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“FC Barcelona” x “Real Madrid”: uma rivalidade histórica, para além do campo

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A evolução social do Futebol durante os séculos XIX e XX concedeu ao esporte uma característica que está além da sua significância esportiva. Por mais que para alguns sociólogos e para parcela significativa da sociedade o Futebol não tenha relevância os fatos históricos mostram o contrário. Quando torcidas de clubes ajudam a derrubar ditadores e contribuem para o estouro de guerras iminentes, a redução simplista não pode mais ser usada diante do amplo significado social que o esporte carrega.  Dentro da Espanha, uma rivalidade em especial dá todo significado à luta presente desde a formação daquele Estado: “Real Madrid” e “FC Barcelona” não são apenas clubes de futebol, eles são, e foram – principalmente durante a “Ditadura franquista” – as expressões dos sonhos e aspirações de duas nações que fazem parte de um mesmo Estado.

 

O Futebol espanhol pode ser dividido em três fases, durante o período que vai de 1898 (ano de fundação do “Athlétic Bilbao”) até 1975 (ano da morte do general Franco). No início do século, ele se tornou um grande articulador das identidades nacionais da Catalunha e do “País Basco”, tendo ambas as regiões suas seleções nacionais e conseguido converter seus principais clubes em símbolos de identidade, no caso, respectivamente, o “FC Barcelona” e o “Athlétic Bilbao”.

Durante os primeiros anos da “Ditadura Franquista” ocorrera um movimento de oposição a função social que o Futebol adquirira nas regiões autônomas espanholas. A Ditadura foi marcada pelo processo de nacionalização, mas um nacionalismo centralista, para o qual o “Regime Franquista” utilizou do clube “Real Madrid” como embaixador da nação espanhola. O final do Regime, entretanto, assistiu o retorno de “Athlétic Bilbao” e “FC Barcelona” como símbolos dos nacionalismos basco e catalão, voltando ainda os dois clubes citados a serem representantes de ambas as aspirações nacionalistas.

Apesar de o regionalismo espanhol datar de antes da formação de seu Estado, é nos séculos XIX e XX que há o aprofundamento dessa regionalização. Além das divergências culturais e ideológicas, a questão econômica contribuiu para o acirramento das diferenças regionais dentro da Espanha. Enquanto Catalunha e “País Basco” eram regiões industrializadas, sendo a Catalunha uma das principais produtoras de tecidos ao final do séc. XIX, a região central de Madrid era basicamente latifundiária. Visto que o governo central fora e ainda está localizado nesta cidade, muitas das decisões econômicas eram tomadas em favor dos interesses da região central, em detrimento das demais. Isso não só incentivava as rivalidades, como acentuava os interesses separatistas.

As rivalidades que já eram grandes cresceram quando em setembro de 1923 o general Miguel Primo de Rivera tenta um “Golpe de Estado” e consegue que o Rei Alfonso XIII lhe outorgue poder, dando início a uma Ditadura que perdurou por sete anos, a qual tentou instaurar na Espanha um modelo fascista, como o vista na Itália de Mussolini. Durante seu governo, Primo de Rivera proibiu todas as formas de regionalismo, fazendo com que vários clubes passassem seus nomes para o castelhano.

Em 1930, com a declaração da “República Espanhola” a situação voltou ao normal, contudo, com o inicio da “Guerra Civil” três anos mais tarde e com a ascensão do general Franco ao poder, em 1936, quaisquer expressões de regionalismo novamente foram proibidas. Nesse contexto, o “FC Barcelona” foi perseguido e quase deixou de existir. O time catalão sofreu duros golpes logo no início, dado que a cidade de Barcelona foi uma das frentes que mais resistiu às “tropas franquistas”. Seu presidente foi assassinado, seus torcedores perseguidos e o governo central havia instalado um de seus homens de confiança para garantir a ordem azulgrana. Enquanto isso, o “Real Madrid” aplicava vitórias épicas em seus maiores adversários e recebia condecorações no “Palácio Real”.

Foi nesse contexto que nasceu uma das maiores rivalidades que o mundo do Futebol já viu. “FC Barcelona” e “Real Madrid” e o papel dessa rivalidade na história recente da Espanha é a prova de que o Futebol, quando unido a valores e ideologias, é muito mais do que um elemento de entretenimento das massas.

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Fontes:

BALCESLLS, Albert. Breve Historia del Nacionalismo Catalán. Madrid. Alianza Editorial, 2004.

DÍAZ, Victor Pérez. La Primacía de la Sociedad Civil: El Proceso de formación de la España democrática. Madrid. Alianza Editorial, 1993.

GÓMEZ, Daniel. La pátria del Gol: Fútbol y Política en el Estado Español. Zarautz. Alberdania, 2007.

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