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Evo Morales apresenta-se no “Foro de São Paulo” como o atual “Estadista da América Latina”

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O “Presidente da Bolívia”, Evo Morales, encerrou o “Foro de São Paulo”* de 2013, apresentando-se como o Estadista que pode liderar o projeto de esquerda da “America Latina”, sendo possível afirmar que incorpora neste momento a função de herdeiro de Hugo Chávez, papel que alguns analistas acreditam que seria exercido por Rafael Correa, “Presidente do Equador”.

Antes de vir para o Foro, o mandatário boliviano foi declarado pelos participantes da “Cúpula Anti-Imperialista e Anticolonialista de Organizações Sociais” como líder mundial dos movimentos sociais, em reunião realizada em Cochabamba, Bolívia, no dia 1o de agosto, na qual havia delegações de 90 organizações sociais de 18 países[1].

Ao chegar ao Brasil, Evo participou, no sábado, dia 3 de agosto, de uma reunião privada com o ex-presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, quando, pelo que foi informado, ele lançou a ideia de se criar Comissões técnicas e jurídicas com o objetivo de assessorar (ele falou prevenir) sobre os problemas internacionais gerados com as estatizações que os países sob governos de esquerda vem realizando.

Afirmou: “Temos de começar a organizar esses conselhos econômicos e jurídicos com especialistas em temas internacionais que podem nos ajudar a lidar com esses processos que surgem porque nacionalizamos os serviços básicos, recursos naturais ou de telecomunicações[2].

A ideia é ter esses grupos de assessoria para ajudar nos embates com os “Organismos Internacionais”, pois, de acordo com suas concepções, os Estados saem sempre perdendo nas demandas que ocorrem envolvendo os casos de nacionalizações/estatizações. Como disse, “Nestas demandas nunca ganham os Estados, sempre ganham os privados. (…). Se nossos governos fracassarem em seus países, não poderemos seguir avançando[2].

Pelo que foi divulgado, a proposta partiu de Morales e não de Lula e ele a apresentou ao Ex-Presidente e não para a atual “Chefe de Estado do Brasil”, Dilma Rousseff, pelos laços de amizade e relação de confiança que detém com o brasileiro. No entanto, tal manifestação trouxe interrogações, pois diminuiu o papel da Presidente brasileira, já que ela é a sua anfitriã (são dois “Chefes de Estado”) e ele lhe colocou numa situação subalterna, além de ser ela a maior autoridade do país e a sucessora do governo Lula.

Por essa razão, começam a surgir dúvidas sobre a real autoria da proposta, apesar de Morales ter declarado que fez a sugestão e se dirigiu a Lula e não à Presidente, por motivos pessoais. Afirmou: “Tenho muito respeito pelo companheiro Lula. Construímos uma confiança com sinceridade quando ele era presidente e eu candidato, em 2005. Temos muitas coincidências[2].

No encerramento do “Foro de São Paulo”, o boliviano portou-se como o porta-voz das conquistas que interpreta terem sido alcançadas pela esquerda latino-americana e estão sendo ameaçadas. Nesse sentido, criticou a “Aliança do Pacífico”, identificando-a como um instrumento para dividir a Região. Conforme avaliou, é uma “tentativa dos Estados Unidos de usarem um ou dois presidentes para dividir a América do Sul. (…). A Aliança do Pacífico quer estabelecer o livre comércio e privatizar serviços essenciais. Esses governos estão condenados a enfrentar os povos em seus países[3]. No entanto, de acordo com alguns observadores, ele esqueceu, porém, que são três Presidentes (em futuro breve quatro, com Horacio Cartes, do Paraguai), e um deles, Olanta Humala (Peru), ascendeu como membro da esquerda latino-americana e, até chegar ao governo, apresentava-se explicitamente como bolivariano. Além disso, não há referência a privatizações.

No entanto, com essa postura, Morales mantém a linha discursiva de combate aos EUA, que é identificado como o inimigo externo causador da condição regional (é o principal agente das perdas e exploração da região, segundo a tese do Imperialismo), motivando a mobilização da sociedade contra o mal externo que age em parceria com as elites que confrontam a inclusão social conseguida pela ação do Estado na economia e pelo combate à iniciativa privada conservadora.

Esse comportamento de enfrentamento ao inimigo externo adotado pela esquerda que assumiu o poder constitui-se num dos principais elementos táticos da ação política, tanto que, na declaração final do Foro, a “Aliança do Pacífico” foi considerada uma “tentativa de sabotar a integração regional[3].

A linha discursiva de Morales foi mais adiante dessa questão e buscou também uma interpretação para atual situação regional em que os povos dos países sob governos autodenominados progressistas estão realizando críticas aos seus governantes e, além disso, as manifestações e movimentos sociais estão ocorrendo sem o comando das organizações e partidos de esquerda.

Afirmou, de forma doutrinária, que há “alguns partidos de esquerda que se dizem socialistas sem sê-lo. (…) …a luta [na Bolívia, por exemplo] não foi só para nos libertar da direita, mas também do sectarismo de alguns partidos de esquerda. (…). Alguns chegam a ser presidentes, depois há corrupção e o povo está irritado pela corrupção[4], não deixando claro a quem se referia, nem o que concebe como esquerda e direita, mas apenas jogando a culpa pelas falhas em algo que se pode interpretar de seu discurso que é uma “direita disfarçada de esquerda”, já que se trata de uma suposta “falsa esquerda”, uma vez que ascendeu ao poder dizendo-se assim e ele, Morales, parece dividir o mundo apenas entre esses dois segmentos.

Além disso, com um viés de pragmatismo, afirmou estar “convencido que se em um país, por mais que tenha um governo de esquerda, faltam alimentos, energia ou há problemas econômicos, não há governos que possam suportar os levantes dos povos. (…). Cuidado com esse tema. Assumir a responsabilidade de ganhar eleições para alguns é o poder político, mas a política não é poder. É a ciência de servir aos povos. E às vezes há abusos de poder e autoridade, e os povos estão cansados de abusos. (…). Se os partidos ou governantes de esquerda só pensam nas próximas eleições, estão equivocados. Os partidos de esquerda devem pensar nas próximas gerações, não eleições. (…) se os presidentes de esquerda fracassarem em um país, então não haverá avanços nos processos de libertação dos povos, que são a obrigação da esquerda[4].

É possível interpretar que, com essa abordagem, parece tentar reincorporar o discurso de que a política é algo maior que somente a luta pelo poder, concepção sobre a qual não havia mais manifestação, pois, conforme apontam observadores, parte significativa e dominante dos intelectuais socialistas vinculados aos partidos e ao governos em exercício passavam a apresentar os partidos políticos apenas como instrumentos de luta pelo poder e não como espaços para o debate e formulação de projetos de sociedade, razão pela qual, com esse discurso, reduziram também a política apenas à dimensão da busca pelo exercício do mando, bem como limitaram os militantes a funcionários e soldados para combate político sob a liderança de uma elite partidária incontestável e constrangeram o povo a ser massa de manobra, tanto que Morales declarou: “A política para nós não pode ser nem negócio nem lucro. Deve ser serviço[4], sugerindo a necessidade de um “manual de conduta esquerdista[4].

Apesar de o discurso de Evo ter sido reproduzido, desenvolvido ou de alguma forma antecipado por outros participantes do Evento**, analistas apontam que, no Foro, foi evidenciado que ele pode estar sendo apresentado como o herdeiro de Chávez para mostrar-se como a locomotiva ideológica neste futuro imediato, pois os governos socialistas estão vivendo uma crise generalizada e podem perder o poder, já que também estão perdendo o discurso capaz de “conquistar corações e mentes”, o que levará ao recuo dos projetos por eles impetrados na região, os quais, com a articulação conseguida pelo “Foro de São Paulo” a partir de 1990, mostraram-se como partes de um Projeto coletivo, graças a articulação e apoios mútuos dados entre os líderes que ascenderam ao poder nos países do subcontinente latino-americano.

Mostraram-se também como partes de um Projeto comum, graças, em especial, ao papel de cooptação que era exercido por Chávez (agora falecido), devido a sua personalidade e por ter formulado uma doutrina norteadora dos diálogos, além daquele papel exercido por Lula (que não se sabe com certeza qual papel ainda exerce e se voltará a exercer), que foi um forte centro de atenção, mais pela sua personalidade e pelo seu carisma natural, reforçado por excepcional e custoso trabalho de marketing político.

Conforme apontam os analistas, no momento, as lideranças de esquerda estão perdendo argumentos, projetos e credibilidade, não havendo uma delas que possa ser um farol para continuar o exercício de atração coletiva, talvez, por isso, os observadores estejam interpretando que o discurso e a postura de Morales parecem ter por missão atribuí-lo essa tarefa de reativar o trabalho de conquistar e atrair os corações e as mentes.

Destaca-se ainda que, nesta sua 19a edição, o Foro cumpriu o papel de reformular o argumento acusatório contra o capitalismo e os EUA, também de buscar campos de ação conjunta, bem como os temas de aproximação e, principalmente, o papel de homogeneização dos discursos que se espalharão pela região.

Neste momento, a ideia é rever os erros cometidos, dentre eles a corrupção, como forma de esvaziar as críticas das oposições no continente, atuando antecipadamente para dissipá-las e amenizar as falhas, já que buscarão uma forma comum de ação e de justificativa para os fracassos, bem como para a corrupção de que são acusados, tanto que o petista Valter Pomar afirmou que neste momento se vive uma “guerra de posições[5] e explicou a crítica que está sendo feita no Brasil à presidente brasileira Dilma Rousseff como “manobras da direita [para] sabotar seu governo[5].

Uma questão tem suscitado reflexões nos analistas acerca do discurso apresentado: o pragmatismo propugnado para resolver problemas gerados pelo esgotamento de um modelo de crescimento, tal qual afirmado, inclusive por Pomar. Nos argumento disponibilizado por Morales houve impressão de que o problema deve ser resolvido com uma pragmática captação de recursos e uma certa abertura, embora tenha determinado que os setores básicos não podem ser privatizados. A questão que ressalta diz respeito a forma como se está tentando equacionar o tema iniciativa privada.

Se for realidade que o modelo está esgotado, que os discursos da esquerda estão perdendo força de atração, que o Estado está vivendo problemas de gestão, de recursos e de confiabilidade, realça a dúvida sobre qual é o novo modelo propugnado e qual papel será atribuído ao empreendedor privado, uma vez que parece não haver recuo na certeza de que o Estado deve avançar sobre a sociedade, em especial sobre a economia.

Por isso, alguns analistas pensam numa situação histórica já vivida no início do século XX (final da primeira década e início da segunda, mais precisamente), quando se estabeleceu “dar um passo atrás, para dar dois à frente” nas relações com a propriedade privada dos meios de produção. A questão é que naquele momento se vivia uma Revolução que venceu o combate inicial e a economia estava dizimada, necessitando resgatar parte dela por meio da iniciativa privada para depois reiniciar o projeto de estatização, mesmo ao custo da violência e das mortes que ocorreram.

Na atualidade, século XXI, não ocorreu revolução, mas sim a atração de significativa parcela da sociedade para as ações socialistas, bem como apoio de parte expressiva das massas, graças ao crescimento econômico, o qual permitiu o avanço em propostas ousadas.

No entanto, este crescimento, no momento, está sob questionamento e não está gerando resultados que possam garantir expectativas no povo, por isso ele precisa ser retomado para que os líderes recuperem a credibilidade, abafem os problemas institucionais e minimizem as acusações que recebem, para, assim, avançaram em direção à revolução que ainda não ocorreu.

Por isso, o discurso de Evo pode ser a expressão coletiva da esquerda latino-americana, com um porta-voz importante, para dar um passo atrás na expectativa de que, no futuro breve, darão dois passos à frente.

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Que reúne 91 organizações de 37 países da AL e Caribe e, neste ano, foi realizado entre 31 de julho de 4 de agosto.

** Uma personalidade que apresentou argumento complementar a Morales foi o petista Valter Pomar, que destacou na conjuntura atual as consequências da crise econômica, da rearticulação do que ele denomina serem os conservadores, bem como do “esgotamento do modelo[5] econômico, mas por ele denominado de “modelo de crescimento[5]

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

http://port.pravda.ru/mundo/04-08-2013/35061-evo_morales-0/

[2] Ver:

http://www.dgabc.com.br/Noticia/473203/morales-quer-comissoes-para-processo-antiestatizacao?referencia=minuto-a-minuto-lista

Ver também:

http://www.opovo.com.br/app/opovo/politica/2013/08/05/noticiasjornalpolitica,3105033/morales-propoe-comissoes-contra-nacionalizacoes.shtml

[3] Ver:

http://www.redebrasilatual.com.br/mundo/2013/08/alianca-do-pacifico-e-tentativa-de-dividir-america-do-sul-afirma-evo-morales-1170.html

[4] Ver:

http://noticias.terra.com.br/brasil/politica/evo-morales-pede-decencia-humildade-e-compromisso-a-esquerda,162f4a935b040410VgnCLD2000000ec6eb0aRCRD.html

[5] Ver:   

http://www.opovo.com.br/app/opovo/radar/2013/08/05/noticiasjornalradar,3105110/morales-cobra-da-esquerda-combate-a-corrupcao.shtml

Marcelo Suano - Analista CEIRI - MTB: 16479RS

É Fundador do CEIRI NEWSPAPER. Doutor e Mestre em Ciência Política pela Universidade em São Paulo e Bacharel em Filosofia pela USP, tendo se dedicado à Filosofia da Ciência. É Sócio-Fundador do CEIRI. Foi professor universitário por mais de 15 anos, tendo ministrado aulas de várias disciplinas de humanas, especialmente da área de Relações Internacionais. Exerceu cargos de professor, assessor de diretoria, coordenador de cursos e de projetos, e diretor de cursos em várias Faculdades. Foi fundador do Grupo de Estudos de Paz da PUC/RS, do qual foi pesquisador até o final de 2006. É palestrante da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG-RS), tendo exercido também os cargos de Diretor de Cursos e Diretor do CEPE/CEPEG da ADESG de Porto Alegre. Foi Articulista do Broadcast da Agência Estado e do AE Mercado (Política Internacional), tendo dado assessoria para várias redes de jornal e TV pelo Brasil, destacando-se as atuações semanais realizadas a BAND/RS, na RBS/RS e TVCOM (Globo); na Guaíba (Record), Rádioweb; Cultura RS; dentre vários jornais, revistas e Tvs pelo Brasil. Trabalhou com assessoria e consultoria no Congresso Nacional entre 2011 e 2017. É autor de livros sobre o Pensamento Militar Brasileiro, de artigos em Teoria das Relações Internacionais e em Política Internacional. Ministra cursos e palestra pelo Brasil e no exterior sobre temas das relações internacionais e sobre o sistema político brasileiro.

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