LOADING

Type to search

Share

No início da semana passada, os Estados Unidos da América (EUA) anunciaram que estarão adiando o pagamento de quase US$ 290 milhões que seriam destinados à República Árabe do Egito. O Governo americano alegou que protelará a ajuda militar e econômica devido ao fracasso do Governo egípcio de garantir e assegurar práticas democráticas e os direitos humanos no país. No entanto, alguns analistas pontuam que a decisão da administração Trump também tem como foco mitigar a relação Egito-Coreia do Norte.

Menachem Begin, Jimmy Carter e Anwar Sadat em Camp David, 1978

Foram retidos US$ 195 milhões que o Congresso havia aprovado no ano fiscal de 2016, além de outros 95,7 milhões de dólares aprovados ainda ano fiscal de 2014, e que também foi retido pelo governo do ex-presidente Barack Obama. Segundo alguns veículos internacionais, como a Reuters, a retenção feita pela nova administração, deve-se, por exemplo, ao descontentamento da lei de ONGs, que entrou em vigor em maio deste 2017. Essa lei restringe e dificulta as ações de agências e organismos não-governamentais de operarem no país africano. Ela confere ao Governo egípcio o poder de decidir quem pode estabelecer uma ONG e o tipo de trabalho que essa entidade poderá executar. Além disso, também exige que doações de mais 550 dólares sejam pré-aprovadas e, caso o governo não seja informado no tempo determinado, poderá resultar em prisões ou multas de até 55 mil dólares.

Desde os movimentos da Primavera Árabe há uma crescente pressão em torno das questões de direitos humanos na região. Organizações internacionais e grupos contestam recorrentemente as práticas adotadas no país africano. Segundo esses grupos, cerca de 40 mil pessoas foram encarceradas pelo Governo egípcio como prisioneiros políticos. Um dos casos foi da Aya Hijazi, egípcia-americana que trabalha com crianças de rua e que foi presa em maio de 2017 por acusações de tráfico de pessoas. A Lei egípcia na ocasião indicava um período máximo de detenção de 24 meses antes de julgamento, no entanto, Aya Hijazi foi mantida sob custódia por 33 meses.

Os Estados Unidos e o Egito são aliados desde o estabelecimento acordo de Camp David, assinados em março de 1979 na Casa Branca, que pôs fim ao conflito entre Egito e Israel.  O documento foi acordado entre Anwar Al Sadat, Presidente egípcio, e Menachem Begin, Presidente de Israel, com mediação de Jimmy Carter, Presidente estadunidense, e é considerado um dos mais importantes marcos no processo de paz na região do Oriente Médio. Desde então, o Egito recebe enormes recursos em assistência militar e econômica dos EUA, ficando atrás apenas de Israel. Ao longo desse período, o Governo egípcio recebeu aproximadamente 80 bilhões de dólares, sendo, aproximadamente, 1,3 bilhão somente em assistência militar.

Como apontado anteriormente, essa não foi a primeira vez que o Governo norte-americano congelou os históricos repasses ao Egito. Em 2013, o envio anual passou a ser alvo de críticas nos EUA, quando Mohammed Morsi, Presidente do país, foi derrubado do poder por Abdel Fattah al-Sisi, então Ministro da Defesa e Chefe das Forças Armadas. Naquela ocasião, ONGs denunciavam as prisões políticas feitas por al-Sisi e a repressão violenta sobre os partidários de Morsi e da Irmandade Muçulmana. A administração Obama cancelou então os repasses, alegando que o mesmo somente seria restabelecido caso de fato o Governo egípcio mostrasse progressos claros do fortalecimento democrático no país. No entanto, em 2015 a assistência militar foi retomada sob a justificativa de que era do interesse da segurança nacional norte-americana.

Porta-avião USS America (CV-66) cruzando o canal de Suez, em 1981

Esse acordo beneficia os Estados Unidos em diversas frentes: além do significado político, há o acesso ao espaço aéreo egípcio e a prioridade dada aos navios de guerra americanos quando passarem pelo Canal de Suez, controlado pelo Egito, destacando-se que é a única via marítima que liga o Mar Mediterrâneo ao Mar Vermelho e, consequentemente, ao Oceano Índico; o auxílio militar também beneficia a indústria bélica dos estadunidense, já que determina o crédito para a compra de equipamentos militares de fabricação norte-americana.

Em abril deste ano (2017), o governo Trump procurou restabelecer as relações do país com o Egito, quando recebeu na Casa Branca pela primeira vez al-Sisi. Naquele momento do encontro entre os presidentes, Trump destacou que havia poucas coisas sobre qual os dois países não concordam, mas não fez nenhum comentário específico sobre questões de direitos humanos. Em vista disso, a decisão de retenção dos 290 milhões de dólares é interpretada por alguns veículos de comunicação, como New York Times, como sendo uma tentativa de forçar que Estados que tenham ligações com a Coreia do Norte cortem seus laços. Segundo a publicação, há relações históricas, tanto militares quanto econômicas, entre os dois países, tais como o apoio e treinamento fornecido por pilotos norte-coreanos aos pilotos egípcios durante o conflito com Israel, em 1973, e, também, em 2008, com o caso da Orascom Telecom Media and Technology, pertencente ao empresário egípcio Naguib Sawiris, que foi a companhia responsável por estabelecer a rede telefônica na Coreia do Norte.

Em seguida ao anúncio do congelamento dos repasses militares norte-americanos, o Governo egípcio mostrou sua desaprovação com a decisão do Governo Trump. Na ocasião, Sameh Shoukry, Ministro das Relações Exteriores afirmou em comunicado, conforme destacou o Washington Post, que essa é uma medida equivocada na relação estratégica que une os dois países. Deve-se esperar possíveis desdobramentos do encontro entre o Presidente egípcio e Jared Kushner, cunhado e conselheiro de Donald Trump, que esteve em viagem na região.

———————————————————————————————–                    

Fontes das Imagens:

Imagem 1A fachada Sul da Casa Branca” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Casa_Branca#/media/File:WhiteHouseSouthFacade.JPG

Imagem 2 Menachem Begin, Jimmy Carter and Anwar Sadat em Camp David, 1978” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Camp_David_Accords#/media/File:Camp_David,_Menachem_Begin,_Anwar_Sadat,_1978.jpg

Imagem 3 Portaavião USS America (CV66) cruzando o canal de Suez, em 1981” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Canal_de_Suez#/media/File:USS_America_(CV-66)_in_the_Suez_canal_1981.jpg

Jessika Tessaro - Colaboradora Voluntária Júnior

Pós-graduanda do curso de Especialização em Estratégia e Relações Internacionais Contemporâneas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). É Graduanda do Curso de Políticas Públicas da UFRGS e bacharel em Relações Internacionais pela Faculdade América Latina Educacional. No presente, desenvolve estudos sobre a geopolítica e a securitização dos Estreitos internacionais e Oceanos.

  • 1

Deixe uma resposta

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.