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EUA, Nigéria e Boko Haram: tentativas para estabilizar a África Subsaariana

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Ao longo das últimas duas décadas, o Continente Africano passou de continente esquecido para continente com grande potencial para fomentar negócios, de acordo com movimentações feitas pelas principais potências ocidentais e também por países que compõem os BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul). Com grandes reservas naturais, desde o coltan (mineral utilizado na fabricação de celulares), na República Democrática do Congo, até as ricas bacias petrolíferas no Delta do Níger, as dicotomias presentes no cotidiano africano serviram para aprofundar as crises internas em alguns Estados que mesmo com a pujança em recursos naturais ainda são explorados e pouco recompensados pela extração de seus recursos.

No contexto além-fronteiras africano, o país que tem recebido grande destaque da comunidade internacional e que por certa medida se enquadra nessas percepções da conjuntura africana é a Nigéria, estado cravado no seio da África Ocidental, ou África Subsaariana fazendo fronteira com Benin, a oeste; Níger ao norte; Camarões, ao sul e com o Chade, com uma pequena porção de fronteira do território, a nordeste.

A Nigéria concentra uma das maiores densidades demográficas do mundo. É rica em recursos petrolíferos ao sul de seu território e já é classificada pelo economista do Goldman Sachs, Jim ONeill*, como país com potencial de prosperidade socioeconômica e membro de um novo grupo de nações desenvolvimentistas, similar aos BRICS, mas que receberia como parte de um novo ideário macroeconômico internacional a abreviação de MINT (México, Indonésia, Nigéria e Turquia).

Entretanto seu potencial para alcançar a prosperidade socioeconômica esbarra em fatores escusos e muito comuns, em se tratando de nações africanas: o alto grau de corrupção governamental que envolve em grande parte as multinacionais que ingressam em seus territórios, com a prerrogativa exclusiva de exploração, e as divisões étnicas, fruto da divisão fomentada por europeus no século XIX e início do século XX, algo que gera inúmeros conflitos e atrocidades humanitárias desde então.

No cerne das questões nigerianas, que foi colônia britânica, o destaque dado pela imprensa internacional e pelos principais políticos tomadores de decisão está atrelado à corrente religiosa fundamentalista Boko Haram. Esse grupo segue uma corrente islâmica radical. Para especialistas em África, sua ascensão está atrelada as péssimas condições de vida da população, má gestão pública e pobreza extrema, principalmente no norte do país.

O fundador do grupo extremista, Mohammed Yusuf, morto em 2009 por forças de segurança nigeriana adotava uma linha com uma agenda islâmica sectária, de cunho radical e utilização de violência. A delimitação dos objetivos era direcionada primeiramente pelo estabelecimento da lei islâmica, a Sharia, em toda extensão do Estado, aos moldes do califado estruturado pelos sunitas do autoproclamado Estado Islâmico, que controlam porções significativas da Síria e do Iraque. De doutrinação wahabbita, similar ao regime na Arábia Saudita, os membros da organização tendem a concentrar seus esforços no norte, por acreditarem que essa região adota um regime islâmico mais moderado, portanto de oposição ao modelo que desejam adotar.

No que tange aos desdobramentos que podem ser ofertados para reduzir a influência negativa do Boko Haram na sociedade nigeriana, almejando assim um equilíbrio sustentável para o desenvolvimento do país, o ex-embaixador norte-americano em Abuja e atualmente pesquisador sênior do Council on Foreign Relations para assuntos africanos, John Campbell, através de seu relatório intitulado “U.S. Policy to Counter Nigerias Boko Haram”, apresenta que, ao invés de fazer frente através do uso da força, uma cooperação bilateral entre os governos de Washington e Abuja seria de fundamental importância para corrigir a alienação dos muçulmanos na Nigéria. Ou seja, Washington, no curto prazo, deveria pressionar o governo do presidente Goodluck Jonathan a criar medidas contra os abusos dos direitos humanos, realizar eleições democráticas em 2015 e buscar sanar as necessidades imediatas dos refugiados e deslocados internos.

Não obstante, medidas em longo prazo também devem ser adotadas e, para isso, o ex-embaixador sugere: apoiar os nigerianos que trabalham pelos direitos humanos e pela democracia; revogar vistos americanos detidos por nigerianos que promovem a violência étnica e religiosa e cometem crimes financeiros; incentivar Abuja a renovar a cultura de suas Forças Armadas e da Polícia.

Em outro estudo divulgado pela Norwegian Peacebuilding Resource Centre (Noref, na sigla em inglês), intitulado “Boko Haram: origins, challengesand responses”, Mr. Campbell enumera três recomendações políticas que predominantemente dependeriam de ajuda internacional:

  1. As ações devem ser integradas com a sociedade civil e governo fazendo frente às atrocidades dos milicianos, não buscando apenas uma única solução que predominantemente seria o uso da força que acaba gerando mais violência. Existe a possibilidade de que ações externas possam ser interpretadas como ataques contra o islã;
  2. Foco em ações humanitárias, uma vez que há grande fluxo migratório para países vizinhos como Camarões e Chade que não possuem estruturadas adequadas para atender os deslocados;
  3. Participação mais efetiva dos governos ocidentais, principalmente dos Estados Unidos e da União Europeia. As questões humanitárias diante desse contexto devem prevalecer para evitar cenários semelhantes aos vistos no Oriente Médio, que interpretam a ingerência ocidental como uma guerra contra o islã.

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* Jim O´Neill é o economista que cunhou o termo BRIC em meados de 2001 para categorizar os países em desenvolvimento representados pela letra inicial de Brasil, Rússia, Índia e China. Posteriormente foi incluída a África do Sul, resultando na acrônimo BRICS.

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Imagem (Fonte):

http://cdn.cctv-america.com/wp-content/uploads/2014/07/NIGERIA-KIDNAPPING-MAP-800×500.jpg

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Fontes Consultadas:

Ver:

http://www.cfr.org/nigeria/boko-haram/p25739

Ver:

http://www.cfr.org/global/global-conflict-tracker/p32137#!/?marker=17

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http://www.cfr.org/nigeria/nigeria-security-tracker/p29483

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http://blogs.cfr.org/campbell/2014/11/20/can-the-u-s-help-nigeria-confront-boko-haram/

Ver:

http://www.brookings.edu/blogs/africa-in-focus/posts/2014/12/05-us-military-training-francophone-summit-nelson-mandela-copley

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http://www.brookings.edu/blogs/africa-in-focus/posts/2014/12/10-african-priorities-us-treasury-global-agenda-sy

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http://www.brookings.edu/research/reports/2013/04/africa-priority-united-states

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http://www.peacebuilding.no/Regions/Africa/Nigeria/Publications/Boko-Haram-origins-challenges-and-responses?hootPostID=9622fad49c53f601978b19362ec20c2e

Ver:

http://www.cfr.org/nigeria/boko-haram-origins-challenges-responses/p33643

Ver:

http://www.peacebuilding.no/var/ezflow_site/storage/original/application/5cf0ebc94fb36d66309681cda24664f9.pdf

Ver:

http://www.cfr.org/nigeria/us-policy-counter-nigerias-boko-haram/p33806?co=C009601

Ver:

http://www.cartacapital.com.br/internacional/boko-haram-de-seita-extremista-a-grupo-armado-5968.html

Ver:

http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2014/12/141211_ataques_jihad_lab

Ver:

http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2014/12/141211_jihadismo_entenda_cc

Victor José Portella Checchia - Colaborador Voluntário

Bacharel em Relações Internacionais (2009) pela Faculdades de Campinas (FACAMP), Especialista em Direito Internacional pela Escola Paulista de Direito (EPD) e Especialista em Política Internacional pelo CEIRI (Centro de Estratégia, Inteligência e Relações Internacionais). Atuou em duas grandes multinacionais do setor de tecnologia e na área de Cooperação Internacional na Prefeitura Municipal de Campinas com captação de recursos externos, desenvolvimento de projetos na área econômica e comercial e buscando oportunidades de negócios para o município. Atualmente é Consultor de Novos Negócios na Avanth International em Campinas/SP. Escreve semanalmente sobre América do Norte com foco nos Estados Unidos.

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