidente sírio Bashar al-Assad, já que Ancara o considera como o precursor das instabilidades na região.
  7. Mobilizar tribos sunitas. Tribos sunitas tanto em território iraquiano quanto sírio tendem a apoiar tacitamente o Estado Islâmico, ao menos não resistir as ingerências do grupo insurgente. Os sunitas iraquianos são ressentidos com os Estados Unidos por apoiar a dominação xiita em Bagdá através do antigo primeiro-ministro Nouri al-Maliki. O novo primeiro-ministro Haidar al-Abadi, que também é xiita, porém mais moderado e disposto a unir novamente os povos no Iraque, pode reverter a situação, senão colocar as tribos sunitas subordinadas novamente aos desejos dos xiitas de Bagdá.

A possibilidade de uma engenharia política com acordos de autonomia dentro da estrutura federal, tal como é contemplada pelos curdos ao norte, pode facilitar a inserção das tribos na luta contra o Califado autoproclamado.

Todavia, críticas ao modelo deverão surgir à medida que tal estratégia se torne demasiadamente cara e empurraria novamente Washington para uma nova guerra terrestre no Oriente Médio. Segundo dados extraoficiais, o custo financeiro com o destacamento de 10 mil soldados para região poderia alcançar a soma de US$ 10 bilhões/ano, além das potenciais baixas nas forças militares. Por outro lado, a estratégia minimalista tem escassa possibilidade de sucesso, aumentando o potencial de sucesso do ISIL e abrindo precedente para expandir suas operações para regiões como Líbano, Jordânia, Arábia Saudita, além do Sudeste Asiático.

O envolvimento norte-americano mais acentuado, juntamente com Turquia, tribos sunitas iraquianas e sírias poderia suavizar a possibilidade de uma incursão terrestre sem precedentes, ao passo que se mantiver a linha estratégica, os danos à Segurança Internacional serão cada vez maiores.

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Fonte (Imagem)

http://newshour-tc.pbs.org/newshour/wp-content/uploads/2014/09/IS_beheading.jpg

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Fontes Consultadas:

Ver:

http://www.nytimes.com/2015/02/04/opinion/isis-is-losing-in-iraq-but-what-happens-next.html?smprod=nytcore-iphone&smid=nytcore-iphone-share&_r=1

Ver:

https://csis.org/publication/war-against-islamic-state-challenge-civilian-casualties

Ver:

https://news.vice.com/article/propaganda-photos-show-the-islamic-state-allegedly-redistributing-un-aid

Ver:

http://thediplomat.com/2015/02/islamic-state-goes-official-in-south-asia/

Ver:

http://www.cfr.org/iraq/defeating-isis/p33773

Ver:

http://blogs.cfr.org/danin/2015/02/03/jordans-isis-challenge/

Ver:

http://www.cartacapital.com.br/internacional/execucao-de-piloto-e-serio-desafio-a-jordania-2489.html

Ver:

http://www.revistaforum.com.br/blog/2015/01/crime-e-castigo-existe-alguma-diferenca-entre-arabia-saudita-e-estado-islamico/

Ver:

http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2015/02/150204_estadoislamico_analise_hb

Ver:

http://internacional.estadao.com.br/noticias/geral,coalizao-para-reagir-ao-estado-islamico-esta-sob-avaliacao-imp-,1629772

Victor José Portella Checchia - Colaborador Voluntário

Bacharel em Relações Internacionais (2009) pela Faculdades de Campinas (FACAMP), Especialista em Direito Internacional pela Escola Paulista de Direito (EPD) e Especialista em Política Internacional pelo CEIRI (Centro de Estratégia, Inteligência e Relações Internacionais). Atuou em duas grandes multinacionais do setor de tecnologia e na área de Cooperação Internacional na Prefeitura Municipal de Campinas com captação de recursos externos, desenvolvimento de projetos na área econômica e comercial e buscando oportunidades de negócios para o município. Atualmente é Consultor de Novos Negócios na Avanth International em Campinas/SP. Escreve semanalmente sobre América do Norte com foco nos Estados Unidos.

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