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EUA são cobrados por uma maior atuação na crise migratória europeia

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Os Estados Unidos da América (EUA) vêm sendo pressionados e criticados por países e organismos internacionais devido à falta de um maior envolvimento na busca por solução da crise migratória na Europa. Essa crise migratória é reflexo de pelo menos 15 conflitos que surgiram e/ou se acirraram nos últimos 5 anos, os quais têm feito um crescente número de mortos e promovido o deslocamento de milhares de refugiados.  Desses conflitos: oito deles são na África (Costa do Marfim, República Centro Africana, Líbia, Mali,Nordeste da Nigéria, República Democrática do Congo, Sudão do Sul e Burundi, neste ano); três no Oriente Médio (Síria, Iraque e Iêmen); um na Europa (Ucrânia); e três na Ásia (Quirguistão, e em diferentes áreas de Mianmar e Paquistão)[1].

De acordo com a Anistia Internacional, essa é a primeira vez desde a II Guerra Mundial, que um enorme contingente de pessoas está sendo obrigado a deixar suas casas por conta de guerras, conflitos e perseguições[2]. Em junho passado, um relatório do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) apontou que o número de refugiados tem crescido rapidamente. Em dezembro de 2013, havia aproximadamente 51,2 milhões de refugiados, já no final de 2014 esse número era de 59,5 milhões de pessoas, dos quais a metade é composta por crianças e jovens de até 18 anos. Desses, apenas 126,8 mil puderam retornar para seus países de origem. Atualmente, conforme dados desse relatório, a cada 122 pessoas no mundo 1 é solicitante de refúgio ou deslocado interno[3].

A imensa maioria desses refugiados são cidadãos sírios, fugindo da guerra civil que assola o país desde 2011. Desde que iniciou, o conflito já fez mais de 240 mil mortos, em torno de 7,6 milhões de deslocados internos e cerca de 4 milhões de refugiados. O Afeganistão tem cerca de 2,59 milhões de pessoas, que estão sumariamente refugiadas no Irã e no Paquistão. O terceiro país com maior número de refugiados no mundo é a Somália, com aproximadamente 1,1 milhão de pessoas[4].

Segundo um estudo da Organização das Nações Unidas (ONU), 86% dos refugiados estão abrigados em países menos desenvolvidos. A África do Norte e o Oriente Médio possuem uma população de 3,88 milhões de refugiados, sobretudo devido ao conflito na Síria, Iraque e na Líbia. Já a África Subsaariana totalizou 3,7 milhões de refugiados e 11,4 milhões de deslocados internos – 4,5 milhões dos quais ocorridos em 2014. Na Ásia há aproximadamente 9 milhões de refugiados.  A  Europa, entretanto, foi a região onde mais cresceu o número de solicitantes de refúgio, devido à crise na Ucrânia, às travessias de migrantes e refugiados pelo Mediterrâneo e ao grande número de refugiados sírios na Turquia. Jordânia, Líbano, Paquistão, Irã e Turquia são os países que mais recebem refugiados. No entanto, a Turquia recebeu quase 25% da população de refugiados sírios, e cerca de 200 mil iraquianos e é atualmente o país que recebe o maior número de refugiados[5].

O aprofundamento da crise migratória na Europa é reflexo ainda da falta de unidade e protelamento de medidas e soluções por parte dos países da União Europeia (UE). Em 2014, os países da UE adotaram iniciativas que buscavam impedir a chegada de refugiados. A Itália, por exemplo, reduziu o número de operações de resgate marítimo, o que resultou no aumento de fatalidades[6]. Ao longo de 2014, aproximadamente 219 mil pessoas conseguiram chegar à Europa através das águas do Mediterrâneo, mas 3.500 pessoas morreram ou desapareceram durante a travessia. Até início de setembro deste ano (2015), mais de 2.800 pessoas morreram ou desapareceram nessa rota e quase 400 mil pessoas conseguiram chegar à Europa[7].

Os diversos incidentes envolvendo refugiados, como, por exemplo, a ação livre de coiotes; o desaparecimento de 200 pessoas na costa da Líbia; a morte de 51 pessoas sufocadas no porão de uma embarcação e, ainda, a recente descoberta de um caminhão com 71 mortos, vítimas abandonadas por seus transportadores na Áustria, têm acirrado o debate em torno das políticas e ações adotadas, tanto de países da Europa, quanto das demais potências mundiais. 

Nesse sentido, países, autoridades e organizações internacionais têm cobrado um posicionamento mais assertivo dos Estados Unidos. No último final de semana, David Miliband, Chefe do Comitê Internacional de Resgate e ExSecretário de Relações Exteriores do Reino Unido, pediu que os Estados Unidos adotassem, assim como fizeram no passado, um papel de liderança nesse tipo de assunto, e que 1.500 refugiados abrigados em quatro anos é uma contribuição muito simplória para enfrentar o lado humano desse problema[8].

A China chamou atenção para a responsabilidade dos Estados Unidos nessa crise migratória, argumentando que conflitos na Síria,Líbia, Afeganistão e Iraque são consequências de intervenções dos EUA, que deterioraram a segurança local[9]. Nesse sentido, segundo autoridades do Governo da Rússia, os Estados Unidos são responsáveis em parte pelo aprofundamento da crise, uma vez que não consideram Bashar alAssad, Presidente da Síria, como um aliado na luta contra o Estado Islâmico. Nessa ordem de ideias, o cientista político Hossein Ruyvaran assinala que a atual situação revela a perda de controle dos Estados Unidos, mas que estes começaram o problema e devem assumir a responsabilidade pelas consequências[10].

Após pressões, a Casa Branca se pronunciou na última terça-feira, 8 de setembro, afirmando que avaliaria medidas adicionais para auxiliar os países que estão recebendo maciçamente refugiados. De acordo com Josh Earnest, PortaVoz da Casa Branca, o Governo NorteAmericano está considerando a adoção de uma série de medidas para auxiliar na resolução da crise[11]. No presente, os EUA concederam aproximadamente 4 bilhões de dólares em programas de alimentação e suporte a refugiados. Essas novas medidas, segundo Earnest, podem aumentar os fundos para alojamento e alimentação e também admitir um número maior de refugiados nos Estados Unidos.

No entanto, essas medidas deverão passar pela aprovação do Congresso NorteAmericano, que conta com maioria republicana, e que vê com ressalva o abrigo de refugiados sírios, por acreditarem que tal medida facilitaria a entrada para terroristas no país. Contudo, para James Zogby, Presidente do Instituto Árabe Americano, esse discurso traz à tona a visão de que sírios e iraquianos são terroristas e ainda a islamofobia[12].

Segundo comunicou o Departamento de Estado dos EUA, mais 300 refugiados devem chegar ao país até o final de setembro. No final de agosto, John Kirby, PortaVoz do Departamento de Estado, anunciou que os Estados Unidos deverão receber em 2016, entre 5 e 8 mil refugiados sírios e que, no presente, tem examinado a situação de 15 mil casos de reassentamento recomendados pela ONU[13].

Muito embora a crise venha se revelando um imenso desafio para a comunidade internacional, é preciso ter em mente algumas reflexões. Primeiramente, que a maior parte dos refugiados tem se abrigado em países em desenvolvimento e que pouco tem se discutido sobre o papel desses países no enfrentamento da crise. Nesse âmbito, Nicola Sturgeon, Chefe de Governo da Escócia, argumenta, por exemplo, que a solução da crise migratória precisa contar com a participação de potências regionais, como o Irã e a Rússia[14].

Outra reflexão diz respeito ao papel das grandes potências no enfrentamento da crise migratória. Ao que tudo indica, a Europa ainda está perdida na falta de conformidade sobre quais medidas devem ou não ser adotadas. Os Estados Unidos, por outro lado, têm se mantido distantes do debate. Tal posicionamento é criticado por Michael Ignatieff, professor da Harvard Kennedy School, assinalando que os Estados Unidos estão errados ao enxergar a crise como um problema da Europa, haja vista que o Governo NorteAmericano e seus aliados têm a responsabilidade com os refugiados sírios, uma vez que eles estão armando os rebeldes sírios e lutando contra o Estado islâmico no país[15]. Por fim, para além do conflito da Síria, conforme ressalta António Guterres, Alto Comissário da ACNUR, “é aterrorizante verificar que, de um lado, há mais e mais impunidade para os conflitos que se iniciam, e, por outro, há uma absoluta inabilidade da comunidade internacional em trabalhar junto para encerrar as guerras e construir uma paz perseverante[16].

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Imagem (Fonte):

http://www.un.org/apps/news/story.asp?NewsID=51748#.Ve-tuhFVikq

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Fontes Consultadas:

[1] Ver:

http://www.acnur.org/t3/portugues/noticias/noticia/relatorio-do-acnur-revela-60-milhoes-de-deslocados-no-mundo-por-causa-de-guerras-e-conflitos/

[2] Ver:

http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/09/150904_brasil_refugiados_sirios_comparacao_internacional_lgb

[3] Ver:

http://www.acnur.org/t3/portugues/noticias/noticia/relatorio-do-acnur-revela-60-milhoes-de-deslocados-no-mundo-por-causa-de-guerras-e-conflitos/

[4] Ver:

Idem.

[5] Ver:

Idem.

[6] Ver:

http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/08/150829_entenda_migracao_ab  

[7] Ver:

http://g1.globo.com/mundo/noticia/2015/09/eua-avaliam-aumentar-ajuda-por-crise-de-refugiados-da-siria.html

[8] Ver:

http://br.reuters.com/article/worldNews/idBRKCN0R60V220150906

[9] Ver:

http://www.noticiasaominuto.com/mundo/446203/china-acusa-eua-de-serem-culpados-pela-crise-migratoria-na-europa

[10] Ver:

http://br.sputniknews.com/mundo/20150907/2057810.html

[11] Ver:

http://g1.globo.com/mundo/noticia/2015/09/eua-avaliam-aumentar-ajuda-por-crise-de-refugiados-da-siria.html

[12] Ver:

http://br.reuters.com/article/topNews/idBRKCN0R727F20150907?pageNumber=1&virtualBrandChannel=0

[13] Ver:

http://g1.globo.com/mundo/noticia/2015/08/estados-unidos-recebera-entre-5-mil-e-8-mil-refugiados-sirios-em-2016.html

[14] Ver:

http://br.sputniknews.com/mundo/20150907/2057810.html

[15] Ver:

http://www.reuters.com/article/2015/09/06/us-europe-migrants-usa-idUSKCN0R60SE20150906

[16] Ver:

http://www.acnur.org/t3/portugues/noticias/noticia/relatorio-do-acnur-revela-60-milhoes-de-deslocados-no-mundo-por-causa-de-guerras-e-conflitos/

Jessika Tessaro - Colaboradora Voluntária Júnior

Pós-graduanda do curso de Especialização em Estratégia e Relações Internacionais Contemporâneas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). É Graduanda do Curso de Políticas Públicas da UFRGS e bacharel em Relações Internacionais pela Faculdade América Latina Educacional. No presente, desenvolve estudos sobre a geopolítica e a securitização dos Estreitos internacionais e Oceanos.

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1 Comments

  1. Catapora 12 de outubro de 2015

    Pior é que além dos EUA ter que cuidar do próprio país, ele tem que cuidar dos outros. Sinceramente, não existe o que fazer. A maioria das brigas são por causa de religiões, e não vai ser um acordo de paz entre presidentes que fará com que essa guerra deixe de existir. Pessoas são egoístas. Capaz do Obama se morto ao tentar fazer guerra de paz com tais países.

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