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Observadores apontam que as ameaças de ruptura do atual sistema internacional graças aos inúmeros acontecimentos das últimas semanas são os principais desafios da política externa norte-americana para os 1.000 dias restantes da administração Obama.

A queda de um avião da companhia Malaysia Airlines, em Donestk, leste da Ucrânia, matando 298 pessoas (último grave avanço da Crise Ucraniana) e a invasão por terra de tropas israelenses na Faixa de Gaza são dois novos cenários de beligerância e de ameaça de ruptura da ordem internacional que já concentravam os entreveros no Iraque (com o cenário de possível fragmentação do país através da implantação de um Califado no Norte do país*), a Guerra Civil na Síria (que já vitimou aproximadamente 200 mil pessoas entre civis e militares), as disputas políticas sangrentas durante o processo eleitoral no Afeganistão e o difícil acordo entre o Irã e o P5+1 (Estados Unidos, China, Rússia, França, Reino Unido e Alemanha), referente ao Acordo Nuclear Iraniano.

Nos Estados Unidos de Barack Obama, a política externa ganhou contornos multilaterais, em certa medida com propostas de soft power na condução de disputas geopolíticas e militares herdadas de seu antecessor, George W. Bush (2001-2008). Entretanto, essa condução mais diplomática e menos bélica, por mais elogiosa que possa ser na perspectiva ideal da política internacional, cobrou um alto preço, uma vez que os Estados Unidos, em processo de recuperação econômica e analisando integrações comerciais (como a Parceria Transatlântica** e a Parceria Trans-Pacífico***), direcionaram os esforços de sua política externa (reduzindo o foco de questões como os desequilíbrios geopolíticos ainda latentes na região do Médio Oriente) e privilegiaram medidas de política interna de matiz econômica. Essa posição, no entanto, fragilizou os Estados Unidos no papel de liderança global, embora tenha rendido a Obama dois mandatos.

Diante desse quadro e da convulsão na Síria, Iraque, Líbia e agora entre israelenses e palestinos, a Secretaria de Estado****, como acontece normalmente em todo fim de mandato de um Presidente americano, viu seus esforços ruírem com rapidez, à medida que a velocidade das negociações era demasiadamente lenta, mostrando a fragilidade existente em discutir temas de pacificação entre povos tão divergentes nas esferas religiosa, cultural e política.

Com um quadro cada vez mais calamitoso no Oriente Médio (em especial nos confrontos em Gaza, em que há pressão das convenções de Direito Internacional, principalmente as que remetem aos Direitos Humanos) pode-se nesse momento pensar que tipo de suporte Washington estará disposta a oferecer para tentar cessar à violência usada por todas as partes envolvidas, incluindo a considerada desproporcionalidade da resposta de  Israel na Faixa de Gaza, tal qual contextualizaram alguns Estados, dentre os quais o Brasil.

De acordo com Aaron David Miller, especialista em Oriente Médio do Wilson Centera administração da instabilidade é o ‘novo normal’ da política externa dos EUA[1]. Para ele, “os futuros dirigentes americanos serão mais avessos ao risco e tentarão encontrar um equilíbrio entre a retirada dos problemas globais e a tentativa de transformar tudo. Isso ocorrerá independentemente de o presidente querer ou não. Isso será definido pela natureza do que o mundo é[1].

Essa tendência elucidada pelo especialista do Wilson Center evidencia o ceticismo norte-americano em voltar a prover um poder hegemônico através da força, muito provavelmente sabendo que as últimas incursões militares podem ter contribuído em parte para os desequilíbrios enfrentados atualmente. Da mesma forma, evidencia que o Governo estadunidense vem direcionando suas políticas e sua economia para enfrentar uma estagnação somente vista em 1929, com a Grande Depressão.

Em suma, para muitos analistas, o papel dos Estados Unidos, hoje, não será como em situações anteriores, pois, por exemplo no Oriente Médio, outros Estados***** gozam de grande influência no desenho político da região. O Egito, agora comandado pelo general Abdul Fatah Khalil Al-Sisi****** entende que o conflito árabe-israelense tem ramificações no antigo centro de comando do Governo egípcio e, para tanto, uma condução que acarrete em benefícios para um grupo ligado a Irmandade Muçulmana seria um risco para a sua estabilidade interna. Por essa razão, o Egito, num acordo tácito, uniu-se a Israel no que tange ao estrangulamento da fronteira, destruindo túneis que eram usados para transportes de suprimentos ao Hamas. A Arábia Saudita e o Qatar, protagonistas na condução de políticas para a região, reuniram-se também para tratar do tema e evitar que a região tenha mais um foco de instabilidade.

Assim, de acordo com especialistas em Oriente Médio, a maior preocupação está relacionada às divisões regionais que podem inflar o conflito e, nesse sentido, para um cessar-fogo, o quadro atual exige flexibilidade de todos os atores envolvidos(Israel, Hamas, Egito, Arábia Saudita, Qatar e o Ocidente,na versão de Washington), que agora apresentam uma voz ativa que outrora nem todos tinham e com uma necessária aceitação dessa situação por parte dos EUA que antes não havia.

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* Perpetrado por um grupo islâmico insurgente denominado Estado Islâmico do Iraque e do Levante (ISIL – Islamic State of Iraq and al-Sham – ISIL, na sigla em inglês).

** Parceria Transatlântica: Acordo de Integração Econômica entre EUA e União Europeia.

*** Parceria Trans-Pacífico: Acordo de Integração Econômica em negociação, que envolve os seguintes estados: Austrália, Brunei, Chile, Canadá, EUA, Malásia, México, Nova Zelândia, Peru, Singapura e Vietnã. (Como parte da política “Pivot para Ásia)

**** Que na figura de John Kerry investiu grande capital político para instaurar um processo de paz definitivo entre árabes e judeus.

***** Mais precisamente os árabes, como o Egito, Arábia Saudita e o Qatar.

****** Após substituir Mohammed Mursi, da Irmandade Muçulmana, aliada do Hamas.

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Imagem (Fonte):

http://www.haaretz.com/polopoly_fs/1.476025.1393549025!/image/2057189847.jpg_gen/derivatives/landscape_640/2057189847.jpg

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

http://internacional.estadao.com.br/noticias/geral,crises-externas-pressionam-obama-imp-,1531356

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Ver também:

https://www.project-syndicate.org/commentary/richard-n–haass-argues-that-the-middle-east-is-less-a-problem-to-be-solved-than-a-condition-to-be-managed

Ver também:

http://www.cfr.org/israel/media-call-gaza/p33262

Ver também:

http://www.brookings.edu/research/opinions/2014/07/24-israel-gaza-deterrence-byman

Ver também:

http://edition.cnn.com/video/data/2.0/video/bestoftv/2014/07/24/exp-analyst-israel-gaza-conflict-cause.cnn.html

Ver também:

https://news.vice.com/video/the-islamic-state-trailer

Ver também:

http://www.valor.com.br/internacional/3624474/crise-regional-reduziu-o-apoio-arabe-aos-palestinos-contra-israel

Ver também:

http://www.cartamaior.com.br/?%2FEditoria%2FInternacional%2FGaleano-Pouca-Palestina-resta-Pouco-a-pouco-Israel-esta-apagando-a-do-mapa%0A%2F6%2F31420

Ver também:

http://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Internacional/Por-que-os-EUA-e-Israel-estao-tao-interessados-que-o-caos-na-Palestina-perdure-/6/31433

Ver também:

http://www.pragmatismopolitico.com.br/2014/07/israel-contra-o-mundo-e-netanyahu-entre-os-inimigos-da-humanidade.html

Ver também:

http://www.pragmatismopolitico.com.br/2014/07/entrevista-lider-hamas-bbc.html

Ver também:

http://www.onu.org.br/ninguem-em-gaza-esta-seguro-diz-chefe-de-agencia-da-onu/

Ver também:

http://internacional.estadao.com.br/noticias/oriente-medio,declinio-do-hamas-e-motor-do-conflito-imp-,1531341

Ver também:

http://internacional.estadao.com.br/noticias/geral,quando-e-como-usar-a-forca-imp-,1531693

Ver também:

http://internacional.estadao.com.br/noticias/geral,crises-externas-pressionam-obama-imp-,1531356

Victor José Portella Checchia - Colaborador Voluntário

Bacharel em Relações Internacionais (2009) pela Faculdades de Campinas (FACAMP), Especialista em Direito Internacional pela Escola Paulista de Direito (EPD) e Especialista em Política Internacional pelo CEIRI (Centro de Estratégia, Inteligência e Relações Internacionais). Atuou em duas grandes multinacionais do setor de tecnologia e na área de Cooperação Internacional na Prefeitura Municipal de Campinas com captação de recursos externos, desenvolvimento de projetos na área econômica e comercial e buscando oportunidades de negócios para o município. Atualmente é Consultor de Novos Negócios na Avanth International em Campinas/SP. Escreve semanalmente sobre América do Norte com foco nos Estados Unidos.

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