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[:pt]Estados Unidos anunciam campanha aérea aberta contra Estado Islâmico na Líbia[:]

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Na última segunda-feira, 1o de agosto, militares norte-americanos realizaram dois ataques aéreos na cidade Líbia de Sirte contra combatentes do Estado Islâmico (EI). Autoridades do Pentágono afirmaram que esta será uma campanha contínua até que o grupo seja expulso da cidade, da qual tomou controle no ano passado. O Pentágono declarou que o Governo de Acordo Nacional da Líbia (GAN), do primeiro-ministro Fayez Serraj, apoiado pelo Ocidente e pela ONU, solicitou os ataques. O chamado Governo de Unidade é um dos três Governos concorrentes que reivindicam legitimidade no país.

Os bombardeios norte-americanos ocorreram em apoio a milícias pró-GAN, buscando retomar a estratégica cidade portuária de Sirte. Posições do Estado Islâmico foram atingidas por aviões tripulados e drones, que teriam lançado “ataques de precisão” contra tanques e outros veículos do grupo na cidade situada ao norte da Líbia. Após o início das ações, combatentes legalistas foram capazes de avançar em direção ao bairro central da cidade, Al-Dollar, além dos norte-americanos, forças britânicas fornecem apoio logístico e de inteligência para a operação.

Desde 2011, Forças Especiais norte-americanas já realizavam ataques aéreos contra indivíduos e alvos específicos do Estado Islâmico na Líbia, e tem sido relatado que, desde dezembro, alguns soldados estadunidenses e europeus aconselhavam e construíam laços com combatentes locais. Aviões americanos atacaram um campo de treinamento do EI em Sabratha, em fevereiro de 2016, e uma figura sênior do grupo, em novembro de 2015. Ataques contra alvos da Al-Qaeda no país eram registrados desde 2011, quando a OTAN realizou uma guerra aérea contra o ditador Muammar Gaddafi. Contudo, as operações anunciadas pelo Departamento de Defesa dos Estados Unidos, no dia 1o de agosto, marcam a primeira intervenção sustentada dos norte-americanos – em coordenação com forças terrestres locais – contra o afiliado líbio do Estado Islâmico. O anúncio da campanha é significativo, pois, na prática, é o primeiro envolvimento direto dos EUA na batalha que se desdobra na Líbia contra o EI e uma expansão significativa dos seus esforços contra o grupo para além da Síria e do Iraque, em direção ao norte da África.

Confirmando a colaboração com o Governo líbio, o Porta-Voz do Pentágono, Peter Cook, declarou que “o objetivo do GAN é eliminar o ISIL de Sirte e do país e nós estaremos trabalhando em estreita colaboração com eles, e eles vão determinar o ritmo e o sucesso desta campanha, sem dúvida (…). Eles (GAN) têm as suas forças no terreno realizando seus esforços, e isso (campanha aérea) será em apoio a seus esforços”. Já o primeiro-ministro Serraj declarou que os ataques não irão além de Sirte e seus arredores, acrescentando: “Este é o momento da comunidade internacional cumprir suas promessas ao povo líbio”.

O Governo de Acordo Nacional foi o resultado de um acerto mediado pela ONU, assinado em dezembro de 2015, para encerrar um conflito entre dois governos rivais e grupos armados que os apoiavam. Contudo, o GAN está enfrentando dificuldade para impor sua autoridade e ganhar o apoio de facções no leste do país, sobretudo em meio às milícias fortalecidas com a queda de Gaddafi – algumas jihadistas e aliadas ao Estado Islâmico. São dois governos em disputa: um em Tobruk, no leste, e outro em Trípoli, no oeste, e a ONU estabeleceu um terceiro, que não tem poder sobre os outros dois. Assim, apesar do estabelecimento do Governo interino, a Líbia vive um caos, com dois Governos, infinitas milícias e o avanço do Estado Islâmico.

Dois dias após o anúncio do Pentágono sobre a campanha aérea aberta contra o EI no país, um carro-bomba matou pelo menos 20 pessoas em Benghazi. O Conselho Revolucionário da Shura de Benghazi, uma coalizão que inclui islamitas, teria reivindicado o ataque, disse uma fonte militar líbia.

Desde o anúncio, até quarta-feira, dia 3 de agosto, 5 ataques aéreos já tinham sido lançados por forças norte-americanas, com facções líbias apoiadas pelos EUA continuando sua luta contra o EI. Os ataques ocorrem quase cinco anos após os EUA ajudarem a depor Muammar Gaddafi em uma revolução popular que se transformou em uma guerra civil e de Washington ter participado dos ataques aéreos em 2011 para impor uma zona de exclusão aérea no país, derrubando o Ditador.

Em entrevista realizada em abril, Obama declarou que a intervenção “não funcionou”. Durante a Primavera Árabe, a morte de Gaddafi, nas mãos dos revolucionários locais, deixou um vácuo que o Estado Islâmico tem procurado preencher. A falta de planejamento para o rescaldo da derrubada do mandatário foi o que Barack Obama chamou de “pior erro” de sua Presidência.

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ImagemEmblema do Governo de Acordo Nacional Líbio” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Government_of_National_Accord

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Natalia Nahas Carneiro Maia Calfat - Colaboradora Voluntária

Doutoranda e mestre pelo programa de Ciência Política da USP e diretora de Relações Internacionais do Icarabe, Instituto da Cultura Árabe. Possui bacharelado em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo e pós-graduação em Política e Relações Internacionais pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). É integrante do Grupo de Trabalho sobre Oriente Médio e Mundo Muçulmano na Universidade de São Paulo (GT OMMM).

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