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[:pt]Etiópia investe em setor automotivo para impulsionar crescimento econômico[:]

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Na quinta-feira da semana passada, 22 de setembro, a empresa sul-coreana Kia Motors anunciou o início da produção de automóveis na Etiópia, a partir de janeiro do ano que vem (2017), em parceria com a empresa etíope Belay Ab Motors Plc. Será o primeiro contrato deste tipo firmado e marca uma nova fase do programa nacional de desenvolvimento, cujo objetivo principal é alçar o país ao nível de economia de renda média em 2025.

Até então, o Growth Transformation Plan (GTP), Programa Nacional de Desenvolvimento, havia se focado nos investimentos no setor agrícola, tendo em vista que 80,5% da população vive nos espaços rurais, segundo dados do Banco Mundial para o ano de 2015. Não à toa, a pauta de exportações etíope é dominada por produtos primários: 15% vem da exportação de produtos vegetais, 19% de petróleo refinado e 8% de produtos de origem animal.

É justamente este o objetivo principal do plano de desenvolvimento etíope: expandir a participação dos produtos manufaturados na economia nacional e na pauta de exportações a partir deste momento, sendo estes objetivos sumarizados no lançamento do GTP II. O Governo espera que o plano de investimento da Kia Motors seja o primeiro de uma série de acordos futuros que atuem na promoção da indústria local e na transmissão de tecnologia ao país.

A análise do processo de desenvolvimento etíope, contudo, vai além de mera avaliação dos indicadores econômicos e da adoção de estratégias para a incorporação de tecnologias externas. A polissemia da palavra “desenvolvimento” demonstra que esta ideia, enquanto “ideia-força” que norteia a ação governamental, é lida de diferentes formas dentro da sociedade, pois formuladores de políticas públicas a veem de maneira diferente da forma como veem grupos da sociedade organizada, como os ativistas pelos direitos civis, a exemplo dos defensores dos direitos civis Oromo, para citar um caso.

A tentativa segue e fatos como este acrescentam-se a uma série de episódios passados similares, os quais devem ser lidos tomando-se em consideração os seus efeitos para os mais variados grupos sociais da Etiópia.

De alguma forma, com a abertura do território nacional para montadoras externas instalarem-se no país, a Etiópia repete a estratégia desenvolvimentista adotada pelos brasileiros na segunda metade do século XX, em especial a partir do governo Juscelino Kubitschek (1956-1961). Igual ao Brasil na época, a gradativa inserção das montadoras em território etíope pode ser explicada por dois fatores:

Primeiro, pela predileção do Governo por essa indústria, tendo em vista a sua aparente demanda expressiva por materiais e outros bens de capital, o que poderia estimular o surgimento de manufaturas locais para operar como fornecedoras da Kia. Nesse sentido, as populações urbanas inseridas em uma lógica de trabalho assalariado podem ver esta movimentação como positiva. No entanto, há que ressaltar que somente 19,5% do contingente populacional etíope é urbano, representando, assim, uma parcela restrita da população.

Segundo, a inserção se explica pelo expressivo mercado consumidor que a Etiópia hoje representa, tendo em vista a combinação entre crescimento demográfico e crescimento econômico. “É importante a penetração no mercado africano. Nós também estamos identificando oportunidades para a abertura de plantas similares na Argélia e em outros países”, afirmou Soon Nam Lee, presidente do escritório da Kia na África e no Oriente Médio.

Esta mudança nos padrões de consumo, no entanto, se dá em muitas ocasiões de maneira conflitiva, seja pelo êxodo rural que as grandes obras estatais estimulam – como a GIB III, na região sul da Etiópia – seja na urbanização forçada do Governo de Províncias antes tipicamente rurais – como foi o caso da conflituosa expansão urbana de Adis Ababa. Em outras palavras, por trás da adoção de novos padrões de consumo e atividade econômica, está o iminente conflito entre o Estado e as populações tradicionais, cujas lógicas de reprodução social diferem da lógica dos grandes empreendimentos desenvolvimentistas propostos pelo Governo.

Os sacrifícios sociais e culturais evidentes que o projeto desenvolvimentista etíope conduziu até agora demonstram que será muito improvável que o país não repita os erros que especialistas apontam que Estados como Brasil e México tiveram e ainda têm na condução de suas políticas públicas: a de impor o desenvolvimento de maneira top-down*, sujeitando a participação civil às lógicas do Estado. Ao contrário, faz-se necessário um estímulo à participação da população na formulação de suas próprias políticas públicas, isto é, nos projetos que elas mesmas demandam ser necessárias.

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* A expressão topdown é empregada dentro dos mais variados ramos das ciências sociais para tipificar, em um espaço hierarquizado e acentuadamente estratificado, interações sociais assimétricas. Essa assimetria se dá, principalmente, em termos de poder. Por isso, a expressão vem a caracterizar interações onde um grupo social exerce um poder significativamente maior do que outro, sendo assim capaz de sujeitá-lo às regras e normas que impõe. Usualmente, a expressão é empregada para caracterizar políticas públicas do Estado para a sociedade como um todo, convencionadas e promovidas sem antes da completa colaboração da sociedade civil na sua formulação. Tem, como uma das principais consequências, a reprodução das desigualdades sociais intricadas na lógica de estratificação social e constitui-se em uma das principais características do monopólio da violência detido pelo Estado.

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Imagem (FonteWikipedia):

https://en.wikipedia.org/wiki/Automotive_industry_in_South_Korea

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Pedro Frizo - Colaborador Voluntário

Economista pela ESALQ-USP, é atualmente mestrando em Sociologia pelo Programa de Pós- Graduação do IFCH-UFRGS. Foi pesquisador do Programa de Mudanças Climáticas do Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia (IDESAM). Atualmente desenvolve pesquisas na área de Sociologia Econômica, Economia Política e Sociologia do Desenvolvimento. Escreve no CEIRI Newspaper sobre economia e política africana, como foco em Angola, Etiópia e Moçambique

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