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Futebol na Revolução: o papel dos Ultras na queda de Mubarak

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Desde o final de 2010, diversos movimentos populares surgiram no Oriente Médio e no Norte da África contra os regimes autoritários que estavam (e vários ainda estão) em vigência na região. Estes protestos foram interpretados como o acordar dos povos árabes, ganhando então a alcunha de Primavera Árabe, uma homenagem a Primavera de Praga, que durante parte  do ano de 1968, em plena época da União Soviética, produziu uma reforma na política e na economia da então Tchecoslováquia[1].

Além desta terminologia, outros fatores receberam atenção da mídia internacional para estes processos de emancipação, destacando-se a utilização de mídia sociais como Facebook e Twitter para organizar as manifestações.

Como é de conhecimento público, nem todos as manifestações foram bem sucedidas produzindo trocas de governos ou reformas governamentais, já que alguns povos ainda lutam pela sua liberdade, como continua ocorrendo na Síria[2]. Um dos casos mais estudados é o Egito, que foi um dos primeiros países onde a ditadura vigente foi deposta dando espaço a um Governo escolhido por sufrágio, o qual, por sua vez, foi deposto por um golpe militar um ano após o início de seu mandato.

As manifestações que ocorreram na Praça Tahrir no Cairo a partir de meados de 2011,  tiveram como inspiração as que ocorriam no mesmo período na Tunísia. Diversos setores populares foram às ruas, insatisfeitos com a situação política e econômica em que se encontrava o país e não respeitaram o toque de recolher imposto pelo Regime.  Entre os vários problemas sobre os quais a população protestava estavam a brutalidade policial, a alta taxa de desemprego, a corrupção e a falta de liberdade de expressão, necessidades básicas que o Governo não provia ou problemas que ele não enfrentava adequadamente.

No período de Mubarak, houve muito poucas chances para a oposição de vencer uma eleição, sendo ele reeleito durante 24 anos como candidato único. Emergiu, assim, na população que participava dos eventos, o sentimento de uma grande necessidade de mudança política para que houvesse a possibilidade de alcançar melhorias sociais.

A utilização de mídias sociais foi primordial para a organização destes protestos na Praça Tahrir e demais espaços públicos, mas, curiosamente, sem o apoio das torcidas organizadas dos dois maiores times de futebol do país não teria existido o desfecho positivo para a mudança que ocorreu, pois estas já tinham certa experiência com o Governo e com o aparato policial, conseguindo, com sua experiência, proteger a população durante diversos protestos.

Uma das batalhas travadas entre a população e os apoiadores do ditador, conhecida como a Batalha dos Camelos, é considerada como um ponto importante na queda de Mubarak. Nesta batalha, 100 ultras colocaram-se entre os manifestantes e os apoiadores de Mubarak, defendendo a população, aqueles manifestantes que estavam na Praça, durante mais de duas horas.

A presença de torcedores de futebol, representando os dois maiores rivais do Egito, Al Ahly e Zamalek, unidos com o mesmo objetivo de retirar o ditador do poder e pedir por mais liberdade para o povo Egípcio foi um momento único na Revolução Egípcia de 2011[3].

Alguns dias depois, Mubarak renunciou ao seu cargo de Presidente dando lugar a uma Junta Militar. Os protestos para eleições livres continuaram por mais de um ano, até as eleições de 2012, que ocorreram entre março e junho e elegeram o candidato da Irmandade Muçulmana, Mohamed Morsi[4].

A participação das torcidas organizadas conhecidas como Ultras na Revolução do Egito de 2011 foi muito importante para a defesa da liberdade de expressão, para o protesto e para conseguir a renúncia do presidente Mubarak, especialmente  devido a sua experiência no enfrentamento da policia[5].

Antes da eleição de Morsi, no entanto, ocorreu em Port Said um evento trágico que foi considerado uma retaliação contra os Ultras do Al Ahly e, conforme apontam os observadores internacionais, realmente foi. Durante uma partida do Al Ahly e Al Masry, ocorreu um confronto entre torcidas e a Polícia interveio fazendo com que o balanço de perdas humanas chegasse de 74 cidadãos do lado dos torcedores do Al Ahly, além de milhares de feridos[6]

Nesse sentido, passou a ser justificada e necessária a pesquisa sobre a politização dos torcedores de futebol, que se tornou um objeto de estudo, em especifico para compreender a função destas torcidas organizadas em protestos políticos[7].

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* A República Socialista da Tchecoslováquia deixou de existir em 1993, com a separação amigável em dois países: a República Tcheca e a Eslováquia.

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Glossário (Ultras): Os Ultras como fenômeno entre as torcidas organizadas de futebol surgiram na década de 1960, no Sul da Europa, mais especificamente na Itália. Woltering, no entanto, indica que o fenômeno dos Ultras europeus foi inspirado nas torcidas brasileiras, que emergiram inicialmente nos anos de 1930. Maiores informações, ver:

http://www.coe.int/t/dg4/sport/Source/T-RV/T-RV_2010_03_EN_background_doc_Prof_PILZ.pdf

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ImagemManifestação em 2012 no Cairo. Ultra com bandeira homenageando os 74 mortos em Port Said” (Fonte):

http://english.ahram.org.eg/UI/Front/MultimediaInner.aspx?NewsContentID=36843&newsportalname=Multimedia

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Fontes Consultadas:

[1] Sobre a comparação dos dois movimentos, ver:

http://seer.ufrgs.br/ConjunturaAustral/article/viewFile/34863/25324

[2] Sobre o conflito na Síria e a guerra contra o ISIS, ver:

http://www.theguardian.com/world/2014/nov/01/us-bombs-isis-positions-syria-iraq;

Ver também artigos relacionados na página:

http://jornal.ceiri.com.br/category/c33-analises-de-conjuntura/c229-oriente-medio/

[3] Sobre a união entre Zamalek e Al Ahly, ver:

http://www.aucegypt.edu/newsatauc/Pages/Story.aspx?storyID=927

Ver também o Blog do James Dorsey:

http://mideastsoccer.blogspot.com

[4] Ver o artigo de James Montague:

http://edition.cnn.com/2011/SPORT/football/06/29/football.ultras.zamalek.ahly/

[5] Idem.

[6] Notícia sobre o Massacre de Port Said, ver:

http://www.brasildefato.com.br/node/9142

[7] Sobre torcidas organizadas, ver:

https://www.academia.edu/2449139/Unusual_Suspects_Ultras_as_Political_Actors_in_the_Egyptian_Revolution

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Ver também:

http://www.alarabiya.net/articles/2012/02/10/193756.html

Ver também:

http://www.vice.com/pt_br/read/ultras-anarquistas-e-conflitos-nas-ruas-do-egito

Assistir também a palestra de James Dorsey sobre o impacto do futebol na politica do Oriente Médio:

https://www.youtube.com/watch?v=SUwwz4Ug8m0

Ver também o Blog do James Dorsey:

http://mideastsoccer.blogspot.co.uk/

Ver ainda (MONTAGUE, James  – Ultras: How Egyptian Football Fans toppled a Dictator). Disponível em:

http://www.amazon.co.uk/Ultras-Egyptian-Football-Toppled-Dictator-ebook/dp/B00EXUIZ0K

Ver ainda:

OLIVEIRA, Luciana G.; SILVA, Matheus C. Futebol e Política no Mundo Árabe: a revolução dos Ultras no Egito. In: II Simpósio internacional de estudos sobre o Futebol, 2014, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo. Anais do II Simpósio internacional de estudos sobre o Futebol, 2014. p. 83.

Thomas Farines - Colaborador Voluntário Júnior 1

Mestrando em Estudos Políticos do Oriente Médio e do Mediterrâneo no King’s College London. Especialista em História e Política do Oriente Médio e Maghreb. Possui Bacharelado em Historia pela UFSC. Participou de diversos projetos de pesquisa ligados ao CNPQ: A imagem do Outro em relatos de viajantes; Diáspora Africana no Brasil e Movimento Sem Terra. Hoje, além de trabalhar academicamente com Esporte para o Desenvolvimento e para a Paz, é treinador voluntário em um projeto que ensina jovens de bairros desprivilegiados a jogar futebol.

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