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Estados Unidos voltados ao plano interno

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Quando se encerrou o tradicional discurso sobre o “Estado de União” que abre os trabalhos legislativos nos “Estados Unidos”, os primeiros acordes sobre a política norte-americana para 2014 revelaram demandas complexas de âmbito interno que devem ditar os rumos da política norte-americana inclusive para além de suas fronteiras.

Para 2014, conforme explicitado pelo presidente Barack Obama no discurso de 28 de janeiro, as preocupações quanto aos rumos da economia e das reformas de cunho social terão contornos de prioridades na agenda política da “Casa Branca”, a julgar principalmente pela letargia legislativa que travou o governo central em 2013 por conta das disputas ideológicas entre republicanos e democratas na “Câmara dos Representantes”.

Como parte desse direcionamento ao plano interno, a política macroeconômica tem um imprescindível papel na retomada da pujança econômica dos “Estados Unidos”. Munidos do privilégio de deter o controle do lastro internacional (Dólar), a administração Obama, tão logo assumiu a “Casa Branca”, procurou estancar a hemorragia financeira causada pela bolha subprime, numa clara manobra de intervenção do Estado na economia, que ora era criticada, ora apoiada por economistas, legisladores e cidadãos, dando margem para desconfiança nos mercados futuros e aumentando a prerrogativa especulativa que naquele momento era um temor que deveria ser contido.

Com a enxurrada de dólares no sistema financeiro através da compra de títulos, a estratégia iria figurar no reaquecimento da economia com a redução da taxa básica de juros na tentativa de incentivar investimentos e buscar reequilibrar o nível de emprego que, naquela ocasião inicial de recessão, estava diminuindo consideravelmente. Porém, com os mercados internacionais interligados houve fuga de capitais para nações em desenvolvimento (principalmente para os BRICS e “Tigres Asiáticos”) aumentando a liquidez destes e consequentemente dando uma falsa sensação de prosperidade, uma vez que as divisas que entravam nesses Estados era fruto de uma taxa de juros elevada ocasionando retornos rápidos aos investidores.  Nesse sentido, era previsível que à medida que fosse restaurado o equilíbrio das contas internas em “Wall Street” o movimento do capital iria inverter a lógica dos tempos de recessão, ou seja, com a retomada da taxa de juros (durante a recessão, a taxa de juros de curto prazo estava em zero) e o crescimento econômico dando sinais de recuperação, apesar de ser considerada lenta pelos analistas, ocorreria a fuga de capitais dos países em desenvolvimento de volta para os países desenvolvidos. Essa situação preocupa e já estão sendo implementadas medidas corretivas emergenciais para evitar uma desvalorização ainda maior das respectivas moedas nacionais e por consequência o colapso de suas contas públicas.

Por conta desse cenário é possível elucidar que a postura de Washington e “Wall Street” é de reaver a posição de protagonista do sistema financeiro internacional e, conforme alguns especialistas em política estadunidense defendem, seguir com posicionamentos que privilegiem a política doméstica em prol do restabelecimento sustentável de seu poderio em detrimento de maior interferência em assuntos internacionais tais como era rotineiramente visto desde governos anteriores.

Compartilhando e dando veracidade a esse pressuposto, Ben Bernanke, ex-presidente do “Federal Reserve” (FED, na sigla em inglês), em uma de suas últimas medidas antes de ser substituído por Janet Yellet, anunciou o corte de US$ 10 bilhões na compra de ativos da dívida a cada reunião do “Comitê de Política Monetária do Banco Central Norte-Americano”, reduzindo o programa de estímulo* que foi responsável em partes pela recuperação econômica e também foi decisivo por desencadear uma sensação de prosperidade dos países em desenvolvimento e agora gera preocupação com a fuga de parte desse capital.

Um posicionamento político privilegiando demandas domésticas no auge dos desequilíbrios do modelo capitalista, de acordo com alguns estudiosos, pode gerar uma reestruturação financeira benéfica no longo prazo, a julgar pela retomada do crescimento dos “Estados Unidos” que, mesmo não tendo a saúde financeira de outros tempos, é fonte segura para investidores estrangeiros. Todavia, redirecionar o fluxo de capitais pode gerar histeria nos mercados que ainda estão longe do equilíbrio, haja vista o cenário europeu que ainda está longe de se restabelecer.

No que tange o conjunto político-social, a necessidade latente que há para esse segundo mandado fica a cargo de promover mudanças na estrutura socioeconômica dos “Estados Unidos”, cujas políticas remontam a direção social-democrata, que, ocasionalmente não fará a tarefa de Barack Obama ser das mais fáceis tendo a minoria na “Câmara dos Representantes” até novembro, quando ocorrem as eleições legislativas.

E, justamente por conta das eleições legislativas de novembro, a “Casa Branca” terá que fomentar suas estratégias baseando-se em duas possibilidades. A primeira delas seria, conforme o recado dado pelo próprio Presidente no discurso de 28 de janeiro, atuar com “Ordens Executivas”, ou seja, preterindo o Legislativo em prol do unilateralismo presidencial que culminaria, portanto, em maior agilidade na aprovação de seus projetos de governo. Barack Obama sabe que mais um ano improdutivo na sua administração ficará marcado na história dos “Estados Unidos”, com a passagem de um Presidente que resgatou em seus discursos a nostalgia dos tempos de JFK e “Martin Luther King”, para um Presidente pouco pragmático que estagnou o desenvolvimento da nação.

O capital político que Obama parece disposto a investir é fundamental não só para salvar seu mandato, mas também para permitir aos democratas a chance de se manter no poder tão logo seu governo termine, haja vista que ainda não há em ambos os lados da política norte-americana nenhum candidato formalizado para a disputa em 2016, principalmente no lado republicano que, apesar de especular sobre a candidatura de Chris Christie, “Governador de New Jersey”, não o confirma por ser prematuro para tanto e, principalmente, para aliviar a pressão que o mesmo sofre após o escândalo por conta do tráfego gigantesco gerado propositalmente por membros de sua gestão na “Ponte George Washington”, ligação entre “New Jersey” e “New York”, que abalou sua reputação perante a opinião pública acarretando momentaneamente em um vácuo na representação republicana que tinha em Christie um nome de consenso após anos com candidatos de pouca expressão no cenário nacional.

Outra possibilidade é um trabalho em conjunto. Com as eleições do segundo semestre colocando em disputa todas as cadeiras da “Câmara dos Representantes”, um terço do Senado e ainda postos executivos e legislativos estaduais, a visibilidade e a fiscalização popular até o fim do ano terão grande relevância na corrida por votos. Desta forma, um bom desempenho dos atuais representantes legislativos refletirá diretamente na nova disposição pós-eleições, principalmente se forem aprovadas as demandas de Obama, tais como a reforma da Imigração, um ajuste fino na polêmica reforma da Saúde (Obamacare), o projeto de aumento do salário mínimo não só para servidores federais e um pacote de benefícios para o desempregado.

Por fim, baseando tais possibilidades com a última pesquisa feita pelo “Wall Street Journal”, 51% dos entrevistados computam na conta do partido republicano a inflexibilidade em lidar com o Presidente. Em contrapartida, 39% acreditam que o marasmo político é culpa de Obama. De certa forma, de acordo com analistas, consenso e cooperação entre as casas legislativas e a “Casa Branca” resultariam na melhora da imagem da política hoje nos “Estados Unidos”, pois a questão partidária em tempos de crise não tem satisfeito a grande parte da população. Para tanto, o cálculo governamental atrelado ao risco político que transita nessas duas possibilidades expostas acima definirá os rumos da política interna dos “Estados Unidos” não só para 2014, mas para todo o segundo mandato presidencial.

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* Que no auge chegou a comprar aproximadamente US$ 80 bilhões.

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Imagem (Fonte):

http://p2.trrsf.com/image/fget/cf/407/305/images.terra.com/2014/01/29/euaestadouniaoobamacumprimentoap.jpg

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Fontes Consultadas:

Ver:

http://www.estadao.com.br/noticias/internacional,em-resposta-a-obama-republicanos-criticam-aumento-de-salario-minimo,1124314,0.htm

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http://www.estadao.com.br/noticias/internacional,obama-ataca-desigualdade-e-preve-em-discurso-anual-governar-com-caneta,1124094,0.htm

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http://www.estadao.com.br/aovivo/discurso-obama-2014

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http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,democratas-um-publico-dificil,1124145,0.htm

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http://www.cartacapital.com.br/internacional/obama-e-as-grandes-questoes-americanas-8326.html

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http://www.vice.com/pt_br/read/como-os-eua-podem-fazer-uma-politica-externa-menos-desastrosa-em-2014

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http://online.wsj.com/news/articles/SB10001424052702303973704579351380364110124?mod=WSJP_inicio_LeftTop&linkSource=valor&mg=reno64-wsj&url=http%3A%2F%2Fonline.wsj.com%2Farticle%2FSB10001424052702303973704579351380364110124.html%3Fmod%3DWSJP_inicio_LeftTop%26linkSource%3Dvalor

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http://www.valor.com.br/internacional/3413590/pib-dos-eua-avanca-32-no-4

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http://online.wsj.com/news/articles/SB10001424052702303553204579347381393944914?mod=WSJP_economia_LeadStory&mg=reno64-wsj&url=http%3A%2F%2Fonline.wsj.com%2Farticle%2FSB10001424052702303553204579347381393944914.html%3Fmod%3DWSJP_economia_LeadStory

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http://www.defesanet.com.br/ecos/noticia/14004/Mundo-enfrenta-maior-desigualdade-desde-a-Segunda-Guerra-Mundial/

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http://economia.estadao.com.br/noticias/economia-geral,bernanke-sai-do-fed-menos-popular-que-greenspan,176993,0.htm

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http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-85/carta-dos-estados-unidos/a-patria-americana

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http://www.senateconservatives.com/site/races

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http://www.politico.com/story/2014/01/2014-top-senate-races-101664.html

Victor José Portella Checchia - Colaborador Voluntário

Bacharel em Relações Internacionais (2009) pela Faculdades de Campinas (FACAMP), Especialista em Direito Internacional pela Escola Paulista de Direito (EPD) e Especialista em Política Internacional pelo CEIRI (Centro de Estratégia, Inteligência e Relações Internacionais). Atuou em duas grandes multinacionais do setor de tecnologia e na área de Cooperação Internacional na Prefeitura Municipal de Campinas com captação de recursos externos, desenvolvimento de projetos na área econômica e comercial e buscando oportunidades de negócios para o município. Atualmente é Consultor de Novos Negócios na Avanth International em Campinas/SP. Escreve semanalmente sobre América do Norte com foco nos Estados Unidos.

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