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Estudo indica queda de 81% no poder aquisitivo dos mexicanos em 30 anos

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Conforme apontam as pesquisas, o salário mínimo no México está entre os mais baixos da América Latina e entre os piores de todo o Ocidente. Estima-se que cerca de 20% dos cidadãos mexicanos vivam abaixo da linha da pobreza. Por outro lado, o país possui um dos maiores PIBs (Produto Interno Bruto) da região, com uma das maiores concentrações de bilionários. Mesmo assim, os trabalhadores mexicanos estão entre aqueles com as piores condições de trabalho, mais horas trabalhadas e uma das piores remunerações por hora. Ainda de acordo com os dados, apenas 10% das famílias acumulam dois terços da riqueza nacional, segundo o Relatório de Panorama Social da América Latina de 2016, produzido pela Comissão Econômica para América Latina e Caribe (CEPAL).

Em novembro de 2017, o Jornal El País noticiou que o Governo mexicano aumentou o salário mínimo de 80 pesos diários (4,2 dólares, aproximadamente) para um pouco mais de 88 pesos (4,6 dólares), declarando que não se tratava de um ajuste menor que a inflação. Entretanto, segundo um estudo produzido pela Faculdade de Economia da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM), ao longo dos últimos 30 anos, os reajustes do salário mínimo mexicano não têm sido suficientes para aumentar o poder aquisitivo dos trabalhadores. Inclusive, nas últimas três décadas, a perda acumulada do poder de compra é de 80,8%.

Favela em Guanajuato, México

Este estudo também compara a evolução do salário mínimo em relação ao preço da cesta básica formada por 40 alimentos necessários para satisfazer 4 pessoas. Atualmente, segundo especialistas, a cesta básica custa 245 pesos diários (12,7 dólares, aproximadamente), um valor que supera em quase três vezes o salário mínimo citado.

De acordo com Luis Lozano Arredondo, um dos pesquisadores da UNAM, a Constituição mexicana estabelece que o salário mínimo deve ser suficiente para cobrir necessidades básicas de uma família, todavia a realidade é distinta. Portanto, para ele um dos problemas em relação a este salário no México é a falta de uma legislação realmente aplicável, que regule as relações de trabalho. Em função do alto nível de pobreza, muitos trabalhadores recebem seu dinheiro de maneira informal e, mesmo que o mínimo diário seja realmente pago, exige-se mais horas de trabalho para que se consiga ganhar o previsto.

O governo mexicano estima que seja necessário ganhar um pouco mais de 160 dólares mensais para que seu cidadão possa viver com as condições fundamentais de dignidade. Isso inclui compras principais com comida, transporte e padrões de higiene.

Segundo o estudo da UNAM, em 1987, quando a cesta básica custava 3,95 pesos diários* e o salário mínimo era de 6,47 pesos*, os trabalhadores possuíam dinheiro suficiente para comprar alimentos e atender outras necessidades. Desde então, os preços no México vêm crescendo num ritmo mais intenso do que o aumento dos salários e ampliando a perda do poder aquisitivo.

A escalada no preço dos alimentos piorou no ano passado (2016), quando a cesta básica custava 218 pesos e, doze meses depois, aumentou 12,5%. “Esse aumento nos preços já foi suficiente para corroer o ajuste do salário mínimo de dois anos e parte do que está anunciado para 2019”, advertem os especialistas.

Pesquisadores universitários dizem que as propostas de várias forças políticas para aumentar o salário mínimo para 95,24 pesos por dia, ou até 171 pesos para o próximo sexênio (período de seis anos), também são insuficientes, pois questionam o grau de bem-estar que pode ser garantido com essa renda. “Perdas acumuladas ano após ano. E as pessoas mais desprotegidas são as mais atingidas”, completa Lozano.

Cozinha de cabana de pau a pique em uma aldeia de Cocopah, em Sonora, México

O estudo concluiu ainda que mais da metade dos trabalhadores mexicanos recebem menos que um salário mínimo local. Isso ocorre em função da falta de opções, quando os trabalhadores não podem escolher um afazer que pague o que é estabelecido em lei.

Em áreas menos desenvolvidas do México, as situações podem ser ainda piores. Estima-se que cerca de 70% dos trabalhadores no sul do país não consigam atingir os valores de um salário mínimo, pois eles não foram devidamente atualizados, apesar de a legislação assim o exigir. Com a ocorrência da inflação, o salário foi se tornando defasado e, na maioria dos casos, as correções cobrem apenas parte dela.

Estima-se ainda que muitos mexicanos tenham condições de vida comparáveis às piores do mundo. Cerca de uma em cada quatro cidades do país apresenta condições de vida similares às da África subsaariana, no que diz respeito à educação, saúde e saneamento básico.

Não obstante, de acordo com a CEPAL, a má distribuição da riqueza não é a única causa da desigualdade social. Para uma melhor abordagem do problema, esta entidade fez uma quebra das dimensões ou círculos viciosos que compõem esse fenômeno estrutural. Por exemplo, a má distribuição do uso do tempo entre homens e mulheres intensifica a desigualdade. O fato de as mulheres terem menos tempo para si mesmas prejudica sua capacidade de aprendizagem e a presença contínua no mercado de trabalho, diz o relatório.

Além disso, as mulheres latino-americanas recebem 83,9% do salário ganho por homens da região. Conforme relatado pela CEPAL, as mulheres tendem a ser as mais afetadas pela desigualdade econômica e, se acrescentarmos a este fato a proveniência de famílias de baixa renda, a mobilidade social se torna um objetivo impossível de ser alcançado. Portanto, a desigualdade e os baixos salários no México constituem um desafio estrutural para o desenvolvimento sustentável, conspirando contra a Agenda 2030, aprovada em 2015, que objetiva estabelecer melhores índices de distribuição de renda.

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Notas:

* Esses números são muito distantes dos atuais porque são valores referentes a trinta anos atrás, o que esclarece a diferença. Além disso, preferiu-se não fazer a cotação do dólar da época para evitar desvios na observação com a cotação de hoje. O objetivo foi fazer a comparação para mostrar que, há três décadas, o salário mínimo cumpria os requisitos para obter a cesta básica.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Dois pedreiros aguardam uma oferta de emprego ao lado da Catedral na Cidade do México” (Fonte):

https://es.wikipedia.org/wiki/Crisis_econ%C3%B3mica_en_M%C3%A9xico_(2008-2009)

Imagem 2Favela em Guanajuato, México” (Fonte):

https://www.gettyimages.com/license/587428253

Imagem 3Cozinha de cabana de pau a pique em uma aldeia de Cocopah, em Sonora, México” (Fonte):

https://www.gettyimages.com/license/128032090

Tainan Henrique Siqueira - Colaborador Voluntário

Mestrando em Direito Internacional pela Universidade Católica de Santos. Graduado em Relações Internacionais pela Universidade Católica de Santos. Experiência acadêmica internacional na Cidade do México e atuação profissional no Consulado do Panamá e no Turismo Nuevo Mundo. Concluiu trabalho de extensão sobre Direitos Humanos e Refugiados, iniciação científica na área do Direito Internacional e da Política Externa Brasileira, sendo esta segunda iniciação premiada em terceiro lugar entre as áreas de ciências humanas e ciências sociais aplicadas da UniSantos em 2015. Atuou como Monitor na disciplina de Teoria das Relações Internacionais­I, durante o último semestre de 2015. Atualmente é monitor e pesquisador do Laboratório de Relações Internacionais da UniSantos em parceria com o Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas (LARI­IPECI), onde auxilia no desenvolvimento de projetos semestrais pautados por três frentes de pesquisa: 1) Direitos Humanos, Imigração e Refugiados; 2) Política Internacional e Integração Regional; e 3) Relações Internacionais, Cidades e Bens Culturais. Tem objetivo de seguir carreira acadêmica.

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