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Exercício Militar AMAZONLOG 2017: entre o Pioneirismo e o Risco de Perda da Soberania

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Entre os dias 6 e 13 de novembro de 2017 ocorreu na tríplice fronteira Brasil-Colômbia-Peru, região conhecida como Trapézio Amazônico, o AMAZONLOG 2017, um exercício logístico pioneiro no subcontinente sul-americano idealizado pelo Exército Brasileiro, contando com a participação de 23 países, além do Brasil. Mesmo tendo havido certa polêmica quanto aos reais objetivos e finalidades do exercício, as manobras ocorreram e tiveram “balanço extremamente positivo”, segundo o Coronel do Exército Brasileiro, Evandro Itamar Lupchinski, Chefe de Comunicação do AMAZONLOG 2017.

O exercício multinacional interagências entre Brasil, Colômbia, Peru, Estados Unidos e demais países observadores, teve o objetivo de montar uma base militar multinacional temporária para o atendimento de emergências humanitárias como, por exemplo, possíveis ondas migratórias vindas da Colômbia e da Venezuela, e a ocorrência de incêndios e desastres naturais numa região de dificílimo acesso, como é aquela onde se deu a operação.

Militares de vários países acompanham a simulação de acolhida de refugiados no Brasil e elogiam a cooperação estimulada pelo AmazonLog 2017

Apesar de o exercício envolver os efetivos majoritários do Brasil (aproximadamente 1.550), da Colômbia (150), do Peru (120) e dos EUA (30), em um total de aproximadamente 2 mil homens envolvidos, houve bastante críticas à presença norte-americana no exercício conjunto, uma vez que a participação ativa dos EUA, como os críticos definiram a presença dos 30 militares, significaria perigo iminente para a soberania dos países sul-americanos. Todavia, o General Racine Bezerra, coordenador do AMAZONLOG 2017, afirmou na época que: “apenas Brasil, Colômbia e Peru, condôminos de uma fronteira comum, terão tropa no terreno, todos concentrados em Tabatinga (AM), porém atuando sempre no respectivo território”. Caberia ao efetivo norte-americano apenas ações de logística.

Até mesmo o Ministro da Defesa, Raul Jungmann, classificou como “míopes as críticas feitas à presença de tropas norte-americanas na Amazônia, já que o objetivo principal das manobras é prover ajuda humanitária emergencial em lugares de difícil acesso.

Contudo, as declarações e explicações do Exército Brasileiro e do Ministério da Defesa sobre a presença dos EUA num exercício militar na América do Sul não foram bem recebidas por parte de setores da esquerda e especialistas em Segurança e Defesa, tanto no Brasil como nos países vizinhos.

As críticas redundam em afirmar que o grande objetivo implícito no AMAZONLOG 2017 é estreitar os laços da Política de Defesa entre o Brasil e os EUA, visando enfraquecer os esforços de Defesa e Segurança no âmbito da UNASUL (União de Nações Sul-Americanas, mas especificamente no seu Conselho de Defesa Sul-Americano) e facilitar o acesso norte-americano aos abundantes recursos naturais como minérios, água e petróleo, existentes na Amazônia como um todo, não somente no território brasileiro. Outra vertente das críticas aponta que as manobras na região abrem caminho para ações e infraestrutura de monitoramento da situação na Venezuela por parte das Forças Especiais dos EUA e até mesmo para uma intervenção militar naquele país.

Como o AMAZONLOG foi inspirado num exercício semelhante realizado pela Organização Tratado do Atlântico Norte (OTAN) em 2015, na Hungria, e a base logística que deveria ser temporária se tornou permanente, analistas temem ainda que a base multinacional temporária instalada em Tabatinga para a realização do exercício possa se tornar também fixa e facilite a permanência de tropas dos EUA na região, garantindo a Washington o controle da Amazônia.

Porém, quando comparados o contexto do exercício na Hungria e o do AMAZONLOG 2017, parece que as chances de se firmar facilmente uma base multinacional aqui são muito pequenas. Na situação húngara, a fixação ocorreu no âmbito de uma aliança militar, no caso a OTAN, consignada por vários Estados-membros que anuíram conjuntamente para a instalação permanente da base, já no contexto sul-americano, este deu no âmbito de duas organizações intergovernamentais não especificamente militares, a Organização dos Estados Americanos (OEA) e a União de Nações Sul-Americanas (UNASUL), que divergem em vários pontos no tocante a Segurança e Defesa.

Levando-se em consideração as críticas quanto a presença dos EUA no exercício e seus reais interesses é possível traçar o seguinte quadro: caso uma mobilização mais ostensiva voltada para obtenção de recursos naturais estivesse em vias de acontecer, a participação norte-americana no AMAZONLOG 2017 não seria fator decisivo em mostrar tal intento, mesmo porque pelas vias comercial e diplomática há bons relacionamentos entre os países da tríplice fronteira Amazônica e os EUA. Ou seja, a configuração de arranjos materiais no território seria uma etapa posterior à configuração de arranjos políticos e comerciais.

No tocante a tese de que a base logística poderia servir de facilitador para incursões de Forças dos EUA visando monitorar a situação venezuelana, poderia ser levantada a questão: por que empreender tantos esforços materiais e humanos atravessando toda selva amazônica para vigiar, ou mesmo intervir na Venezuela, se isso pode ser feito a partir de bases e efetivos espalhados pela América Central com maior mobilidade e proximidade a Caracas (centro do poder venezuelano)? Acredita-se que, se há esforço coordenado dos EUA com relação ao petróleo venezuelano, a intervenção direta seria o último recurso na tentativa de uma mudança de regime favorável aos seus interesses. Além do mais, é pouco provável, diante do histórico regional, que os três países do Trapézio Amazônico, por assim dizer, condôminos de uma eventual base logística multinacional permanente, concordassem com o lançamento de tropas estrangeiras para tal finalidade em território venezuelano.

Um outro cenário possível, pouco considerado pelos críticos do exercício multinacional, é aquele no qual a participação dos EUA e demais Estados é vista como a presença de nações amigas que podem ampliar horizontes para indústria brasileira de Defesa, uma vez que o evento não contou apenas com a operação conjunta de logística, mas também com a exposição de materiais e seminário de ajuda humanitária. Mais do que isso, o evento é pertinente no sentido de fortalecer a cooperação entre os países da porção norte-andina do subcontinente sul-americano.

Mapa da Região Norte da América do Sul, onde está a área da operação” (adaptado)

A região onde foi instalada a base logística temporária do AMAZONLOG, o Trapézio Amazônico, é caracterizada por sua distância com relação aos poderes centrais dos três países limítrofes, pela baixa densidade populacional e pela presença do tráfico de drogas. A ausência do Estado no atendimento às populações favoreceu o surgimento do tráfico de drogas como alternativa econômica da região. Além disso, apesar da baixa densidade populacional, os fluxos migratórios são cada vez mais significativos na região desde os anos 1980, e com a atual situação na Venezuela a região pode receber um incremento considerável nesses fluxos. O quadro migratório ainda pode ser agravado por uma eventual guinada no acordo de paz na Colômbia, fazendo com que voltem a ocorrer os confrontos armados e consequentemente o aumento do número de pessoas que procuram refúgio longe dos combates.

Se é verdade que os problemas na região não podem ser resolvidos apenas com ações militares, também é verdade que ações como o AMAZONLOG ampliam os horizontes para a resolução conjunta dos problemas que afetam os três países do Trapézio, em outras palavras, aumenta o nível de cooperação para além do prisma da Defesa uma vez que o evento abarcou como um de seus objetivos principais o atendimento a emergências humanitárias. Não é por acaso que Brasil, Colômbia e Peru somam, desde o início dos anos 1990, em torno de 17 mecanismos bilaterais de integração e cooperação fronteiriça entre si. Tal fato mostra que, a despeito de haver interesses alheios à região por parte dos EUA, há também esforços com vistas a manutenção da soberania daqueles países.

Deve-se considerar que, de fato, há muito interesse estrangeiro pela Amazônia desde há muito tempo, mas deve ser admitido também que, devido aos já conhecidos problemas de segurança fronteiriços e a vulnerabilidade das populações nos locais ermos da Amazônia, a realização do AMAZONLOG 2017 pode trazer significativos resultados de cooperação multilateral na área da Indústria de Defesa e a consequente ampliação da capacidade de resposta das tropas brasileiras em casos não só de emergências humanitárias, mas, também, em ações de Defesa propriamente ditas.     

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 LogoHeader: Logomarca do AMAZONLOG 2017” (Fonte):

 http://amazonlog.net/index.html

Imagem 2 Militares de vários países acompanham a simulação de acolhida de refugiados no Brasil e elogiam a cooperação estimulada pelo AmazonLog 2017” (Fonte):

http://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2017-11/exercito-simula-crise-de-refugiados-na-triplice-fronteira-com-peru-e-colombia

Imagem 3 Mapa da Região Norte da América do Sul, onde está a área da operação” (adaptado) (Fonte):

https://www.google.com.br/maps/place/Am%C3%A9rica+do+Sul/@-4.7582052,-60.2784846,5z/data=!4m5!3m4!1s0x9409341c355d34b5:0x69d40ccfc9c6e32b!8m2!3d-8.783195!4d-55.491477

Gentilli Silveira - Colaborador Voluntário

1º Tenente da Polícia Militar do RN há 11 anos no serviço ativo. Atuou como coordenador nos Cursos de Nivelamento de Praças do Centro de Formação e Aperfeiçoamento da Polícia Militar (CFAPM) e como Chefe da Seção Técnica de Ensino nessa mesma Unidade. Mestrando em Relações Internacionais pelo Programa de Pós-Graduação em Ciência Política e Relações Internacionais da Universidade Federal da Paraíba (PPGCPRI/UFPB). Especialista em Geopolítica e Relações Internacionais pelo Centro Universitário Claretiano (CEUCLAR). Graduado em Geografia pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) tendo atuado como professor bolsista do Programa Complementar de Estudos para Estudantes do Ensino Médio (PROCEEM) vinculado a Pró-Reitoria de Graduação da referida Instituição Superior de Ensino. Certificado em Fundamentos da Integração Regional – Mercosul, pelo Instituto Legislativo Brasileiro (ILB). Multiplicador de Técnicas Policiais certificado pelo Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE/PMRN). Atualmente exerce a função de Chefe da Agência Regional de Inteligência (ARI) do 5º Batalhão da PMRN.

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1 Comments

  1. Sérgio fagundes 26 de Fevereiro de 2018

    Acredito que o pioneirismo e as ações positivas advindas deste, sobrepõem o risco de algo negativo que possa existir no futuro.
    Excelente artigo.

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