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Geórgia e Ucrânia assinam acordo de parceria estratégica

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Em 18 de julho, o Presidente da Ucrânia, Petro Poroshenko, e da Geórgia, Giorgi Margvelashvili, assinaram em Tbilisi, capital georgiana, a Declaração de Estabelecimento de Parceria Estratégica, que tem o objetivo de “fortalecer a cooperação nos fóruns bilaterais e multilaterais, levando em consideração interesses comuns e desafios similares”. O Chefe-de-Estado ucraniano ainda prevê que os 526 milhões de dólares registrados no comércio bilateral entre os dois países em 2016 poderão ser dobrados dentro de alguns anos.

Além do passado soviético em comum, as duas Repúblicas seguiram trajetórias similares depois que conquistaram suas independências. Ambas procuraram se afastar de Moscou e buscaram uma maior integração com as instituições ocidentais, sobretudo a União Europeia e a OTAN. Com este intuito, fundaram em 1997 a GUAM, grupo político com o propósito de resistir ao grande poder de influência do Kremlin e que também conta com a Moldova e o Azerbaijão. Em 2003 e 2004, respectivamente, Geórgia e Ucrânia também foram palco do que ficou conhecido como “Revoluções Coloridas”, que levaram à substituição de regimes favoráveis à Rússia por outros alinhados ao Ocidente.  

Em 2008, após ser derrotada em uma guerra contra os russos, a Geórgia perdeu definitivamente o controle sobre a Ossétia do Sul e Abecásia, duas províncias integrantes de seu território internacionalmente reconhecido. Em 2014, a Rússia incorporaria a península da Crimeia, anteriormente parte da Ucrânia. Rebeldes apoiados por Moscou também passaram a controlar a região de Donbas, no extremo leste do país, onde proclamaram unilateralmente as Repúblicas Populares de Donetsk e Lugansk. Neste contexto, a solidariedade mútua pelo restabelecimento da integridade territorial dos dois Estados passou a ser o elemento que mais aproxima georgianos e ucranianos.

Presidente Poroshenko em Tbilisi

Entretanto, desde 2015, quando Poroshenko convidou o ex-Presidente georgiano, Mikheil Saakashvili, para assumir o posto de Governador da Província de Odessa, as relações entre Ucrânia e Geórgia se tornaram turbulentas. O ex-mandatário georgiano, que havia deixado o poder em 2013, teve cassada a sua cidadania depois que assumiu a nacionalidade ucraniana, além de ter sido acusado de corrupção e abuso de poder em seu país natal, o que resultou em um pedido de extradição ainda não atendido por Kiev. Em contrapartida, passou a tecer críticas frequentes à administração que o sucedeu em Tbilisi. Sua renúncia ao governo de Odessa, em 2016, abriu espaço para a retomada dos diálogos entre os dois países.

Protestos durante a ‘Revolução Laranja’, em Kiev, 2004

Pivô da crise diplomática anos antes, Saakashvili parece ter se tornado vítima da recente reaproximação entre Kiev e Tbilisi. Em 26 de julho, dias depois de sua visita oficial à Geórgia, Poroshenko retirou a cidadania ucraniana de seu antigo aliado político, no que parece ter sido um gesto de boa vontade às autoridades georgianas. Saakashvili, que exerceu o poder em dois países diferentes, hoje se encontra desprovido de qualquer nacionalidade. Ele possui visto de trabalho nos Estados Unidos até o final de 2017, onde atualmente se encontra. 

Mais que um acordo de cooperação, o estabelecimento da parceria estratégica mira a Rússia como adversária. O próprio Poroshenko corrobora com esta percepção ao afirmar, durante sua visita a Tbilisi, que “temos um agressor comum – tanto a Ucrânia quanto a Geórgia – este é a Federação Russa”. No entanto, se Kiev e Tbilisi, em anos anteriores, poderiam contar com o Ocidente como aliado, hoje o auxílio é mais retórico do que prático. As promessas de expansão continuada da OTAN para o Leste não foram concretizadas e a União Europeia, sofrendo com crises internas, não apenas parou de aceitar membros, como passou a perdê-los. Assim, ucranianos e georgianos, cada vez mais, parecem apenas contar uns com os outros.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Bandeiras da Ucrânia e Geórgia” (Fonte Rodrigo Monteiro de Carvalho):

Montagem do autor a partir da Wikipédia

Imagem 2Presidente Poroshenko em Tbilisi” (Fonte):

http://www.president.gov.ua/en/news/ukrayina-ye-nadijnim-torgovelnim-partnerom-prezident-zaprosi-42490

Imagem 3Protestos durante a Revolução Laranja’, em Kiev, 2004” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Orange_Revolution#/media/File:Morning_first_day_of_Orange_Revolution.jpg

Rodrigo Monteiro de Carvalho - Colaborador Voluntário

Mestrando no programa de Pós Graduação em História Comparada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e graduado em História também pela UFRJ. Atua na área de Política Internacional, formação de alianças e segurança regional. Desenvolve pesquisas com enfoque específico no estudo dos países do Cáucaso do Sul, Eurásia e espaço pós-soviético. É membro do Grupo de Pesquisas de Política Internacional (GPPI/UFRJ) e do Laboratório de Estudos dos Países do Cáucaso (LEPCáucaso).

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