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Os Estados Unidos da América (EUA) e outras potências ocidentais têm pressionado o Governo da Turquia para que este assuma uma posição ofensiva e auxilie as forças curdas em Kobane (cidade síria na fronteira com a Turquia) contra o Estado Islâmico (EI)[1]. Entretanto, apesar da pressão ocidental, os turcos têm se mostrado receosos em entrar no conflito em razão das suas divergências internas com os curdos, que representam 20% da população do total de 75 milhões[2], e buscam a criação do seu próprio país, o Curdistão.

A Turquia possui uma posição geoestratégica no cenário internacional, uma vez que liga a Europa à Ásia. Sendo assim, é uma importante rota para o comércio e o abastecimento de energia mundial e também possui papel relevante na securitização regional. Nesse aspecto, é válido ressaltar que a Turquia aderiu à Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) em 1952, três anos após a sua criação, se mantendo como um tradicional aliado do Ocidente na região.

Além disso, é preciso destacar que a Turquia se manteve distante dos assuntos relacionados ao Oriente Médio durante a maior parte do século XX. Esse posicionamento passou a mudar na última década, quando o Partido da Justiça e Desenvolvimento subiu ao poder e o Governo vem assumindo laços mais estreitos com Irã, Iraque e Síria[3]. A Turquia adotou uma posição de liderança na Organização da Conferência Islâmica (OIC), participou de conferências da Liga Árabe, contribuiu para forças da ONU no Líbano e procurou mediar o conflito sírio-israelense, assim como o impasse com o programa nuclear do Irã[4]. 

No entanto, no que tange o atual conflito na fronteira turco-síria, a Turquia, até recentemente, não sabia se entrava ou não nele. Essa posição de inércia do Governo turco foi vista com maus olhos pelos Estados Unidos, que buscam fortalecer os curdos na Síria para combater o Estado Islâmico. Entretanto, para a Turquia esse quadro é bastante complexo, como aponta Steven A. Cook, do Centro de Estudos Americanos do Conselho de Relações Exteriores, para quem “a inação de Erdogan pode ser explicada pelos dilemas únicos que o ‘EI’ representa para a Turquia. Cada resposta política destinada a resolver esses dilemas cria novos desafios, que vão da política interna à questão latente da autonomia curda[5].

Logo, o Governo turco teme que as armas enviadas aos curdos iraquianos pelos países ocidentais acabem nas mãos do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), considerado um grupo terrorista pela Turquia, EUA e União Europeia. Desse modo, o Governo vem proibindo que combatentes curdos cruzem a fronteira com a Síria para se juntar na luta contra o Estado Islâmico. Essa recusa em auxiliar os curdos sírios tem revoltado a população turca de etnia curda e tal posicionamento acabou gerando tumultos entre os 15 milhões de curdos na Turquia[6].

Além da pressão interna, as potências ocidentais têm cobrado um papel mais incisivo. Conforme afirmaram as autoridades norte-americanas, “não é assim que age um aliado da OTAN enquanto há um inferno no outro lado da fronteira[7]. Para Jen Psaki, Porta-Voz do Departamento de Estado dos EUA, a Turquia desempenha um importante papel e eles vão acabar cooperando com a coalizão[8].

Todavia, para Recep Tayyip Erdogan, Presidente da Turquia, não é possível derrotar os cerca de 30 mil combatentes do Estado Islâmico que controlam partes do território do Iraque e da Síria apenas com bombardeios aéreos. Segundo ele, seria necessária uma operação em terra[9]. Logo, como afirmou Erdogan, “alertamos o Ocidente. Queremos três coisas: uma zona de exclusão aérea, uma zona segura paralela a essa e o treinamento de rebeldes sírios moderados[10].  

De acordo com informações de analistas na última semana, o Governo norte-americano estaria especialmente irritado com a Turquia, pois é um aliado da OTAN e ainda se recusou a fornecer apoio logístico fundamental para a coalizão liderada pelos Estados Unidos no combate às forças dos EI[11]. Contudo, o secretário de estado norte-americano John Kerry ressaltou na última quarta-feira que “não há discrepância entre os Estados Unidos e a Turquia no que diz respeito à estratégia de luta contra militantes do Estado islâmico[12]. No início da semana, os Estados Unidos e aliados realizaram cerca de 21 bombardeios aéreos contra os militantes perto de Kobane e parecia terem retardado os avanços do Estado Islâmico na  região[13].

Por fim, cabe assinalar que, ainda na primeira semana de outubro de 2014, o Parlamento Turco havia autorizado uma ação militar contra os jihadistas no Iraque e na Síria, entretanto, até meados da presente semana não havia tomado uma ação concreta contra o EI[14]. O presidente Recep Tayyip Erdogan, assinalou no último final de semana que Kobane não é o problema do seu país e jamais permitira que terroristas entrassem em seu território. Por fim, o Presidente turco afirmou que “nunca farão com que a Turquia passe pelo que passaram Ucrânia e Egito[15].

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Imagem (Fonte):

http://www.nytimes.com/2014/10/08/world/middleeast/isis-syria-coalition-strikes.html?_r=0

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

http://www.theguardian.com/world/2014/oct/08/us-increasingly-frustrated-turkey-inaction-islamic-state  

[2] Ver:

http://brasil.elpais.com/brasil/2014/10/09/internacional/1412882374_939605.html

[3] Ver:

http://www.brookings.edu/~/media/research/files/articles/2012/8/turkey taspinar/turkey taspinar.pdf

[4] Ver:

Idem.

[5] Ver:

http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2014/10/141009_turquia_ei_lab

[6] Ver:

http://br.reuters.com/article/worldNews/idBRKCN0I32PG20141014

[7] Ver:

http://www.theguardian.com/world/2014/oct/08/us-increasingly-frustrated-turkey-inaction-islamic-state

[8] Ver:

Idem.

[9] Ver:

http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2014/10/141009_turquia_ei_lab

[10] Ver:

Idem.

[11] Ver:

http://www.theguardian.com/world/2014/oct/08/us-increasingly-frustrated-turkey-inaction-islamic-state

[12] Ver:

http://www.haaretz.com/news/middle-east/middle-east-updates/1.620693

[13] Ver:

http://br.reuters.com/article/worldNews/idBRKCN0I32PG20141014

[14] Ver:

Idem.

[15] Ver:

http://operamundi.uol.com.br/conteudo/noticias/38178/em+meio+a+ataques+dos+eua+ei+ja+domina+quase+metade+da+cidade+curda+de+kodani+na+siria.shtml

Jessika Tessaro - Colaboradora Voluntária Júnior

Pós-graduanda do curso de Especialização em Estratégia e Relações Internacionais Contemporâneas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). É Graduanda do Curso de Políticas Públicas da UFRGS e bacharel em Relações Internacionais pela Faculdade América Latina Educacional. No presente, desenvolve estudos sobre a geopolítica e a securitização dos Estreitos internacionais e Oceanos.

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