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Etiópia irá fechar todos os campos de refugiados nos próximos dez anos

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Devido principalmente ao seu posicionamento geográfico, a Etiópia constitui-se como um dos principais destinos de migrantes no continente africano. Estima-se que cerca de 850 mil pessoas vivem em 27 campos de refugiados espalhados por todo o país. Estas pessoas são originárias, em sua maioria, do Sudão do Sul, da Eritréia e da Somália, países que vivenciam intensos conflitos sociais.

Entretanto, um anúncio do Governo etíope sobre o destino destes campos mexeu com a comunidade internacional. Na semana passada, Zeynu Jemal, vice-diretor da Administração para Refugiados e Repatriados (ARR), declarou que todos os campos de refugiados serão fechados ao longo dos próximos dez anos. Durante este período, esses grupos serão transferidos gradativamente a comunidades adjacentes aos campos, com o intuito de integrá-los à sociedade etíope.

A medida está em linha com a política externa dos países europeus, uma vez que eles desejam criar oportunidades econômicas aos migrantes em seus países de origem, a fim de arrefecer o fluxo migratório à Europa. Sendo assim, a Etiópia tem recebido um elevado montante de recursos destas nações para a criação de postos de trabalho aos refugiados, uma vez que ocupa papel central na questão migratória africana. No ano passado (2016), por exemplo, o Banco Europeu de Investimento (BEI) concedeu 500 milhões de dólares ao país africano para a criação de empregos especificamente a refugiados.

Em um segundo plano, a gradativa socialização destes grupos junto às comunidades etíopes se faz estratégica para o Governo etíope, tendo em vista o ritmo de crescimento da economia e as mudanças estruturais planejadas. Impulsionada pelo Growth Transformation Plan I e IIos quais almejam modernizar a agricultura e incentivar o setor industrial, respectivamente –, a Etiópia provavelmente demandará uma maior de mão de obra para as suas atividades produtivas. Além disso, segundo os planos do governo em converter o país em um polo de produção de manufaturados para a exportação, a mão de obra dos refugiados pode servir como opção barata para a elaboração de produtos competitivos no mercado global.

Nós estamos criando oportunidades econômicas na Etiópia. A agricultura cria empregos se eles [migrantes] têm as habilidades, nós provemos o microfinanciamento para incentivar o empreendedorismo e também estamos construindo parques industriais que podem gerar postos de trabalho”, afirmou Jemal.

Pode-se questionar, entretanto, em que medida de fato a mudança estrutural na economia – onde o segundo setor passaria a ter uma composição do Produto Interno Bruto (PIB) mais expressiva – poderia implicar em maior empregabilidade. Atualmente, a Etiópia possui 17,5% de sua força de trabalho desempregada, segundo dados do Banco Mundial. Isto significa que a economia nacional, mesmo após seguidos anos de intenso crescimento do PIB, não emprega o total de força de trabalho disponível, deixa

Jemal é um dos principais nomes da ARR, importante instituição etíope para a questão migratória

ndo ampla parte da população economicamente ativa à margem do mercado de trabalho. Alguns analistas apontam, inclusive, que o principal motivo por trás dos recorrentes protestos contra o governo é a elevada taxa de desemprego entre os jovens.

Dessa forma, caso o país não vivencie efetivamente uma mudança estrutural em sua pauta produtiva nos próximos anos, e com ela uma maior incorporação da população economicamente ativa ao mercado de trabalho, a estratégia de desativar os campos de refugiados e integrá-los na sociedade etíope pode se demonstrar falha.

É algo que implicaria em iminente risco ao gerenciamento dos movimentos migratórios em uma região instável, permeada por conflitos sociais, além de pôr em xeque a estratégia europeia de mitigar a migração a partir da criação de postos de trabalho no Chifre da África.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1A Etiópia é um dos principais gerenciadores das questões migratórias no Chifre da África” (Fonte):

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Refugees_at_Dolo_Odo_camp,_Ethiopia_(5936614673).jpg

Imagem 2Jemal é um dos principais nomes da ARR, importante instituição etíope para a questão migratória” (Fonte):

http://ethioarra.org/

Pedro Frizo - Colaborador Voluntário

Economista pela ESALQ-USP, é atualmente mestrando em Sociologia pelo Programa de Pós- Graduação do IFCH-UFRGS. Foi pesquisador do Programa de Mudanças Climáticas do Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia (IDESAM). Atualmente desenvolve pesquisas na área de Sociologia Econômica, Economia Política e Sociologia do Desenvolvimento. Escreve no CEIRI Newspaper sobre economia e política africana, como foco em Angola, Etiópia e Moçambique

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